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É o lifestyle, stupid

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A vida urbana e moderna está cheia de palavras estranhas que querem dizer coisas antigas. Este é um glossário para os tempos que correm

Levante-se e atire a primeira gyoza jikasei quem nunca deu por si a dar voltas à cabeça para compreender todas as linhas com que se vai cosendo a vida glamourosa dos nossos dias. O instante de dúvida pode chegar num rooftop, em plena sunset party, à mesa de um bistro, durante o brunch, ou ao pedir mais uma bebida no bar de um hotel que tem mais duas ou três coisas estranhas no nome. Novos mistérios cosmopolitas surgem todos os dias, sempre vestidos à inglesa, como winelovers espalhados pelo lounge a discutir o último jantar vínico num espaço underground. Quase os conseguimos ouvir gabar a experiência fine dinning e o chill out do seu próprio lifestyle. Ouvimos, sim, mas não é fácil perceber.

Comecemos estas páginas do Glossário para os Tempos que Correm (GTC) pelo mais óbvio. Que seja um jantar. O comum dos mortais incluirá na equação uma mesa, uma cadeira, um prato com comida, faca e garfo, e o copo cheio. Já diz o povo que “comer sem beber não é comer” e a sabedoria popular tem tanto de simples como de verdadeiro. O inferno, como sempre, está nos detalhes. Onde está a mesa? Que mesa é? Que tal parece a cadeira? O que vem no prato? Deseja vinho? Pois bem. Mas que vinho? E os quadros na parede? E a cor da parede? E se não houver parede? E se tirarmos os quadros? Mas que quadros? O tal jantar, de comidinha no prato e copo cheio, ainda nem sequer começou, mas a confusão está instalada.

Basta sair à rua e olhar à volta. Não vale a pena falar dos sushi bar (uma taberna ou bar onde se pode comer sushi e que, por regra, tem mesa corrida e balcão) ou das steakhouse (carne, carne e mais carne, ainda que alguns possam ter alternativas tão improváveis como comida vegetariana, o que os deixa no angustiante limbo de não serem bem carne nem peixe...). O problema pode ser caminhar pela linha estreita que serpenteia entre um bistro (um pequeno restaurante onde se vendem bebidas alcoólicas e petiscos) e um winebar (um bar onde se vende o alcoólico vinho, a copo, e onde se pode petiscar). Sem deixar o vinho (tinto, branco, verde, cor-de-rosa ou outro qualquer, espumante incluídos), convém recordar que, no cosmopolita mundo moderno, a palavra certa é wine, como sucede no já referido winebar.

Desenganem-se os que pensam que isto se trata de uma moda. Daquelas que têm a mesma duração de uma cor da Pantone (a empresa americana que dita as cores de cada estação). O lifestyle (estilo de vida) chegou para ficar. Hoje, é mais fácil gastar 100 euros num jantar especial, num workshop ou num fim de semana de wellness (bem-estar) do que num par de calças de ganga. “É hoje em dia mais importante do que as marcas. As experiências dão a conhecer outras pessoas, outros conceitos. É um enriquecimento enorme ”, explica Armando Ribeiro, fundador da Plataform-a, agência de comunicação especializada neste ramo. A prova está na quantidade de restaurantes, bares e lojas que abriram nos últimos anos. Os chefes de cozinha tornaram-se estrelas de cinema, os jornais e revistas (mea culpa) abriram secções para acompanhar as tendências e conceitos, os produtos artesanais e de produtores portugueses são hoje os preferidos. Aqueles que fica bem comprar. A indústria agradece. “Não só foi uma área que não esteve em crise como cresceu nos últimos anos”, continua Armando Ribeiro.

As palavras crescem ao ritmo da oferta. Por isso, temos hoje a winehouse (aquilo a que, há uns tempos, se chamava garrafeira, designando uma loja ou adega onde se vendem vinhos), a wineshop (ao que parece, uma winehouse com menos de house, mais de shop, e os mesmos vinhos à venda). Se o GTC não o esclarecer de forma cabal, poderá sempre procurar ajuda de um winelover (apreciadores de vinho que se reúnem para comer e beber). É fácil encontrá-los nas winehouses ou nas wineshop — afinal são lojas abertas ao público; a não ser, claro, que estejam apenas online... Em último recurso, se a dúvida persistir além do razoável, é sempre possível tentar arranjar forma de ser convidado para um jantar de winelovers. Uma dica: a palavra-chave para uma demanda bem sucedida é enogastronómicos: um jantar onde as pessoas, os winelovers, bebem vinho, daí o eno, e comem comida, com o especial cuidado de o primeiro ser o mais adequado à segunda.

Fortunato da Câmara, o atual crítico gastronómico do Expresso, reconhece que, tal como sucedeu com o rock, a comida está em verdadeira explosão lexical. “As pessoas estão dispostas a ir atrás da próxima novidade. Por isso é que houve tanta pregaria e hamburgueria. Mais do que uma moda, creio que é uma tentativa de o mercado chamar a atenção. Fecharam muitos espaços nos últimos anos, mas também abriram bastantes, mais arrojados. Vivemos numa época em que cada um tem de fazer prova de vida”, explica.

Nem a propósito, o crítico gastronómico retoma a discussão nos jantares enogastronómicos. “Qual é a diferença entre estes e os jantares vínicos? Também não sei bem”, admite. Mas deixa uma pista. “Um jantar enogastronómico pressupõe que os vinhos são escolhidos de acordo com os pratos. É pensar cada prato de acordo com o momento. Os vínicos são apresentações de vinhos”, revela. Fortunato deixa também uma contribuição para o GTC: pairing, a ligação da comida com o vinho. Moderno? Nem por isso. “Há uma expressão portuguesa que significa o mesmo, mas não é tão utilizada. Maridagem”. Como? “Maridagem. Significa que o vinho é marido da comida. É uma expressão que se perdeu”.

Não se perca. Ainda estamos no restaurante, e à mesa. Neste momento, o importante é olhar para o lado. A mobília é escassa e de linhas direitas? Pode estar num espaço minimalista. As mesas e as cadeiras parecem as da casa de uma tia que só vê às vezes e até há um quadro de gatinhos ou do menino que chora? Vintage. Repita: vintage. Ou então há sofás, puffes e música? Atenção, pode ser um restaurante chill out (significa relaxante e, como se verá adiante, é mais comum noutros espaços), o que não tem nada de mal. E se o desconhecido que aparece nas fotografias penduradas, de calções na praia, é igual ao tipo que acabou de se sentar à sua frente? Provavelmente está em casa dele e este transformou a casa num supper club (restaurante privado em casa de pessoas, uma espécie de clube de comida).

Não se espante se, pelo meio, houver mão de um healthfood shopper (alguém que vai ao supermercado consigo para o ajudar a comprar alimentos saudáveis). Vamos admitir que não, por uma questão de coerência narrativa. É um restaurante, em qualquer uma das versões apresentadas acima. Atentemos no conteúdo do prato. Poderá contar aos amigos que esteve num espaço de fine dining se um empregado/a impecavelmente vestido/a a rigor colocar à sua frente um exemplar de cozinha de autor (pratos preparados de forma original e exclusiva recorrendo a várias técnicas culinárias) — e também ajuda se a decoração do estabelecimento cair numa destas categorias: vintage (ver acima), requintada (OK, esta não é fácil) ou cosmopolita (ver abaixo). Se não houver cozinha, ou se a mesma não for facilmente distinguível do resto do espaço, estará a ter uma experiência de livecooking (cozinha ao vivo feita por um ou mais chefes).

Não se assuste se, por qualquer razão, não houver nada do que descrevemos mesmo agora. Pode acabar num prédio devoluto e escuro, cheio de graffiti e buracos na parede, sentado em cadeiras de talha dourada e de frente para uma mesa com três copos e três pares de talheres para os diferentes pratos. Pode até ouvir um gato a miar ao longe. Se for assim, estará num guerrilla diner (jantar social, onde se promove o convívio, num momento único e num espaço inusitado). Sorria ou ria (LOL), e aproveite: tire uma fotografia ao prato e coloque-a numa rede social com a hashtag obrigatória (usar o símbolo cardinal e escrever foodporn à frente, seguido por uma série de pontos de exclamação; o resultado final é #foodPorn!!!!!!!)

O jantar acabou. A aventura vai a meio. João Belo, publicista e fundador da agência Naughty Boys (rapazes malandros), é o guia para o que se segue. E também uma ajuda preciosa para tentar saldar uma dívida que já tem dois parágrafos: cosmopolita. “Pessoas cosmopolitas, com pinta, são pessoas com mundo, que têm interesses, que têm conversa, que sabem tão bem o que se passa no mundo como numa rua que foi reabilitada. Trabalham muito e depois vivem intensamente a sua cidade. São quase sempre os mesmos, mas o ambiente é o que acontece com Nova Iorque e em Miami”, descreve.

Não vale a pena gastar milhas. Esqueçamos Nova Iorque e Miami. As ruas e os prédios reabilitados servem perfeitamente. Na última década, a explosão no número de turistas em Lisboa e no Porto — regressemos por um instante a Fortunato da Câmara, que nos recorda que as novas modas, “ao contrário do que se pensa, não são exclusivas dos grandes centros urbanos” — transformou por completo a cara das zonas históricas. Todos os dias e por toda a parte surgem novos espaços, novos negócios, novas formas de transformar o velho, novas palavras.

“Sei que não é politicamente correto, mas não passa de uma manifestação de novo-riquismo”, expressa João Valente, presidente da Associação Portuguesa de Linguística. Para o especialista e professor da Universidade do Porto, o fenómeno de “importação lexical” apenas faz sentido se “suprimir lacunas lexicais”. Quando apenas vem substituir termos correntes da nossa língua de forma redundante trata-se apenas de uma “moda”, de uma “vontade de dar um ar novo às coisas que conhecemos”. Mas este é o mundo dos cosmopolitas.

Toquemos o céu antes de descer ao inferno. Os prédios sempre vieram com telhado ou terraço, e há até quem diga que é isso que os impede de crescer indefinidamente. Nos últimos anos, passaram a ter rooftops (não vale a pena estar com rodeios, é um terraço). E nesses rooftops as pessoas fizeram nascer negócios. O mais comum é o rooftop bar, um bar num terraço com mesas, cadeiras e vista (supõe-se que seja uma vista bonita, para a cidade ou para o rio, ainda que um quarteirão de prédios não deixe de ser uma vista). O que se faz nesses bares? Bebe-se, claro. A resposta está quase sempre certa, mas há uma hora do dia em que peca por defeito. Ao final da tarde dos dias de verão, quando o céu ganha aquele tom laranja a prometer calor na manhã seguinte, não é apenas beber o que se faz. É o momento do sunset (pôr do sol) e nada vai tão bem com ele como uma party — eis a sunset party (quando se celebra o fim do dia), que pode ser também wine sunset party (tudo o que já foi dito, mas com vinho) ou ainda uma gin sunset party (idem, idem, aspas, aspas, com gin). Sendo este o caso, haverá por perto um ou vários ginlovers (amantes de gin e o nome de um grupo que dinamizou o consumo desta bebida em Portugal).

Os terraços, rooftops, têm sempre um ambiente chill out (significa qualquer coisa entre o relaxante e o descontraído, embora não fique claro quão bem sucedido pode ser um bar, ou terraço, onde a pessoa não consiga descontrair ou relaxar). Se for muito grande, o terraço pode ser elevado à categoria de rooftop lounge (inclui cadeirões e música descontraída) e é o espaço ideal para organizar sunset sessions (sessões de música ao final do dia). “Pessoas cosmopolitas vão a exposições, a um rooftop bar, a um restaurante novo. Eu próprio vou, por exemplo, ao teatro e depois comer sushi, e depois a um rooftop bar”, confidencia João Belo. Um pequeno brinde oriental, muito técnico e específico, para o GTC: sushiman (o equivalente a chefe, mas para comida japonesa); miso (sopa típica japonesa); gyoza jikasei (um dumpling, que, por sua vez, é uma espécie de pastel pequeno típico da comida cantonesa, também famosa pelos dim sum); gunkans (que são semelhantes em tudo às peças mais conhecidas, mas aqui os ingredientes — com especial destaque para o salmão — surgem sobre o arroz enrolado em alga); makizushi (os tais clássicos enrolados com os ingredientes envoltos por uma alga desidratada); rámen (massa japonesa com inspiração na alimentação chinesa). Domo Arigato. Não precisa de agradecer.

Vamos até lá fora? Há alguns anos, a maior parte das pessoas entenderia ir até à esplanada, esse espaço de liberdade onde a comida sabe melhor e, a quem interessa, se pode fumar. Hoje, contudo, bares e restaurantes têm salas indoor (interior) e outdoor (exterior), ou seja, têm salas e esplanadas. O mesmo sucede com alguns hotéis, ainda que neste último caso esse seja o menor dos problemas no GTC. Vamos até à receção? Passamos a correr pelo termo hostel, que pode surgir acompanhado de palavras como design, se for essa a vertente do espaço (ou a vontade dos donos para dar um ar mais upmarket ao espaço que começou por oferecer preços baixos em quartos partilhados com casa de banho comum). Os surfistas também têm hostels e outras soluções de hotelaria pensadas para si: claro que são os surfcamps, os surfhostels e as surfhouses. O que importa é estar perto da praia — de preferência de uma com ondas. Para quem prefere serviço superior há sempre o tradicional hotel, mas o problema surge mais uma vez na justaposição. Temos o boutique hotel (ou hotel de charme, que também não explica grande coisa), o design hotel e por aí em diante. No campo comum a todos eles temos a sua função: alojar os hóspedes. O melhor é não pensar muito, pedir a chave e seguir para o quarto.

Vista o outfit (roupa) de workout (exercício) e vá até ao ginásio. Leve consigo um outro brinde do GTC: pode ou não haver por lá um health coach (pessoa que lhe dê dicas para uma vida mais saudável), mas alguns hotéis têm os seus próprios PT (de personal trainer, treinador ou pessoa que o incentiva e ajuda a praticar exercício). Não exagere. Ao início, o melhor é apostar num leve treino funcional (termo que designa movimentos da vida normal feitos repetidamente, como por exemplo agachamentos) e ficar longe de coisas como o Crossfit (estímulo intenso de diversos músculos do corpo), o TRX (basta dizer que é o exercício preferido dos militares norte-americanos dos SEALS, os tais que apanharam Bin Laden) ou Les Mills (que inclui modalidades como BodyCombat — deve ser o que parece —, BodyPump — terá saltos? — ou RPM — este mete bicicletas). Calma, muita calma. Se há uns anos o jogging estava na berra — e Portugal até teve um primeiro-ministro adepto da modalidade —, agora toda a gente faz running (como se tudo isto não se tratasse apenas de correr).

Cansada? Cansado? Faça uma pausa e prove um froyo (iogurte gelado). Fique longe do slunch (uma mistura de lanche e de jantar), guarde-se para o brunch (mistura de pequeno-almoço e almoço) do dia seguinte. Tome um duche e vista qualquer coisa, mas atenção ao dress code (determina a roupa que deve ser usada consoante a ocasião). Black tie é do mais formal que existe: significa ir de smoking. No extremo oposto, ou quase, está a roupa vintage (neste caso significa em segunda mão, ou a imitar o estilo do século XX), que pode estar à venda numa loja pop up (abrem apenas por um período curto de tempo) ou num indoor market. É nesta espécie de armazém que hipsters e outras classes da contemporaneidade se juntam aos criadores mais cool e que pensam mais out of the box.

O segredo é saber fazer um mix que resulte. Para quem ainda não teve tempo para perceber as tendência da nova estação, o que está mesmo a dar é o high-low. Sim, usar uma peça de roupa de uma marca mais cara com outras de marcas de grande consumo. Claro que isto sempre se fez — não há dinheiro para tudo —, mas agora é mesmo moda. O melhor é aproveitar. Visual aprovado e acessórios no ponto (não esquecer a clutch que já não é pochette), está tudo pronto para sair do quarto. Nem tudo. Faltam a publicação matinal no Instagram. Nada que demore muito tempo: vire-se para o espelho e tire mais uma fotografia. A hashtag é #ooftd (outfit of the day, ou roupa do dia). Mais uma para o GTC.