Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

“Guarda no bolso uma bofetada para o teu filho. Uma só”

  • 333

PEDAGOGO. O espanhol Javier Urra tem uma vida dedicada aos jovens problemáticos em conflito com os pais

josé carlos carvalho

Javier Urra, pedagogo e psicólogo que cuida de crianças problemáticas, escreveu um novo livro. Em Portugal, falou-nos do trabalho que desenvolve em Madrid com jovens em conflito com os pais. “O Pequeno Ditador Cresceu” é a obra que atualiza o 'bestseller' ”O Pequeno Ditador” (de 2007), que vai na 17ª edição

Katya Delimbeuf

Katya Delimbeuf

Texto

Jornalista

José Carlos Carvalho

José Carlos Carvalho

Fotos

Fotojornalista

Nenhum pai quer admitir que o filho lhe bate. Ou que o humilha e violenta psicologicamente. Por isso, o silêncio e a vergonha impedem de saber quais os números exatos que atingem a sociedade atual e minam a relação pais/filhos de forma intensa. Javier Urra está habituado a receber os casos de “fim de linha”, aqueles que chegam ao centro que dirige, a 70 km de Madrid, onde os pais os deixam durante um ano, depois de esgotadas todas as possibilidades.

No programa “Recurra Ginso”, em 75% dos casos, é possível resgatar adolescentes que estão na fronteira entre os abusos verbais e os físicos. Esta é a última ocupação do pedagogo, de 58 anos, que foi o primeiro provedor de menores em Espanha e o primeiro presidente da Rede Europeia de Provedores de Menores. E é por aqui que começamos.

Quantos casos de adolescentes em confronto aberto com os pais receberam desde a abertura do programa "Recurra Ginso", em Madrid, em 2011?
Por ano, temos uma média de 95 jovens na residência. Desde o início, tivemos connosco 370 jovens, que ficam durante um ano. Casos que vimos, internados e em ambulatório, foram cerca de mil - o que equivale a mil famílias.

Que quadros obrigam um jovem a ficar internado um ano num centro, longe da escola e do seu meio familiar?
Humilhações, insultos, manipulações, quase sempre à mãe, que é o elemento mais presente, que muitas vezes progridem para a violência física. É nesse limiar, em regra, que os jovens são internados. A violência ascendente (sobre os pais) não é uma violência de género, mas no caso de uma mãe agredida, o agressor está em casa, e não o podemos mandar sair. E um filho que bate numa mãe tem muitas possibilidades de vir a bater na mulher.

Onde anda o pai?
A figura do pai é mais complicada. Antigamente, quando uma criança fazia uma asneira, a mãe dizia: "Vou dizer ao papá". Hoje, muitos pais não querem confrontar os filhos. Sentem vergonha que o filho tenha aquele tipo de atitudes. Por isso é que há tanto silêncio em torno desta questão. Consideram-na um problema de família. É o último tabu.

Qual a idade dos jovens que vos chegam ao centro?
Em média, 16 anos e meio. Mas os problemas constroem-se muito mais cedo. Há pais que não conseguem lidar com os seus filhos de quatro anos... Chamo-lhe a "patologia do amor". Pais e filhos são como ímanes que estão mal colocados, e portanto se repelem, ao invés de se atraírem. Querem gostar-se, mas não "conseguem". Há imensos pais médicos, professores, com um enorme sentimento de culpa. Houve uma perda imensa de autoridade, há uma crise enorme de autoridade. E criou-se esta ideia de que a família é uma democracia. Não é verdade. Como se criou a ideia de que dizer 'não' traumatiza as crianças. Educa-se muito no "eu".

Não há que ter medo de dizer 'não'?
Há coisas que têm de ser impostas. Não perguntamos às crianças se querem ser vacinadas. Fazemo-lo e pronto. Como também não lhes perguntamos se querem comer legumes. Damos-lhes. É sintoma de uma sociedade rica materialmente, cheia de filhos únicos, mas pobre espiritualmente. Por isso também há tantos jovens europeus que se deixam doutrinar pelos islamistas e pelo Daesh: porque não têm razões para viver, e dão-lhes uma razão para morrer... Dão-lhes uma causa. Em três, quatro semanas, são recrutados. São miúdos sem projeto de vida, sem assertividade, impermeáveis. Nada passa. Mas estes miúdos também sofrem.

ATUALIZAÇÃO. Depois de escrever o bestseller "O Pequeno Ditador", em 2007, Javier Urra 'atualizou-o', com "O Pequeno Ditador Cresceu". O enfoque está nos adolescentes e na tecnologia

ATUALIZAÇÃO. Depois de escrever o bestseller "O Pequeno Ditador", em 2007, Javier Urra 'atualizou-o', com "O Pequeno Ditador Cresceu". O enfoque está nos adolescentes e na tecnologia

José carlos carvalho

Um ano é muito tempo. Quais as várias fases do programa?
Os primeiros três meses servem para o que chamamos "autobiografia". Os pais trazem-nos de carro. No primeiro dia, digo-lhes sempre: "Não fujas hoje. Espera por amanhã. Em casa não estás bem. Fala com os outros miúdos aqui no centro". Nestes anos todos, fugiram três. O truque reside em fazê-los perceber que estamos a trabalhar em conjunto com os pais deles. Não há telemóveis no centro. Nos primeiros 15 dias, não há qualquer contacto com os pais. Não há álcool, não há tabaco, não há computador. Há análises periódicas, para perceber consumos. Há câmaras de vídeo nos quartos, para evitar acidentes. Passados três meses, começam as consultas com os pais. Aos fins de semana, veem os pais. Choram muito. Querem entender-se. Também fazemos muitos acampamentos na natureza.

Mas não é tempo a mais?
Não. Os hábitos demoram muito a mudar.

Como é o quotidiano no centro, os horários?
Às 7h30, acordam. Tomam duche, pequeno-almoço. Depois, têm 4 horas de aulas. Depois, desporto. Almoçam. Segue-se algum tempo livre. Depois, terapia de grupo. Muita. Somos todos muito simpáticos, otimistas, jovens. A equipa tem 102 pessoas, entre educadores, advogados, psicólogos, psiquiatras... Todos são escolhidos por mim. Temos um êxito de 75%. Fracassamos em casos de jovens com problemas psiquiátricos, miúdos com amigos mais velhos com problemas de drogas, e alguns pais complexos, que dão sinais dúbios, de maus tratos emocionais, do género: "Gosto de ti, mas não me tomes muito tempo.”

Havia um projeto para fazer um centro destes em Lisboa, certo? Em que pé está isso?
Não está, porque o Ministério da Saúde português não quer entrar com parte do dinheiro. Em Espanha, a mensalidade do centro é de 4.100 euros, mas os pais só pagam 1.700. É o que custa ter psicólogos que lá ficam à noite, para o caso de haver um jovem com uma crise a essa hora. Aqui, o Estado não quis assumir essa quota-parte.

Qual é a percentagem de jovens problemáticos em Espanha, face ao total?
Não sei. Não há números certos. Mas sabe-se que em 2007, foram feitas 2.300 denúncias na polícia, de pais relativamente aos seus filhos. E em 2014, foram 4.700. E falamos de denúncias, que é algo que muito poucos pais fazem. Este não é um problema inventado pelos meios de comunicação. Existe. Mas está muito escondido.

Os números pecam por defeito?
Provavelmente. 28% das crianças em Espanha são adotadas - normalmente da Europa de Leste. Muitos acabam em hospitais e instituições, e têm sintomas de carência afetiva, falta de toque. E ao contrário do que seria expectável, tornam-se agressoras. Medem. Testam os adultos. A questão é: seremos nós, pais, capazes de educar todas as crianças?

O que devem fazer os pais para evitar futuros adolescentes problemáticos?
A partir dos 7 anos, podem levar-se as crianças a ver meninos nos hospitais, conversando com eles, explicar-lhes que há meninos doentes que não vão sair do hospital. Pedir-lhes que escolham alguns dos seus brinquedos para dar. Ensinar-lhes a empatia.

Qual a sua posição sobre o castigo físico, a bofetada?
Digo sempre aos pais para guardarem no bolso uma bofetada para os seus filhos. Uma só, não duas. Porque senão, onde pára a escalada? As sanções devem ser proporcionais e imediatas. E é preciso transformar as ameaças de castigo em castigos efetivos.

O que devem os pais querer para os seus filhos?
A maior parte dos pais diz que quer que os filhos sejam felizes. Isso é um erro. É querer que a vida seja um "mundo Disney". Os pais devem querer que os filhos, no dia em que se despedirem da vida, considerem que valeu a pena, e que ajudaram a melhorar alguma coisa. Nada mais.