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Sociedade

Transformar um campo de concentração em resort de luxo?

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É uma ilha pequenina, no meio do mar Adriático. Agora, querem transformá-la num resort de luxo. Até aqui, não é novidade. Mas e se lhe dissermos que Mamula foi um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial?

Nesse caso, é natural que o caso mude de figura... Nesta pequena ilha de 200 metros de diâmetro, na região do Montenegro, foram mantidas prisioneiras 2300 pessoas e 130 foram assassinadas ou morreram à fome, às ordens do ditador Benito Mussolini, entre 1942 e 1945. O espaço é quase integralmente ocupado por um forte, construído no século XIX, que depois da Segunda Guerra foi deixado ao abandono. Agora, a empresa suíça e egípcia Orascom alugou o local por 49 anos, a fim de transformar o rochedo num 'resort' de luxo, em que está previsto recuperar o forte e construir um memorial para preservar a história do sítio. O espaço vai ser dotado de uma marina para iates, spa, piscinas, restaurantes e pista de dança ao ar livre. O investimento previsto é de 14,7 milhões de euros, mas sendo o assunto de grande melindre, as críticas não se fizeram esperar, em especial por parte dos familiares das vítimas que ali estiveram, a partir de 30 de maio de 1942. "Construir um luxuoso hotel dedicado ao entretenimento num local onde tanta gente morreu e sofreu é um exemplo flagrante de falta de seriedade para com a História", declarou Olivera Doklestic, que teve o seu avô, tio e pai prisioneiros em Mamula. "Nenhum campo de concentração no mundo foi transformado num hotel".

O governo montenegrino defende que o projeto irá trazer turismo e receita ao país. "Tínhamos duas opções: deixar o local em ruínas ou encontrar investidores que pudessem restaurá-lo e torná-lo acessível para visitantes", defendeu Olivera Brajovic, responsável pelo desenvolvimento do turismo de Montenegro. Esta é uma questão pertinente e que se coloca amiúde: qual o tempo de História em que algo se deve manter fiel ao que foi no passado para servir de testemunho no presente? 50 anos, 100? Para sempre? Deve a História ter primazia sobre o turismo? Até quando? O debate pode não ter fim à visa, mas o projeto turístico deverá mesmo ir avante.