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O fim do império das lojas de ouro

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Cliente vende as joias numa loja de ouro em 2011. Esta agência da Grande Lisboa já não existe

Tiago Miranda

Em três anos perto de mil estabelecimentos fecharam portas. As duas principais cadeias perderam 300 lojas

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Havia uma em cada esquina. Ou quase. As casas de compra e venda de ouro usado multiplicaram-se a grande velocidade entre 2010 e 2013, só rivalizando em número com as cadeias de fast-food ou com as lojas chinesas. Nessa altura, abria em média uma agência por dia. Hoje quase desapareceram das zonas nobres das grandes cidades e dos centros comerciais.

Entre as principais ‘vítimas’ estão as duas maiores potências do ramo, a Valores e a Ourinvest, que chegaram a ter, juntas, mais de 350 agências espalhadas pelo país e até no estrangeiro, formando um império que rendia em conjunto mais de cem milhões de euros por ano. Atualmente, a Valores fatura bem menos: 10 milhões de euros nas 25 lojas. A Ourinvest não revelou o número de agências abertas nem a faturação mas uma responsável confidenciou ao Expresso que serão cerca de 30.

Ou seja, em conjunto as duas marcas têm um décimo das casas de 2012. “Houve um apagão quase completo destas empresas de compra e venda de ouro”, confirma João Carlos Brito, da Associação Portuguesa da Indústria de Ourivesaria.

Segundo os dados da Imprensa Nacional — Casa da Moeda, esta semana existem 5683 retalhistas de ourivesaria registados (entre lojas tradicionais e de ouro usado). Em julho de 2012 o boom do negócio refletia-se em 6714 casas abertas — mais de mil do que as que existem hoje.

Todos apontam a descida abrupta do preço deste metal precioso como a razão principal para explicar a hecatombe. Numa altura em que o ouro valia 50 euros por grama era tentador, para os portugueses que mais sofriam com a crise económica,vender as joias de família que ninguém usava. Só que agora vale menos 20 euros por grama.

“As pessoas deixaram de vender as suas peças devido à queda do preço do ouro”, admitia Luiz Pereira, da Ourinvest, em 2014 quando a crise do negócio dava os seus primeiros sinais.

Aliado ao ouro a preço de saldos, também o stock de relíquias valiosas guardadas no baú parece ter-se esgotado. “Não tenho mais ouro em casa”, resume João Mendes, cliente habitual destas lojas até há poucos meses. Em 2011 decidiu vender várias joias herdadas da família, apesar de não ter dívidas em atraso ou o emprego em perigo. “Aproveitei o preço alto do ouro para comprar um ecrã plasma e poder jantar fora quando bem me apetecia. É que não confio nos bancos.” Nunca se arrependeu de ter “despachado” as dezenas de colares e anéis.

Quem se desfez desses bens “foi principalmente a classe média e média/baixa que agora já não tem mais nada de valor para vender”, lembra Fátima Santos, da Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal. A esmagadora maioria desse ouro em segunda mão foi derretido e exportado para a Europa: dezenas de toneladas saíram do país.

Lúcia Pimenta, da Valores, admite que o país atravessa “um momento de confiança nos consumidores, que se reflete um pouco negativamente neste ramo de negócio”. E acrescenta: “Muitos abriram lojas sem reunirem as condições mínimas esperadas, apenas visando o lucro rápido. De alguma forma minaram a confiança no sector.”

Crime, dizem eles

Também a nova lei das ourivesarias veio apertar a malha ao negócio da compra e venda de ouro usado: em novembro passou a ser proibido pagar em dinheiro transações de ouro de valor superior a 250 euros e a ser obrigatória a afixação de letreiros nas lojas com a cotação diária dos metais preciosos bem como a instalação de sistemas de videovigilância. “É uma legislação muito restritiva e vem tarde. Os paraquedistas que aterraram neste negócio saíram dele antes de as novas regras entrarem em vigor”, queixa-se Fátima Santos.

Um relatório do Sistema de Segurança Interna garantia em 2012 que uma parte muito significativa do ouro roubado em Portugal teria como destino estabelecimentos de comércio de ouro que recorriam “a estratégias ilícitas para legitimar” a origem deste material roubado.

Nos anos seguintes, as redes de recetação e branqueamento de capitais ligadas a algumas destas casas foram sendo desmanteladas. Outras continuam no ativo. “Os esquemas criminosos destes grupos vieram dar mau nome ao negócio”, acusa João Carlos Brito.

Nunca em Portugal tantas ourivesarias foram alvo de roubos, alguns deles muito violentos e com vítimas mortais. Em 2012, havia em média um assalto de dois em dois dias. Em 2015 registaram-se apenas 46 casos, o número mais baixo dos últimos cinco anos.