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Tudo o que importa saber sobre o vírus que se propaga de “forma explosiva”

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Uma técnica da Fundação Oswaldo Cruz, no Brasil, inspeciona a larva do Aedes aegyti, o mosquito que transmite o vírus

UESLEI MARCELINO / Reuters

O vírus que está a sobressaltar as autoridades sanitárias e a preocupar de forma muito particular o Brasil - mas agora o mundo inteiro - tem nome de selva do Uganda e é ainda, em muitos aspetos, um desconhecido. Sintomas e sinais clínicos da doença incluem “febre, erupções cutâneas, dores nas articulações, conjuntivite, dores de cabeça e musculares”. E “há suspeitas (ainda não inteiramente comprovadas) de que a doença possa provocar alterações fetais durante a gravidez, em particular microcefalia” - que é a situação que mais preocupa as autoridades. A Organização Mundial de Saúde reúne-se de emergência na segunda-feira e já disse que o vírus está a propagar-se de “forma explosiva”. Este é um guia de perguntas e respostas

Que vírus é este?

O vírus é transmitido pela picada de mosquitos da espécie Aedes Aegypti, a mesma associada à propagação de outras doenças tropicais, como o dengue ou febre amarela. Começou por ser identificado em macacos, em 1947, na floresta Zika (Uganda), daí o seu nome. O primeiro caso em humanos foi detetado também no Uganda e na Tanzânia, em 1952, mas a relativa pouca frequência dos surtos justifica que se saiba pouco sobre o zika. Atualmente, com mais de 20 países afetados, sobretudo na América Latina, a Organização Mundial de Saúde (OMS) está a levar a ameaça mais a sério e já alertou para o facto de o vírus se estar a propagar de forma “explosiva” no continente americano. As previsões são assustadoras: entre 3 a 4 milhões de casos no mundo em 2016.

Larvas do mosquito Aedes Aegypti, cuja picada transmite o vírus

Larvas do mosquito Aedes Aegypti, cuja picada transmite o vírus

JUAN CARLOS ULATE/REUTERS

Como se propaga?

O Zika não é transmitido de pessoa para pessoa. Está no entanto a ser avaliada a possibilidade de este se transmitir através de transfusão sanguínea e por via sexual, depois de casos - por enquanto isolados - o parecerem indicar. A quantidade de casos de bebés nascidos com microcefalia no Brasil sugere também a possibilidade de haver transmissão entre uma mãe infetada e o feto, algo ainda a ser investigado.

A proximidade de dois grandes eventos no Brasil, o Carnaval e a realização dos Jogos Olímpicos, aumenta a preocupação, pelo risco de propagação da epidemia

A proximidade de dois grandes eventos no Brasil, o Carnaval e a realização dos Jogos Olímpicos, aumenta a preocupação, pelo risco de propagação da epidemia

GETTY IMAGES

Há razão para alarme?

As mulheres grávidas constituem a maior preocupação, pelo facto de no Brasil o surto de Zika ter coincidido com o aumento do número de casos de bebés nascidos com microcefalia - uma malformação congénita que impede o normal desenvolvimento do cérebro e que, muitas vezes, se revela fatal. A relação entre as duas situações não está provada, mas ainda que não exista uma explicação para o facto - que está a ser estudado -, as autoridades sanitárias brasileiras ficaram alerta ao registarem mais de 3800 casos de microcefalia desde outubro (em 2014 o número de casos ficou-se pelos 150). O primeiro trimestre de gravidez parece ser o período mais crítico. Em surtos anteriores, nomeadamente na Polinésia francesa, em 2013, foram também detetados casos de doentes com potenciais complicações neurológicas e autoimunes, refere a OMS

Em Manágua, uma mulher cobre o rosto com uma toalha para se proteger. A doença não se contagia entre humanos, mas há casos que levantam dúvidas quanto à possibilidade real de o vírus poder ser transmitido por via sexual ou sanguínea

Em Manágua, uma mulher cobre o rosto com uma toalha para se proteger. A doença não se contagia entre humanos, mas há casos que levantam dúvidas quanto à possibilidade real de o vírus poder ser transmitido por via sexual ou sanguínea

INTI OCON/GETTY IMAGES

Quais os sintomas?

Não se sabe ao certo, mas o período de incubação - o tempo decorrido entre a picada e a aparição dos sintomas - parece não ir além de poucos dias. Os especialistas acreditam que a maioria das pessoas infetadas não chega a adoecer, mas mesmo no caso das que ficam doentes, os sintomas são ligeiros: febre baixa, erupção cutânea, dores de cabeça e nas articulações, podendo surgir também conjuntivite. Geralmente, as queixas desaparecem ao fim de uma semana. Os peritos da Direção-Geral da Saúde acrescentam que “há suspeitas (ainda não inteiramente comprovadas) de que a doença possa provocar alterações fetais durante a gravidez, em particular microcefalia”. E este é o caso, para já, que mais preocupa.

Não há vacina contra o zika, nem tratamento específico. Muitos dos infetados não chegam sequer a apresentar sintomas

Não há vacina contra o zika, nem tratamento específico. Muitos dos infetados não chegam sequer a apresentar sintomas

JOSE CABEZAS/REUTERS

Qual o tratamento? Como prevenir?

Não há um tratamento específico. Geralmente basta que os doentes se mantenham em repouso, tenham o cuidado de beber líquidos e recorram a analgésicos comuns para a dor. Como até ao momento não existe vacina, os especialistas sublinham que prevenir é mesmo o melhor remédio. Além da utilização de repelentes, é recomendado o uso de roupas claras, com mangas compridas e calças largas - sobretudo durante o dia, quando os mosquitos estão mais ativos -, devem manter-se fechadas portas e janelas ou, em alternativa, cobri-las com redes mosquiteiras, assim como as camas. Deve ainda dar-se atenção a todo o tipo de utensílios ou recipientes onde se possa acumular água, limpando-os, já que a as águas paradas são potenciais ‘incubadoras’ onde os mosquitos depositam os seus ovos. No caso das mulheres grávidas, as autoridades recomendam que não viajem para os países afetados.

Os seis casos diagnosticados até agora em Portugal foram “importados”. O ministro da Saúde diz que a situação está controlada

Os seis casos diagnosticados até agora em Portugal foram “importados”. O ministro da Saúde diz que a situação está controlada

DENIS BALIBOUSE/REUTERS

Qual o risco em Portugal?

Até agora foram diagnosticados seis casos em Portugal, todos ‘importados’. Cinco dos doentes contraíram o vírus no Brasil, enquanto o caso mais recente é o de um jovem médico recentemente regressado de umas férias na Colômbia. Em comunicado, a Direção-Geral da Saúde sublinha que “a infeção é devida a picada de mosquito do género Aedes que desde há muito não existe no continente português”, acrescentando que “uma vez que, em regra, a doença não se transmite de pessoa a pessoa”, não haverá “risco de formação de cadeias de transmissão”. A principal recomendação é dirigida a mulheres grávidas, que são aconselhadas a não viajar para os países afetados. Caso tenham mesmo de o fazer, a DGS aconselha que se informem numa Consulta do Viajante, devendo, por outro lado, as grávidas que tenham permanecido em áreas atingidas pelo surto “consultar o médico de família ou o obstetra após o regresso, mencionando a viagem”.

Sessão de informação sobre o zika num aeroporto chileno. Enquanto os cientistas investigam, pressionados pela urgência, as autoridades sanitárias tentam passar as recomendações necessárias para garantir a prevenção

Sessão de informação sobre o zika num aeroporto chileno. Enquanto os cientistas investigam, pressionados pela urgência, as autoridades sanitárias tentam passar as recomendações necessárias para garantir a prevenção

IVAN ALVARADO

O que está a ser feito?

Sem vacina conhecida para combater o vírus e com a certeza de que sabem ainda muito pouco sobre ele, o principal desafio para os cientistas é alcançar respostas rapidamente enquanto as autoridades sanitárias lutam para controlar o mosquito Aedes. A tarefa é difícil. Extremamente adaptado aos ambientes urbanos, as fêmeas desta espécie aprenderam a colocar ovos apenas em ambientes artificiais que retêm água e esses ovos adquiriam uma resistência incomum, capazes de sobreviver até dois anos, mesmo sem água. Os mosquitos são igualmente resistentes a muitos inseticidas e repelentes. Em Genebra, os especialistas da Organização Mundial de Saúde vão na próxima semana reunir os dados científicos disponíveis e aconselhar-se com os peritos para delinear prioridades na investigação. Quanto ao vírus Zika propriamente dito, por enquanto os pesquisadores acreditam que exista apenas um tipo, incapaz de sofrer muitas mutações. A ser assim, explica um artigo da “Veja”, após a primeira picada, o indivíduo ganharia anticorpos, ficando a salvo de uma segunda infeção, o que significaria luz verde para os especialistas avançarem para o próximo passo - ou seja, descobrir quais os anticorpos que o microrganismo provoca ao entrar no organismo. “A partir daí será possível criar um exame para detetar a presença do vírus, saber o número exato de infetados e, possivelmente, dar início aos estudos para a criação de uma vacina”. Não é tudo. Neste combate, também é essencial decifrar ao pormenor a genética do Zika

Margaret Chan, da OMS, anunciou esta quinta-feira a realização de uma reunião de emergência

Margaret Chan, da OMS, anunciou esta quinta-feira a realização de uma reunião de emergência

MARTIAL TREZZINI/EPA

O que diz a OMS

A Organização Mundial de Saúde não esconde a preocupação perante a evidência dos números. No dia em que anunciou uma reunião de urgência, para estabelecer prioridades e procurar respostas, a OMS referiu também que são esperados até 4 milhões de casos em 2016, com o vírus a propagar-se de forma “explosiva”.

É preciso saber mais sobre o vírus, sublinha a organização, mas a multiplicação dos casos de microcefalia e as suspeitas de que a doença pode trazer também complicações neurológicas está a tornar-se alarmante.

  • Casos de zika confirmados em Portugal sobem para seis

    Caso mais recente foi identificado em Lisboa. Sintomas e sinais clínicos da doença incluem “febre, erupções cutâneas, dores nas articulações, conjuntivite, dores de cabeça e musculares”. E “há suspeitas (ainda não inteiramente comprovadas) de que a doença possa provocar alterações fetais durante a gravidez”. OMS vai reunir de urgência na próxima segunda-feira

  • Os médicos nunca viram nada assim. “Há uma geração comprometida”

    Crianças com cabeças demasiado pequenas, mães assustadas e médicos em choque. Foi em Pernambuco que a epidemia brasileira de vírus zika começou e os dois médicos que detetaram a ligação à malformação neurológica falam ao Expresso sobre a infeção que está a alarmar o mundo. “Eu tenho 44 anos de experiência médica e já vi muita coisa: poliomielite, cólera, o vírus da gripe (H1N1), surtos de difteria e de sarampo. Mas nunca tinha visto nada como agora e nem com estas consequências”, dizem. “No início, as mães ainda acreditam que a cabecinha do bebé vai crescer, que a criança irá ficar normal. E somos nós que temos de explicar que não será assim”

  • Já não bastavam os mosquitos, agora há zika no sexo e no sangue

    O pânico mundial com o zika alastra com o crescimento do número de vítimas do vírus. Em Portugal ainda só se conhecem quatro casos, mas o alerta é total, sobretudo na Madeira, onde o mosquito já foi encontrado. No Brasil já se confirmaram cerca de quatro mil situações de bebés nascidos com microcefalia, ou seja, com o perímetro cerebral inferior ao normal (32 centímetros), devido a este vírus

  • Brasil. Surto do vírus zika faz disparar casos de bebés com microcefalia

    Aumento dos casos está relacionado com o vírus Zika, transmitido pela picada do mosquito que também é responsável pela propagação de dengue e febre amarela. Desde outubro, já morreram pelo menos cinco bebés que nasceram com crânios anormalmente pequenos. Gravidas aconselhadas a não visitarem o Brasil e outros países vizinhos da América Latina