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Alunos do 4º ano vão fazer teste internacional sobre leitura

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Nuno Fox

É uma espécie de teste PISA, mas dirigido aos mais novos. Portugal é um dos 60 participantes. As provas iniciam-se na segunda-feira em 330 turmas

Mais do que avaliar os alunos do 4º ano selecionados para participar no PIRLS — o teste internacional que analisa a literacia em leitura aos 10 anos e verifica se as crianças compreendem o que leem — são os países e as políticas de ensino que acabam por estar sob escrutínio. Portugal decidiu participar no Progress in International Reading Literacy Study (PIRLS) pela segunda vez e quando os resultados saírem, em 2017, ficará a saber se os alunos no final do 1.º ciclo melhoraram ou não nesta área em relação às provas de 2011. E também como é que o país se posiciona face aos outros 54 Estados e regiões participantes.

Para isso foi constituída uma amostra de 220 escolas básicas de todo o país. A diversidade do sistema foi respeitada e os testes serão feitos por alunos de escolas grandes e pequenas, de meios urbanos e rurais, num total de 330 turmas.

As primeiras a realizar as provas começam já na 2ª feira. Portugal é, aliás, o primeiro país do hemisfério Norte a iniciar esta avaliação que, ao contrário do mais conhecido dos testes internacionais, o PISA (Programme for International Students Assessment), não é da responsabilidade da OCDE, mas de uma organização privada, que reúne agências governamentais e instituições de investigação educacional, chamada International Association for the Evaluation of Educational Achievement (IEA).

Mas há mais diferenças entre estes dois testes internacionais. A começar pela projeção atingida pelo PISA, capaz de fazer abalar a imagem internacional de um país que veja os resultados dos seus alunos (nesse caso de 15 anos) cair a pique ou lançá-lo para a fama se, pelo contrário, os desempenhos melhorarem substancialmente. Como aconteceu no início do século com a Finlândia e mais recentemente com os países asiáticos que hoje dominam os lugares cimeiros do PISA.

Outra diferença, explica João Maroco, responsável no Instituto de Avaliação Educacional (IAVE) pela coordenação destes testes, é que enquanto o PISA se baseia na avaliação de conhecimentos acumulados que permitem, ou não, resolver problemas que se podem encontrar no dia a dia, o PIRLS está muito mais ligado aos currículos e pretende verificar se as crianças aprenderam o que deviam ter aprendido aos 10 anos.

Várias culturas, um só teste

De resto, as dificuldades em elaborar testes iguais para estudantes de dezenas de países, com culturas, religiões e referências diferentes são as mesmas. É preciso garantir que cada texto e cada pergunta sejam entendidos da mesma forma em todo o lado: das Honduras ao Botswana, da Arábia Saudita aos Estados Unidos da América. Que nenhuma religião seja ofendida e que todos consigam perceber do que se está a falar. João Maroco dá um exemplo trivial: “Uma laranja é da cor de uma laranja cá, mas é verde em países onde não faz frio”.

E é por isso que as provas do PIRLS começam a ser preparadas dois anos antes da aplicação. Todos os países têm a possibilidade de sugerir textos e perguntas e todos têm o direito de se pronunciar e objetar. E há ainda uma testagem prévia de exercícios por amostras mais pequenas de escolas. Tanto dos conteúdos que podem aparecer nas provas como dos questionários que são feitos sobre as famílias, as escolas, a diretores e professores, acrescenta o responsável do IAVE.

Testes internacionais ganham importância

A questão que vários críticos colocam é se a importância cada vez maior que os governos estão dar a estas avaliações internacionais, que são sempre limitadas em relação a tudo o que se passa durante o processo de ensino e que usam critérios iguais para todos, não está a contribuir para uma espécie de uniformização dos sistemas, como se houvesse um objetivo único: sair bem nos testes internacionais.

Ina V. S. Mulis e Michael O. Martin, diretores-executivos do Centro Internacional de Estudos da IEA para os testes PIRLS e TIMSS (outro dos produtos desenvolvidos pelo instituto e que mede os conhecimentos a matemática e ciências e no qual Portugal também participa), rejeitam a crítica: “A participação nestes dois estudos continua a aumentar: hoje são mais de 60 países e regiões. Governos e investigadores usam-nos para medir a eficácia das políticas de educação e para sustentar mudanças curriculares e pedagógicas.

Vários países dizem estar interessados em conhecer as práticas dos que se saem melhor”, explicam em respostas ao Expresso. Além disso, acrescentam, “todos participam na construção das provas”.

“A ideia é pensar a educação como um bem universal, sobretudo num mundo globalizado. Os nossos licenciados saem do país e integram-se sem problemas no mercado de trabalho lá fora. Porque as universidades estão a prepará-los de forma a serem capazes de participar noutras sociedades. Para isso é preciso um currículo parcialmente comum”, lembra João Maroco.

Este ano, 14 países (incluindo Portugal) vão ainda participar no ePIRLS, uma novidade, já que os testes são feitos em computador e avaliam a literacia de leitura em formato digital. Ou seja, se os alunos de 10 anos conseguem ler e pesquisar online, carregando nos links, nas barras de navegação e nos atalhos certos.

Mais uma vez lança-se a dúvida: será justo pôr todos em pé de igualdade, sendo que os recursos são tão diferentes? “Testámos o ePIRLS em 2015 porque temíamos que alunos de meios mais desfavorecidos não conseguissem fazer o teste. E isso não aconteceu. Mais de 95% disseram utilizar a internet regularmente e cerca de 90% disseram ter aprendido com a família e amigos. Menos de 5% tinham aprendido só na escola. Às tantas as instruções falavam em ‘clicar’ no botão do rato, que eles não tinham. Perceberam logo que o ecrã dos tablets era tátil e começaram a usar o dedo”, conta João Maroco.

Desde 2001 houve mais países a melhorar os seus resultados no PIRLS do que a diminuir. Entre estes últimos, estão sobretudo países europeus.