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O dilema do Twitter

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CÁ ESTOU EU DE NOVO. Jack Dorsey, CEO da Square, presidente da rede social Twitter e fundador de ambas

JUSTIN TALLIS/REUTERS

A ambição era a de ser a maior rede social do planeta, mas o Twitter não conseguiu acompanhar o ritmo imparável do Facebook. A “rede dos 140 carateres” tem apenas 316 milhões de utilizadores registados, enquanto a rede de Mark Zuckerberg chega aos 1.500 milhões (como revelam estes números da Statista. A diferença é abismal. Aliás, segundo a “Forbes”, as ações destas empresas registaram um comportamento muito díspar no ano passado. A Facebook cresceu 35%. A Twitter desceu 36%. Sim, os tempos não têm sido fáceis para a empresa do “pássaro azul”, que até foi ultrapassada pela rede Instagram (que pertence à Facebook e tem 400 milhões de utilizadores), mais recente.

Aliás, num esforço de crescimento, o conselho de administração da Twitter voltou-se para o fundador mais emblemático da empresa, Jack Dorsey. Os mesmos executivos que acusaram Dorsey de estar mais focado em ser uma celebridade e de ter demasiadas atividades extra empresa - Dorsey tinha interesses variados, que iam desde aulas de costura ou pintura a longas sessões de ioga - pediram-lhe para voltar a ocupar o cargo de diretor executivo, que tinha sido forçado a abandonar em 2008.

É preciso relembrar que Dorsey nunca saiu da empresa. No processo que o afastou do leme do Twitter, acabou por ganhar um lugar não executivo no conselho de administração, como forma de o manter pacificado. Mas a trégua não durou muito tempo. Em 2010, depois de ter lançado o serviço Square, que permite fazer pagamentos eletrónicos, Jack Dorsey terá, alegadamente, começado alguns boatos sobre a má gestão que estava, em sua opinião, a ser executada no Twitter.

A verdade é que a empresa trocou de CEO (a cadeira passou para Dick Costolo) e Dorsey teve direito a um papel mais executivo na administração. Em cinco anos os resultados da empresa continuaram a falhar as expectativas do mercado e em junho do ano passado Costolo foi despedido. Sem CEO durante alguns meses (cargo que Dorsey desempenhou de forma interina), a administração acabou por lhe devolver os destinos da empresa em outubro.

O clone de Steve Jobs

Jack Dorsey sempre cultivou uma imagem similar à de Steve Jobs. Já abordei os seus gostos peculiares em costura, por exemplo, mas há mais. Tal como o ícone da Apple, Dorsey foi despedido da empresa que fundou e também lançou uma nova (a tal Square) no hiato que o separou do Twitter. Aliás, tal como Jobs fez com a Pixar, Dorsey vai gerir as duas em simultâneo. Mas há uma diferença abismal entre os dois percursos: as empresas de Jobs são sucessos financeiros, as de Dorsey não. Tanto o Twitter como a Square perdem valor de mercado.

Quando regressou aos comandos da empresa, Dorsey despediu mais de 300 funcionários e foi contratar alguns notáveis ao mercado (à Apple, por exemplo). A empresa lançou, entretanto, o Moments, uma ferramenta que agrega os tuítes consoante um determinado evento que esteja a ocorrer em direto; e há um rumor, quase ensurdecedor, sobre o fim do limite de 140 carateres que tornou o Twitter tão singular.

No entanto, não se conhecem, ainda, os resultados destas operações. O que ficou a saber-se hoje é que a empresa perdeu alguns dos seus administradores executivos mais importantes. São quatro e tinham a seu cargo as áreas de desenvolvimento de produto, os recursos humanos, a engenharia e as parcerias com os média.

O próprio Jack Dorsey parece ter sido apanhado de surpresa pela saída (intempestiva?) dos colegas de administração. Por isso, viu-se obrigado a esclarecer os funcionários da empresa usando a sua conta de Twitter, como pode ver AQUI. Não se sabe quem vai entrar na empresa para os substituir. Para já, são “pessoas da casa” que vão desempenhar os cargos deixados vagos. Com resultados para apresentar no próximo dia 10 de fevereiro, estas mexidas podem não ser bem vistas pelo mercado.

No entanto, o que deve preocupar Dorsey é a falta de crescimento da base de utilizadores do Twitter. A rede parece ter estagnado e, acima de tudo, não tem um desígnio interessante para potenciais novos subscritores. O Facebook começou como uma rede de amigos, mas hoje é, também, onde os utilizadores tomam contacto com notícias, vídeos e fotografias. O Instagram é a melhor rede para a partilha de fotos. O Snapchat é para jovens que gostam de partilhar mensagens que se autodestroem e onde o vídeo ganha uma importância cada vez maior (os utilizadores desta rede veem sete mil milhões de vídeos diariamente). O WhatsApp é a melhor rede para mensagens instantâneas.

No meio disto tudo, o Twitter é o melhor para quê? Para “falar” sobre temas? Para receber notícias ao segundo? Sim, é de topo nessas funções. Mas isso, hoje, é pouco diferenciador. Ao Twitter falta-lhe inovação. Basta ver o que o Facebook muda num ano para ter noção da falta de desenvolvimento de novos produtos na empresa de Jack Dorsey. E é isso que é preciso. Marcar tendências. Ganhar relevância. Falhar nestas premissas vai acabar por deixar o Twitter (à medida que vai perdendo valor em bolsa) à mercê de um qualquer gigante. E já há interessados.

A News Corp pode comprar o Twitter?

Poder, pode, mas a empresa tem negado os rumores. O mau desempenho das ações da Twitter (perdeu 41% do seu valor desde a chegada de Dorsey) estão a colocá-la sob a mira de potenciais compradores. A semana passada, Rupert Murdoch (ávido utilizador desta rede social) desmentiu o interesse da News Corp na compra da Twitter. O rumor sobre esta potencial aquisição aumentou em 14% o valor das ações daquela rede social. Outros investidores têm fortalecido a sua carteira de títulos na empresa norte-americana. Steve Ballmer, ex-CEO da Microsoft, já tem 4% e é o terceiro maior acionista da empresa. Poder ver AQUI.