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Avenida dos Aliados está centenária

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Filipe Paiva

Há quem a veja como a sala de visitas do Porto e quem guarde memórias das lutas, das festas, dos símbolos guardados na avenida portuense cujos 100 anos começam agora a ser celebrados

Cláudia Lopes

Em 1916 foi removida a primeira pedra do Palacete da Praça da Liberdade. De um modo simbólico ficava assim marcado o início das demolições que resultaram na edificação da atual Avenida dos Aliados, no Porto. O calendário assinalava 1 de Fevereiro, há precisamente cem anos, e se na época o acontecimento foi celebrado com foguetes e vivas à República, também hoje a data não poderia passar despercebida.

A Câmara Municipal do Porto e a Fundação Marques da Silva vão celebrar aquela que é hoje a sala de visitas da cidade do Porto e começaram a fazê-lo ontem numa sessão comemorativa realizada nos Paços do Concelho e organizada pela Câmara Municipal e a Fundação Marques da Silva.

Se a Avenida dos Aliados é hoje um dos marcos da cidade, a verdade é que também ela foi controversa aquando da sua planificação. Um texto da época retirado do semanário Satírico MIAU!, recitado pelo ator José Eduardo Silva, expressa preocupação com as iminentes transformações no espaço da futura avenida.

Trata-se de uma conjuntura de dúvida e agitação que o primeiro orador da noite, o historiador Gaspar Martins Pereira, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, confirma. Naquele Fevereiro, marcado pelas temperaturas rígidas, escasseava o pão e outros bens essenciais, e a população, fustigada pela fome, provocava motins um pouco por toda a cidade e questionava os dispendiosos gastos em obras aparentemente desnecessárias.

O progressismo republicano exigia grandes empreendimentos e por isso, nas palavras do historiador, essa época ficou marcada pelo colocar “de muitas primeiras pedras e de muitas inaugurações, como a do Liceu Alexandre Herculano.” O alargamento da avenida e a construção da nova câmara municipal afirmam-se na continuidade dessa tendência.

Para além de essa época ter sido caracterizada pela construção das grandes avenidas, a intervenção do arquiteto Domingos Tavares, professor catedrático jubilado da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, ressalvou mais uma razão para a construção da avenida: o desejo de encimar a mesma com a nova câmara municipal. Aí, no topo de uma magnífica e ostentosa avenida, o edifício poderia adquirir a condição de monumento que lhe é devida como principal órgão de governação da cidade.

Como símbolo da República e do progresso, a nova sede do poder local deveria ainda ofuscar a Igreja da Trindade, assim como outros monumentos religiosos, ficando nesse sentido estipulado que a torre da câmara municipal teria de ser superior em altura à torre dos Clérigos. No entanto, tal não se chegou a concretizar e a torre da câmara tem atualmente menos 6 metros do que a dos Clérigos.

Esta celebração afirma-se como o primeiro de uma série de eventos dedicados à comemoração do Centenário da Avenida dos Aliados, que decorrerão entre Março e Setembro de 2016 e cujo programa será publicado brevemente.

Na sessão de ontem marcaram presença os vereadores Manuel Pizarro e Manuel Correia Fernandes, o reitor da Universidade do Porto, Sebastião Feyo de Azevedo, e a presidente do concelho de administração da Fundação Marques da Silva, Maria de Fátima Marinho.