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O zika é uma história de família

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O avô isolou o vírus zika e o neto relacionou-o com a transmissão pela via sexual. O apelido Haddow é inseparável da nova epidemia que assusta o mundo

d.r.

Quando Alexander Haddow, médico e entomologista responsável pelo isolamento do vírus zika numa floresta ugandesa em 1947, estava a morrer, nascia Andrew. Quase 70 anos depois, o neto, que não o chegou a conhecer, fechava o ciclo: também entomologista, foi o primeiro a relacionar a infeção pelo zika com a possibilidade de transmissão sexual. Ligados pelo apelido, o sangue e a paixão pelos insetos, acabariam indissociavelmente presos ao zika, classificado desde o início desta semana como uma Emergência Internacional de Saúde Pública pela Organização Mundial de Saúde.

Uma fotografia mostra a cena do avô, já muito doente, com o neto Andrew no colo, em um hospital de Glasgow. O pequeno era americano, mas foi levado pelos pais, ainda bebé, para conhecer o avô. E toda a sua infância, como ele contou por escrito ao Expresso, acabaria por ser iluminada pelas aventuras de Alexander em África.

Uma infância especial, onde os insetos eram personagens habituais, muito familiares. Antes de dormir, o pai de Andrew, também ele “contaminado” pela atração pelos artrópodes, contava ao miúdo os episódios do avô em destinos exóticos. “Eu já conhecia a Floresta Zika, a Torre, desde criança”, partilha agora.

“O meu avô e os seus colegas fizeram todo o trabalho de caracterização inicial do vírus zika e, em 1960, Jack Woodall e o meu avô assinaram outra pesquisa, desta vez, sobre os mecanismos de transmissão do vírus através dos mosquitos”, explica Andrew Haddow, reconhecendo a linhagem a que pertence.

d.r.

Insetos no berço

Ainda o avô Alexander andava de calções pelas ruas de Glasgow quando o seu interesse pelos insetos começou a tornar-se evidente. Aos sete anos, debruçou-se sobre uma folha de papel em branco, e com um lápis preto, foi lentamente fazendo surgir um Stegomyia auther. Enorme, bem desenhado, o inseto surgia enaltecido, como o próprio rapaz o classificou na anotação no alto da página.

Naquele ano, o longínquo 1919, pela altura do sétimo aniversário o pai perguntou a Alexander o que ele ia querer de prenda. A resposta veio rápida: “Um livro sobre besouros!” Em 1922, já com dez anos, tinha já uma coleção de 60 besouros, que foi exibida com especial orgulho na escola. O destino estava marcado porque toda a carreira de Haddow seria marcada pelo voo rápido dos insetos.

Anos mais tarde, teria de licenciar-se em Medicina para conseguir autorização do futuro sogro para se poder casar com Margaret Orr, como conta a sua biografia numa publicação da Royal Society. Os tempos eram outros e os homens faziam destas coisas. O ambiente hospitalar em nada o atraía, mas, se era preciso, que assim fosse. Da união com Peggy nasceram dois filhos, David e Alastair, também este investigador na área das doenças infecciosas e, sobretudo, pai de Andrew.

Durante a II Guerra, Alexander tornou-se oficial do Exército escocês e acabou por ser enviado para a Índia. E, ainda em 1942, o conflito mundial estava longe de terminar, Haddow chegava a África. Viveria 23 anos no Continente Negro e ali faria as suas principais descobertas científicas. O porto de desembarque foi o Mombassa, no Quénia.

Como investigador especialista em insetos, desenvolveu a técnica de analisá-los dentro de uma torre (a Torre de que se recorda hoje o neto Andrew), que ficou conhecida com o seu prórpio apelido. Uma estrutura metálica de 36 metros, colocada bem no centro da floresta de Zika, nas proximidades do Lago Vitória, no Uganda, onde era possível reuni-los numa espécie de grande viveiro.

Foi ali que conseguiu isolar um Aedes aegypti portador do vírus zika, o pesadelo destas semanas. Mas, apesar do pioneirismo na “descoberta” do zika, a sua carreira foi dedicada, sobretudo, à pesquisa da febre amarela, no Instituto de doenças Virais, em Entebe, no Uganda.
Homem de múltiplas capacidades, Alexander gostava de fazer exercício físico, de tocar gaita de foles e de hipnotizar um grande número de crianças, que ele colocava em estado alterado, apenas com a força dos seus olhos penetrantes. A reputação de feiticeiro foi crescendo, ao ponto de ter sido chamado à atenção pelos assustados líderes comunitários quenianos. E, enquanto prosseguia na sua missão de identificar mosquitos, Alexander Haddow também travou amizade com uma tribo de pigmeus...

De volta à Escócia, em 1965, continuaria as suas investigações na Universidade de Glasgow, foi eleito membro honorário da Academia Real de Letras e Ciências (Royal Society), um reconhecimento à sua contribuição científica como autoridade na área das doenças virais transmitidas por mosquitos e acabaria por morrer em 1978, aos 66 anos.

epa

Vírus sexual

Exatamente trinta anos mais tarde, em 2008, o neto Andrew, à mesa de um restaurante com um colega investigador, ouve um colega que se queixava de, no ano anterior, ter sido infetado, a seguir a uma viagem a África, por uma doença misteriosa, a mesma que teria afetado outro entomólogo e a sua mulher, no estado norte-americano do Colorado. Pelos sintomas relatados — dores de cabeça, febre baixa, manchas vermelhas pelo corpo —, Andrew lembra-se logo do zika. Aconselha ao colega que os três infetados que enviem as amostras de sangue a um especialista e levanta de imediato a hipótese da transmissão por via sexual.

Quando surge a notícia de que havia uma epidemia de zika na Polinésia e depois de perceber que houve mais mulheres do que homens infetados naquela região, Andrew Haddow sublinha novamente a hipótese da transmissão sexual, alertando para a maior vulnerabilidade feminina, resultante da sua exposição física nas relações sexuais. Com a explosão do número de casos de infeção por zika no Brasil, o mais novo dos Haddow voltou a ser solicitado. Não gosta, fala pouco e demorou duas semanas a responder ao Expresso. Apenas por escrito.

Andrew ainda guarda a fotografia do avô, como o bebé que ele um dia foi no colo. Guarda também todos os estudos e investigações produzidos por Alexander, que começou a ler aind ana infância, mas, principalmente, guarda a dedicação à investigação do impacto das doenças virais transmitidas pelos insetos à humanidade.

Depois de ter sido professor universitário, vive em Seattle e trabalha agora para o Exército norte-americano. Continua a estudar insetos e epidemias. Não fala de assuntos políticos relacionados com a sua área. Tudo o que que diz ou escreve é escrutinado pelas Forças Armadas. Mas o apelido Haddow está de volta ao zika.

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