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Uma viagem às aldeias do xisto

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D.R.

Exposição “Agricultura Lusitana” alberga até 18 de fevereiro peças que unem o artesanato e o design

Taísa Pagno

A exposição surgiu no âmbito de um projeto apresentado como tema central da participação das Aldeias do Xisto em representação de Portugal como país convidado na Eunique 2015 - International Fair for Applied Arts & Design, em Karlsruhe, na Alemanha. O projeto exposto na Universidade de Aveiro (UA) envolveu cerca de 150 pessoas, nove escolas superiores de design nacionais, 22 ateliers de craft e uma equipa de design,

“Agricultura Lusitana”, que reúne trabalhos executados por artífices e por alunos das nove escolas - onde se incluem os alunos do 2.º ano da Licenciatura de Design da UA -, pode ser entendido como “uma reflexão a partir da realidade das Aldeias do Xisto e da cultura lusa, imergindo valores do território e do espírito português”, lê-se na brochura do projeto.

“O nosso passado agrícola faz parte da nossa cultura, e não podemos esquecer isso. O que devemos é estudar essa cultura e aproveitar nas suas raízes a matéria-prima para criar novos argumentos e novos projetos, novas peças que a simbolizem”, argumenta o orientador do projeto, João Nunes.

Para o professor de design, esta iniciativa é uma busca pela renovação do tecido socioeconómico das aldeias a partir de três vertentes de atuação: estratégia, social e produto. As Aldeias do Xisto podem ser encaradas “como um laboratório vivo, território onde se experimenta convocando conhecimento e imergindo-o na realidade” desses locais, afirma o designer, para quem este projeto-piloto deve continuar, de forma estruturada.

Os responsáveis pela iniciativa, João Nunes e Nuno Dias, designer e diretor da licenciatura em design da UA, acreditam que os produtos criados neste âmbito podem servir como um meio de as aldeias se tornarem sustentáveis, a par do turismo e da gastronomia. “É preciso conteúdo, não só para as casas que servem de turismo rural mas também para as pessoas levarem como recordação do lugar onde estiveram”.

Novas tecnologias e técnicas tradicionais

Os artigos produzidos para este projeto, o terceiro de uma trilogia que começou com “Água Lusa” e “L4Craft”, com o auxílio do Fab Lab Aldeias do Xisto, que introduziu a materialização digital dos artefactos, permitem uma ligação entre as novas tecnologias e as técnicas tradicionais dos artesãos e estão ancorados na ligação craft+design+identidade.

Para João Nunes, o design tem que estar, cada vez mais, ancorado num perspetiva científica. “Há uma tradição histórica que faz com que o design estivesse fora do modelo de investigação tradicional. Temos de nos afirmar e é um excelente sinal que a própria reitoria tenha apostado em criar uma montra deste potencial, onde o design se relaciona com outras áreas científicas para refletir sobre o território”, acrescenta Nuno Dias.

A ligação entre os designers e os artesãos leva a que o trabalho seja conceptual antes de ser executado. “Uma coisa que acontece com frequência é que os artesãos pensam no produto, mas poucos o desenham, portanto o design introduz esse complemento, que é uma ferramenta poderosíssima para ajudar a concetualizar o que a peça pode vir a ser”, afirma João Nunes.

Os artífices criaram peças utilizando como matéria-prima o cobre, a lã de ovelha, a madeira, o xisto, o couro, o vidro, o vime, entre outras. De entre os trabalhos, destacam-se as botas de enxertia, com inspiração na técnica da enxertia, da autoria de José Machado, as dedeiras, peças em prata, criadas por Patrícia Gorriz, baseadas nas dedeiras usadas pelas ceifeiras para proteger os dedos e as cadeiras de apoio de Kerstin Thomas, inspiradas nos contrastes entre as enxadas utilizadas na agricultura e a cadeira, símbolo de poder, “que confortam sem estimular o sedentarismo”.

Para desenvolverem os seus trabalhos, os alunos da UA entraram em contato direto com a cultura das aldeias, onde recolheram matéria-prima para a sua conceção, tendo como inspiração o linho, o medronheiro, as máscaras de cortiça criadas pelos habitantes da Aldeia de Góis para a Corrida do Entrudo, a agricultura medicinal – através da criação de mezinhas -, a aguardente, as paisagens das aldeias, o pão e a peneira e a castanha.

Promovido pela ADXTUR - Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto, cuja presidência pertence a Paulo Fernandes, e coordenado por Rui Simão, este projeto ajudou a criar “uma reflexão estratégica sobre o futuro e sobre planeamento das aldeias”, diz João Nunes.