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Voar a solo

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Madalena Patacho

Viajar sozinho não tem equivalente. Para muitos, é a única forma de viajar. Não precisando de ser tão radicais, dizemos-lhe que deve fazer uma viagem a solo - nem que seja uma vez na vida

No início do século XX, viajar era parte integrante da educação de uma pessoa - e os mais endinheirados tiravam um ano da sua vida para se instruírem, ao vivo e a cores, sobre as "civilizações antigas". Fazer a "viagem à Europa", ir até às antigas civilizações pré-colombianas, ou conhecer 'in loco' a cultura do Egipto Antigo e a Antiguidade Clássica na Grécia e em Roma, completavam a formação de um jovem.

Hoje, um século mais tarde, a viagem massificou-se, democratizou-se, e viajar passou a estar acessível a muitos. A maioria dos viajantes leva companhia, mas ainda assim, há quem goste de, pelo menos uma vez por ano, fazer uma viagem a solo. É completamente diferente, dizem todos unanimemente. Estar sozinho apura os sentidos - está-se muito mais aberto ao contacto com os outros, faz-se amigos com mais facilidade e está-se totalmente disponível para mudar de planos num segundo. Além do mais, numa viagem a solo os únicos desejos que importa satisfazer são... os nossos. Há ainda outras vantagens: capacidade acrescida de "desenrascanço", e uma oportunidade para passar tempo consigo próprio, e perceber em que "sítio" está na relação consigo, são algumas delas.

Alexandra Alves Luís no Vietname com uma mulher da etnia Red Yao. Há mais de 30 anos que Alexandra viaja sozinha, por opção

Alexandra Alves Luís no Vietname com uma mulher da etnia Red Yao. Há mais de 30 anos que Alexandra viaja sozinha, por opção

Alexandra Alves Luis

O primeiro sonho de Alexandra Alves Luís já se prendia com a viagem. "Quando era pequenina, queria ser hospedeira, para poder viajar", explica a técnica de projetos de 48 anos, formada em Gestão. "Hoje, sabendo o que sei, acho que deveria ter sido piloto, para não estar dependente de ninguém", diz, com um sorriso. A prioridade de Alexandra é viajar. Tudo o que faz, todo o dinheiro que poupa é para esse objetivo. Solteira e sem filhos, já foi a 106 países - a última vez que contou - "mas não é assim que escolho", assegura. Hoje, conta com destinos no "currículo" tão diferentes como a Antártida, Coreia do Norte, o arquipélago de St Joseph, as Bijagós, na Guiné Bissau, a Etiópia, a Birmânia, a Gronelândia. Fez a viagem do Transmongoliano, de Pequim a S. Petersburgo, ou uma expedição aérea que sobrevoou Moçambique, a Namíbia ou o Botswana. Mas a grande particularidade de Alexandra não é sequer essa. É que viaja sempre sozinha. Por opção. E adora.

No mapa-mundi de Alexandra já constam mais de 106 países visitados

No mapa-mundi de Alexandra já constam mais de 106 países visitados

Alexandra Alves Luis

Nem sequer começou cedo. O pai dela era muito conservador, e "sendo uma menina", viajar sozinha era algo fora de questão. "A minha primeira viagem a solo foi aos 20 anos, para a Finlândia, no contexto de um estágio profissional". Esteve quatro meses fora de casa, foi pela primeira vez à Rússia, (na altura, ainda era URSS)... No final do curso de Gestão, partiu para um ano de Erasmus na Alemanha. Foi o princípio de tudo, o ganhar do gosto pela liberdade. "Aos 23, aventurei-me completamente a sós para um fim-de-semana a Viena de Áustria. Tinha apenas um contacto de uma rapariga austríaca num albergue". Mas "quando se está sozinha, começa-se logo a conversar com os outros", conta. "Foi brutal. Achei que era tudo muito mais fácil do que eu imaginara..."

Nos anos seguintes, ainda fez algumas viagens acompanhada. Cuba, por exemplo, esteve em 'standby' anos à espera da "companhia certa". Mas depois, "estar dependente dos outros deixou de ser um problema". Alexandra passou simplesmente a ir. "A tomada de consciência deu-se". Conheceu Praga sozinha; e depois, começou a aventurar-se para mais longe. A primeira grande viagem foi aos EUA, "duas semanas em Los Angeles". "A partir dos 30 anos, por regra, passei a viajar sozinha", conta. "A descoberta do outro, o conhecimento de outros viajantes, o tempo ser todo teu sem a pressão da vontade dos outros..." Tudo isso foram descobertas positivas.

No arquipélago das Bijagós, na Guiné-Bissau

No arquipélago das Bijagós, na Guiné-Bissau

Alexandra Alves Luis

"Só estou sozinha quando quero"

"Usufruo muito mais da viagem quando vou sozinha", defende Alexandra. "Além de que só estou sozinha quando quero". Ficar hospedada em albergues, onde a regra é partilhar quarto, costuma ser o primeiro passo para conhecer outros viajantes nas mesmas condições. A conversa é inevitável, e as pessoas acabam por se juntar segundo as suas afinidades e vontades. Alexandra acrescentou uma outra 'vantagem' para assumir a condição de viajante - despediu-se do emprego. "Até 2004, trabalhei muito intensamente, e estava limitada aos períodos de férias "normais", os 22 dias úteis dos empregados por conta de outrem. "Tentava fazer duas grandes viagens por ano". A partir dessa altura, "trabalho sem grandes vínculos, e assim, posso tirar longos períodos para viajar - como os 3 meses que passei na América Latina". E como escolhe os seus destinos? "Tenho uma lista dos locais aonde gostaria de ir. Depois, vão sendo atualizados por conversas com viajantes, promoções ocasionais...

Esta é a única prova da presença de Alexandra Alves Luis na Coreia do Norte. Não há carimbos no passaporte

Esta é a única prova da presença de Alexandra Alves Luis na Coreia do Norte. Não há carimbos no passaporte

Alexandra Alves Luis

Com este espírito, fez viagens incríveis e variadas, a sítios tão inóspitos como improváveis. Mas viajar sozinha não tem só aspetos positivos. "Para mim, as desvantagens são a questão financeira - um quarto single é pouco mais barato do que um duplo, e num hostel, um quarto individual é mais caro do que partilhar dormitório. E as dificuldades acrescidas pelo facto de ser mulher". Este ponto, particularmente sensível para Alexandra, que é formadora em igualdade de género, custa-lhe. "Das piores experiências que vivi foi na Índia, há 10 anos", conta. "Passei lá um mês sozinha, e vivi momentos complicados... Tentaram tocar-me, enganar-me, roubar-me... Atingiu um ponto em que deixei de ir ao Rajastão de autocarro e contratei um motorista particular, de confiança, para não passar por situações desagradáveis nos transportes públicos". E não tinha a ver com o 'dresscode', que Alexandra não é novata nessas matérias. Em países mais complicados, confessa que muitas vezes inventa um marido fictício com quem viaja para uma conferência, para garantir a sua retaguarda. Noutras situações, em contextos religiosos, também sentiu a discriminação de género na pele. "Na Etiópia, em locais religiosos, ou num templo do Gujarate, na India, não pude entrar em monumentos classificados pela Unesco pelo facto de ser mulher", alerta. "Como é que isto é possível?", questiona. É claro que, neste momento, Alexandra encontra-se a viajar. Está no Mindelo, a gozar o Carnaval...

Alexandra Alves Luis com duas "mulheres-girafa" na Birmânia

Alexandra Alves Luis com duas "mulheres-girafa" na Birmânia

Alexandra Alves Luis

"Há mais mulheres que homens a viajar"

Madalena Patacho é naturalista 'freelancer'. Aos 31 anos, esta bióloga de formação descobriu uma forma de manter o seu amor pela viagem: "cruzeiros de expedição" a destinos muito específicos, sempre relacionados com a natureza, em que tem como função informar os participantes (americanos, na sua maioria, com elevado nível intelectual) sobre esse tópico. Desde que fez a primeira viagem sozinha, aos 25 anos, nunca mais voltou a viajar acompanhada. Não é fundamentalista, simplesmente gosta verdadeiramente de viajar a sós. "Na verdade, nunca se está sozinha, se não se quiser. E tem-se uma abertura completamente diferente relativamente à cultura do país", defende.

A primeira viagem "a sério", aos 24 anos, foi um interrail de um mês pela Europa, com uma amiga. Mas Madalena tinha um sonho desde a universidade: "ir à América Latina". Durante anos, poupou para fazer essa viagem. E aos 25 anos, cansou-se de esperar "pela companhia certa", comprou um bilhete de ida para Buenos Aires, e ficou lá "dois meses, sem nada marcado." "As pessoas acharam todas que eu estava doida, que a América Latina era perigosíssima..." A família e os amigos tentaram desincentivá-la. Falharam. "Correu lindamente. Viajei pela Argentina, Chile, Bolívia e Peru. Regressar foi difícil. E passados uns meses, fui para S. Tomé, onde estive um ano como ecoguia do 'resort' Bon Bon, na ilha do Príncipe." No final desse ano, quis retomar o sonho da América Latina, e tornou a viajar para lá, desta vez por dez meses. "Não me passou pela cabeça ir com alguém", confessa. Esteve na Costa Rica, em El Salvador, onde comemorou o seu 29º aniversário, terminou no México.

Madalena Patacho a fazer 'canopy' na Argentina

Madalena Patacho a fazer 'canopy' na Argentina

Madalena Patacho

Nunca teve "um problema" a viajar só, partilha. "Uso as regras do bom-senso e sigo as regras de segurança religiosamente. Se me dizem que há zonas por onde não se pode andar à noite, cumpro. Tenho cuidado com o que visto. Também não sou muito de sair à noite, portanto não "ofereço" choques culturais", diz. "Tenho um telefone velho e bem podre que levo comigo, onde ponho cartões locais para o caso de precisar de fazer alguma chamada. Não tenho cartão de crédito. Levo dois cartões de bancos diferentes e uso MB NET. Objetos, levo máquina fotográfica e cartões de memória. Tudo o resto é secundário". Transporta também um diário de viagem, no qual escreve de vez em quando - e vai atualizando a família à distância no seu blog serendipitymadalena.wordpress.com. "A única coisa que considero indispensável é o sorriso." Afiança que até agora, "ser mulher tem sido sempre uma vantagem. Tenho cara de miúda, e as pessoas têm muito mais tendência para me proteger do que para me fazer mal". Aliás, considera que "há muito mais mulheres a viajar sozinhas do que homens. Sem dúvida."

O ano passado foi até ao Ártico, e fez uma viagem de um mês aos Açores. Há uma semana, chegou de uma viagem de dois meses e meio ao Oriente, que considera terem sido "um pouco a correr". Esteve na Tailândia, no Laos, no Cambodja, no Vietnam, em Hong-Kong... Este ano, já tem dois cruzeiros de trabalho programados: um de um mês, pela Europa, e outro com a mesma duração, ao Ártico. Quanto a grandes projetos, tem um em mente que quer muito realizar: "o Transiberiano". Sente sempre a dificuldade do regresso. E não hesita em dizer: "O melhor investimento da minha vida é a viagem. É o que nos enriquece. A mim, enche-me a alma".

Madalena na fronteira da Costa Rica com o Equador

Madalena na fronteira da Costa Rica com o Equador

Madalena Patacho

"O melhor lado das pessoas"

Pedro Nunes confessa: já não faz grande esforço por encontrar companhia para viajar. E nos últimos anos, é verdade, tem voado sempre a solo. O engenheiro informático de 33 anos já fez várias viagens sozinho - Bielorrússia, Índia, Nepal, Tailândia, Colômbia, Brasil... e rendeu-se à experiência. Aos 24 anos, pegou numa mala e foi viver um ano para a Suécia. Passou pelo choque cultural, e quando regressou a Portugal, o facto de ter ficado sem trabalho inesperadamente levou-o de regresso à viagem. Nunca mais parou.

Agora, tem estado a explorar destinos mais longínquos - e de novo empregado, tenta tirar o mês inteiro seguido de férias. Foi a "total liberdade" o que verdadeiramente o cativou, além de achar que se descobre "o lado bom das pessoas". "Já estive doente, em viagem, já fui escoltado pela polícia até casa para minha própria segurança... Há muita partilha. E muitos momentos não são passados a sós." Como ponto negativo, a única coisa que lhe ocorre é talvez não poder partilhar os momentos mais bonitos com alguém. Mas esse é um ponto apenas num imenso universo de vantagens.

 O informático Pedro Nunes na Malásia, à conversa (em português) com um pescador de ascendência lusa que o convidou a ir à pesca. Falava Kristang, um dialeto de raízes portuguesas.

O informático Pedro Nunes na Malásia, à conversa (em português) com um pescador de ascendência lusa que o convidou a ir à pesca. Falava Kristang, um dialeto de raízes portuguesas.

Pedro Nunes