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Alerta ambientalista: mais de 80% dos habitats de zonas húmidas estão degradados

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Estuário do Sado

Nuno Botelho

Ecossistemas essenciais para minimizar cheias, sustentar biodiversidade e produzir alimentos estão fortemente ameaçadas, alertam três associações ambientalistas, no dia em que mundialmente se celebram estes habitats

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Cerca de 1656 quilómetros quadrados — o que corresponde a 1,8% do território nacional — são ocupados por zonas húmidas, mas nem todas têm estatuto de proteção e cerca de 80% destes habitats estão ameaçados. O alerta foi dado esta terça-feira, Dia Mundial das Zonas Húmidas, pela Zero - Associação Sistema Terrestre Sustentável e pelo Fundo para a Conservação da Natureza (FAPAS),

Dos 43 tipos de habitats identificados em Portugal, apenas 79% têm estatuto de proteção de acordo com a Convenção de Ramsar. E destes, "22 habitats estão em estado de conservação desfavorável e nove em muito mau estado, o que revela que nem sempre o estatuto de proteção dá garantia de conservação ou de uso sustentável", afirma Carla Graça, engenheira do ambiente e dirigente da recém-criada associação Zero.

Entre as nove tipologias de zonas húmidas em pior estado encontram-se lagoas como as de Óbidos ou de Albufeira, sapais como o da Carrasqueira, no estuário do Sado, ou as turfeiras de montanha ou de rios — estas últimas "ocupam no total apenas 90 hectares de território nacional e estão todas ameaçadas", sublinha Carla Graça.

Pressões humanas e falta de planos

A ocupação urbana e industrial, a poluição, a extração insustentável de água, a sobreexploração de recursos e a construção de infraestruturas como barragens têm sido as principais causas da degradação destas zonas. Os ambientalistas estimam que "desde o início do século XX, tenham desaparecido entre 64 e 71% destes espaços".

Estes habitats são essenciais para prevenir e minimizar efeitos de cheias, proteger a linha de costa, fornecer água e alimentos, servir de reservatório de biodiversidade e mitigar as alterações climáticas fixando dióxido de carbono. Por isso, os ambientalistas defendem que o Governo deve definir planos que salvaguardem estes espaços.

"O Estado português tem falhado por inação e um caso flagrante é a ausência de qualquer plano de ordenamento dos estuários, um dos mais importantes e produtivos habitats costeiros", acusam a Zero e o Fapas, no comunicado enviado às redações. Apesar da lei da água, publicada em 2005, ter determinado a elaboração de planos de gestão de região hidrográfica, estes continuam por implementar.

Na mesma linha segue a Quercus, que relembra que "embora Portugal se tenha comprometido internacionalmente, a maioria das Zonas Húmidas de Importância Internacional continua sem Planos de Ordenamento e de Gestão, com vista à utilização sustentável e à conservação de zonas húmidas e de aves aquáticas".

Em comunicado, os ambientalistas consideram "inaceitável" que as zonas húmidas da Ria de Aveiro, Lagoa de Óbidos, Lagoa de Melides, Estuário do Minho e Barrinha de Esmoriz continuem sem estatuto de proteção sob a Convenção de Ramsar. Além de apelar ao Governo para classificar estes espaços e dotá-los de planos de gestão, a Quercus anseia para que "este seja o ano" da avaliação e alargamento da Rede Natura 2000 ao meio marinho.

  • Carla Tomás

    No Expresso desde 1995, passou por diversas secções do jornal, do Desporto ao Internacional. Actualmente dedica-se sobretudo a temas de ambiente e conservação da natureza na Sociedade. Licenciou-se em Sociologia, pela Universidade Nova de Lisboa. O gosto pela profissão começou na Gazeta das Caldas, mal as máquinas de escrever foram substituídas por computadores.