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José Veiga, o empresário que já foi acusado de quase tudo

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José Veiga no papel de diretor-geral da SAD do Benfica, num jogo FC Porto-Benfica realizado no no Estádio do Dragão

Sérgio Granadeiro

Dois anos após de ter sido absolvido por crimes de fraude fiscal e branqueamento de capitais no polémico caso da transferência de João Vieira Pinto do Benfica para o Sporting, Veiga está de novo a contas com a justiça, detido, entre outros delitos, por suspeita de lavagem de dinheiro e corrupção

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

José Veiga já foi acusado de quase tudo, desde suspeita de crimes de peculato, branqueamento de capitais, fraude fiscal, abuso de confiança a burla agravada. De alguns delitos livrou-se no intervalo da malha judicial, noutros acabou por ser condenado, até agora com penas suspensas.

O mais intricado processo em que esteve implicado teve origem na nebulosa transferência do então menino de ouro da Luz para os rivais de Alvalade no ano 2000, supostamente a custo zero. Como se veio a provar 12 anos depois, mais de quatro milhões de euros de direitos desportivos circularam sem nunca serem declarados pela Goodstone, um empresa off-shore representada pelo antigo agente FIFA, com conta no Luxemburgo, onde Veiga se lançou muito jovem no mundo da bola com a benção de Pinto da Costa.

Luís Duque e Rui Meireles, antigos dirigentes da SAD, e João Pinto, hoje diretor da Federação Portuguesa de Futebol, foram condenados em primeira instância por evasão fiscal a penas de dois anos de prisão suspensa e multas de quase 170 mil euros cada, tendo a dupla de ex-dirigentes sido absolvida pelo Tribunal da Relação de Lisboa em 2013. José Veiga que sofreu a pena mais pesada, dois anos e dois meses por fraude fiscal e três anos e nove meses por branqueamento de capitais, também acabou absolvido na Relação na mesma data, matneod-se apenas o castigo ao ex.jogador do Benfica e do Sporting.

O empresário que nos anos 90 conheceu uma carreira de glória e grandes negócios de milhões, chegou ao topo da carreira quando, no verão de 2000, ao lado do todo-poderoso Florentino Pérez, apresentou Luís Figo, o craque do Barcelona, como reforço do Real Madrid. O ex-internacional português deixava para trás Camp Nou apelidado de "pesetero" pelos adeptos que não perdoaram a traição. A transferência do antigo Bola de Ouro chegou aos 60 milhões de euros (12 milhões de contos na altura), uma verba então recorde no mundo do futebol.

Veiga, um dos mais poderosos agentes FIFA desde meados dos anos 90, entrou no planeta da bola quando, ainda adolescente, conheceu Pinto da Costa na Casa do FC Porto no Luxemburgo, para onde emigrou a humilde família Veiga com os seis filhos. José, nascido em 1963, tinha seis anos quando deixou Seixo de Ansiães, em Trás-os-Montes, filho de um cobrador de autocarros e mãe doméstica.

De pintor a agente de Figo e Zidane

Quando se cruzou com o presidente do FC Porto, José Veiga trabalhava como pintor de automóveis, frequentava o 12.º ano e era dragão ferrenho. Aos 20 anos, tornou-se presidente da Casa portista no Luxemburgo, passando a representar o clube em atos informais junto da comunidade portuguesa emigrante na Bélgica e na França. Cinco anos depois, foi convidado para diretor do Sport Luxemburgo, aproveitando as boas relações com o FC Porto para se estrear como agente de jogadores.

Regressou a Portugal em 1992 para colaborar com a Olivedesportos de Joaquim Oliveira, que apostou no intrépido Veiga para criar uma empresa de agenciamento de futebolistas, a Futinveste. Intermediou as vendas de Paulo Sousa e Fernando Couto para Itália, negócios que o fizeram sonhar com uma carreira de glória a solo. Em 1993, desvia Luís Figo da empresa detida pela Olivedesportos, jogador que tentou primeiro transferir para o Parma e Juventus, trapalhada na qual a FIFA foi chamada a intervir, acabando Figo por optar pelo Barça.

Na carteira recheada de craques da Superfute, empresa na qual José Veiga tinha por sócio o filho de Pinto da Costa, Alexandre, figuraram nomes como o de Zidane, Jardel, Hugo Viana ou Quaresma.

O fim da aventura

A queda da Superfute aconteceria quando Pinto da Costa trocou as voltas a Veiga, colocando nas mãos de um agente rival (Luciano D'Onofrio) a transferência (e a comissão) do portista Sérgio Conceição, retaliando a Superfute com o negócio de Zahovic, feito à revelia do FC Porto. Seguiram-se anos de guerra acesa entre o empresário e o líder portista, que cortou durante longos anos relações com o próprio filho Alexandre.

Caído em desgraça como agente de futebol após a polémica contratação de João Vieira Pinto, Veiga acabou por ser convidado para diretor do Benfica, no início da era Luís Filipe Vieira. Pelo meio viu os bens da Superfute serem leiloados em hasta pública e o seu Jaguar penhorado, tal como os móveis da casa em Birre, no conselho de Cascais, por dívidas ao fisco.

Acabarua por deixar a SAD encarnada em 2006, na sequência de uma ação judicial movida pelo Banco Dexia, do Luxemburgo, que reclamava dívidas no valor de um milhão de euros relacionadas com a atividade da Superfute.

José Veiga jurou então que iria provar a sua inocência e um dia voltar ao Benfica, sem sombra de pecado. Nunca mais regressou e passou ao anonimato nos meandros do futebol, até ter sido esta quarta-feira detido por outros delitos, desta vez associado a Paulo Santana Lopes e a dirigentes políticos congoleses.

[Texto corrigido às 16h35]