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Quer um filho mais atento ao mundo? Dê-lhe livros

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Com a VII edição da Bienal Internacional de Ilustração para a Infância (Ilustrarte) a decorrer no Museu da Eletricidade, em Lisboa, o Expresso falou com especialistas na matéria, que explicam a importância do livro ilustrado, “a primeira galeria de arte que uma criança vê”, mas não só

TENDÊNCIAS. A anulação da cor é uma das vertentes atuais da ilustração infantil, aqui bem patente num trabalho da belga Ingrid Gordon

TENDÊNCIAS. A anulação da cor é uma das vertentes atuais da ilustração infantil, aqui bem patente num trabalho da belga Ingrid Gordon

Uma das maiores e mais prestigiadas ilustradoras dos últimos tempos, a checa Eva Pekárková, resume o valor do livro ilustrado numa frase só. Diz ela que "um livro ilustrado é primeira galeria de arte que uma criança vê". De facto é assim. Mas é ainda muito mais. A ilustração é apelativa por natureza. E é por isso a primeira aproximação da criança ao livro, à história, à fruição e à arte. Nesse sentido funciona como um meio absolutamente livre e de acesso fácil capaz de trabalhar como nenhum outro objeto a educação do gosto.

Num sentido ainda mais lato, a ilustração infantil é uma plataforma essencial para o desenvolvimento da criança, quer em termos cognitivos, quer no que respeita à sua adesão à leitura e à descoberta. É fundamental também para a criação de uma base cultural mais sólida e de um apetite pelo conhecimento.

Um trabalho de Violeta Lópiz

Um trabalho de Violeta Lópiz

"A ilustração para a infância tem um papel fundamental na educação do olhar. Se as habituarmos a ver boas imagens, serão adultos com um olhar mais culto", diz Eduardo Filipe, há anos um dos comissários da Ilustrarte, com Ju Godinho.

Os bonecos que nos marcaram

Ju vai mais longe e passa à história da ilustração, ou mais precisamente à história dos livros infantis ilustrados: "Os livros ilustrados são chamativos e oferecem à criança duas leituras. Uma é a da história propriamente dita, outra é uma leitura visual dessa mesma história, o que em determinados livros se torna primordial." Vejam-se aqui os exemplos de livros como "O Principezinho", de Antoine de Saint-Exupéry, ou "Alice no País das Maravilhas", de Lewis Carroll, e perceba-se como mais do que tudo são as imagens gravadas na nossa memória que nos fazem lembrar o enredo.

Há modelos mais corriqueiros mas que também fixamos. Os livros da Anita por exemplo, também têm uma imagem de marca, mas são muito mais ligeiros. E por aí fora... "Acho que as crianças têm que ver tudo, ou seja, não deve haver limitações à leitura de diferentes tipos de ilustração, mesmo daquelas que fogem à regra que a Disney praticamente implantou. Há pais que o fazem. Filmes da Disney ou são bons ou são comerciais de mais," adverte Ju Godinho. "Oferecer aos mais pequenos ilustrações variadas é mais racional. Tudo faz parte da formação do gosto. Não nos fez mal ver os livros da Anita, nem da Disney", continua Eduardo Filipe.

Ilustração de Claudia Palmarucci

Ilustração de Claudia Palmarucci

Para os dois especialistas em ilustração infantil é de bom senso ver tudo. "Isso aplica-se a qualquer arte. Na música é igual. A criança tem que ser exposta aos mais variados tipos de música. Se só ouvir música pimba, será um jovem adulto que só gosta de música pimba. Tem que se educar naturalmente o gosto, e provavelmente mais tarde ela fará uma escolha." Por que não deixar uma filha ter barbies ou não ter jogos de computador?, questionam. "Tudo faz parte do crescimento e em doses q.b."

A era da imagem

Num tempo em que a leitura está a cair em desuso, em que os tablets e os smatphones tomam o lugar do livro, sabemos que só em certos núcleos familiares, e com algum esforço, eles se tornam um hábito. O que é preciso então para que a ilustração infantil consiga agarrar a criança? "Estamos na era da imagem, sim, a história passou de facto a ser minorada, mas, pelo contrário, a ilustração passou a ter um papel ainda mais decisivo e utilitário." É ela, acreditam Eduardo Filipe e Ju Godinho, que ajuda ainda mais à paixão pelo livro

Obra de Jesus Cisneros

Obra de Jesus Cisneros

E aqui entenda-se o livro como objeto. Livros de autores, livros muito particulares, que levam os pais tantas vezes a perguntar se serão mesmo livros para crianças, pois não os entendem. Estão sempre à espera de modelos mais infantilizados. Só as crianças é que não. "É de criação pura que se trata", diz Eduardo. "E para ela as crianças têm as suas referências muito presentes, através de jogos e brinquedos que têm - e nenhuma imagem as choca. Estão mais abertas e menos condicionadas."

O antes e o depois da ilustração

A evolução na ilustração para a infância deu um salto gigantesco. "Há 20 anos usava-se muito o deformado, imagens deformadas. Agora está a reaparecer o estilizado, a linha, o desenho pela linha, onde nem há o colorido. A gravura está na moda, quer a verdadeira, quer a digital. Isto do ponto de vista da técnica. Quanto às cores, elas são diretas, primárias, não há espaço para matizes", explicam. O que significa que o desenho é mais conceptual, mais depurado do que aquela fantasia a que estávamos habituados.

Mais uma ilustração da italiana Palmarucci

Mais uma ilustração da italiana Palmarucci

A casa também está na moda, não será por acaso. O arquétipo de casa é o primeiro desenho que a criança faz: um quadrado com o triângulo e a chaminé. Depois vem a árvore, o sol, flor, a nuvem, o mar, a figura humana.

Os ilustradores selecionados para a Ilustrarte 2016 - um total de 50 entre 1700 inscritos, oriundos de 72 países - pegaram nesse arquétipo e trabalharam-no numa diversidade incrível. Destaque para os trabalhos da espanhola Violeta Lópiz, que ganhou o primeiro prémio da bienal, mas também para a belga Ingrid Gordon, ou para a obra de Jesus Cisneros, também espanhol, e ainda para a italiana Claudia Palmarucci. Nota ainda para quatro portugueses: Catarina Sobral, Daniel Moreira, Joana Estrela e Teresa Lima. Para ver até 17 de abril.