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Coisas antigas e um ramo de rosas silvestres

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Arranjos de flores da Kc.Kli.Ko

Uma vista deslumbrante num restaurante que é um retângulo transparente, croissants acabados de fazer, hotéis de charme com história antiga e um sapateiro que persiste em resistir. Entre o Museu Nacional de Arte Antiga e a Igreja de Santos-o-Velho, em Lisboa, há muito a descobrir.

Eis um bom pretexto para percorrermos a Rua das Janelas Verdes e perdermo-nos nos seus arredores românticos e sossegados a subir escadarias e calcorrear ruelas escondidas. Quem nos seguir, receberá um ramo de flores selvagens.

LA BOULANGERIE

A moda dos croissants “à francesa” veio para ficar. Neste café/ bistrô fabricam-se ao longo do dia. A sala é simpática e luminosa, encontra-se aberta para a sala do padeiro, que tem uma grande mesa de mármore onde podemos observar a confeção de pão. Do pão escuro com alfarroba e cereais, do pão com figos, curcuma e nozes, aos rústicos ou às baguetes francesas, há muita variedade. Mas a especialidade, como já se disse, são mesmo os croissants, com clientela fiel. Durante o fim de semana chegam a sair às centenas. Também são servidos hambúrgueres com pão feito na hora, saladas de presunto e chevre, sanduíches de muitos sabores. Tem menu de brunch sempre disponível e servem-se almoços ligeiros. Nos dias bons pode comer-se na esplanada com vista para o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), que por ser o ex-libris da rua também é conhecido como o museu das Janelas Verdes.

La Boulangerie, Rua do Olival, 46. Tel. 308 802 937. Terça a dom. das 8h às 20h

Le Chat

Um retângulo transparente, entre o edifico da Cruz Vermelha e o MNAA, ocupa discretamente um canto do miradouro da Rocha do Conde de Óbidos. A sala, toda branca e de vidro, parece ficar a flutuar sobre um enorme terraço. A vista, de Tejo e de porto, é deslumbrante e obrigatória para se desfrutar a todas as horas do dia, sendo os fins de tarde (escusado será dizer) o momento de glória do le Chat. Tem uma extensa lista de vinhos nacionais e cocktails e serve petiscos e entradas de tábuas de enchidos e de queijos e refeições variadas. Vale a pena ficar por lá a espreguiçar, observando o movimento do porto e ouvindo o apito dos navios a caminho da barra, que nos convocam a partir.

Travessa do Olival a Santos 20. Todos os dias das 12:30 a 02:00

Hotéis com história

Páteo interior do Hotel das Janelas Verdes

Páteo interior do Hotel das Janelas Verdes

Outro ex-líbris das Janelas Verdes é a York House. Começou por ser um convento de irmãs irlandesas e na primeira metade do século XX foi comprado por uma família francesa e convertido em residência para estrangeiros a viver temporariamente em Lisboa. Logo nessa altura, destacou-se pelo seu charme discreto, pelo pátio interior coberto de hera, pelos quartos e salas assinados por Lucien Donnat, decorador de gosto requintado, cenógrafo e figurinista do Teatro Nacional D. Maria. Na década de oitenta do século XX a casa foi vendida e passou por sucessivas gerências. Mas manteve a marca inicial do seu charme discreto e um gosto particular pela confeção dos pratos. O restaurante, com porta aberta ao público, tem sido considerado um dos melhores de Lisboa. Encontra-se em remodelação. Reabre no início de fevereiro.

Igualmente discreto, mesmo em frente à York House, fica o Hotel Janelas Verdes. Este é o edifício - originalmente um palacete do século XVIII - eternizado por Eça de Queiroz na célebre descrição do início do romance “Os Maias”: “A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete.” Hoje é um boutique hotel que pertence a Heritage, com uma vintena de quartos aconchegados e vistas largas. O espírito do hotel é proporcionar aos hóspedes uma vivência quase de casa, como se fossem eles os únicos habitantes do lugar. Neste sentido, o acesso é reservado. Vale a pena subir à biblioteca, que tem telescópio e terraço, para espreitar as estrelas. Mas a marca da casa são os pequenos-almoços servidos no jardim interior e que são uma verdadeira perdição.

York House Rua das Janelas Verdes, 1200-691 Lisboa. Tel. 21 396 2435
Hotel das Janelas Verdes Rua das Janelas Verdes, 47. Tel. 21 396 8143

Igreja de Santos-o-Velho

O largo de Santos é dominado pela igreja que nos habituámos a ver dominar a perspetiva da rua. Mas quantas vezes subimos, para espreitar cá de cima? Consta que a igreja de Santos-o-Velho foi erguida no lugar de um templo romano, como tantos outros do culto cristão que vieram ocupar os lugares sagrados dos árabes ou dos romanos, para celebrar vários santos mártires. As obras de restauro são do final do século XVIII, marcando-lhe o traço até aos nosso dias.

O sapateiro Braz

Mesmo em frente à Igreja, já na Rua da Esperança, fica o sítio do senhor Braz, um sapateiro à moda antiga, com sapatos a monte, cheiro a couro e cola, martelo, ferro e forma. É um típico sapateiro de vão de escada, como eram quase todos em Lisboa, hoje cada vez mais raros de encontrar. Só por isso merece destaque. A casa pertence ao senhor Armando, que aprendeu o ofício com o pai, que já o tinha herdado do avó. Nessa época eram donos de várias casas de arranjos e cortes de sola e faziam milagres ao calçado estragado. Hoje Armando Braz é um resistente de um ofício que reside na nossa memória mas, infelizmente, parece estar em vias de extinção.

Museu Nacional de Arte Antiga

“O Regresso da Pesca”, de Joaquín Sorolla, no Museu Nacional de Arte Antiga

“O Regresso da Pesca”, de Joaquín Sorolla, no Museu Nacional de Arte Antiga

Percorremos as salas sóbrias do Museu de Arte Antiga e de repente deparamo-nos com um assombroso El Greco, quadro de Joaquín Sorolla, o valenciano dos retratos e das paisagens de luz, ou uma cena de tourada do precioso Goya. São momento de puro deleite. A coleção Masaveu, cujo recheio é tido como um dos mais importantes acervos privados da Península Ibérica, reúne cinco séculos de pintura (entre o XV e o XX) e inclui nomes maiores de pintura espanhola. Entre muitas outras, incluem-se obras de El Greco, Goya, Zubarán, Ribera, Murillo e Sorola. Se ainda não viu, não perca a visita orientada pelos especialistas..

Museu Nacional de Arte Antiga Rua das Janelas Verdes, 1249-017. Visitas orientadas, 3ª a 6ª: 11h00 e 15.30h. Sábado e Domingo: 11h30, 15h30 e 16h30

Kc.Kli.Ko

É um sítio que vende flores, mas não tem loja, porque as lojas de flores têm custos e muito desperdício. A ideia de Albane Chotard e Luís Moreno, um casal com mãos de tesoura, é não importunar demasiado a natureza: “as flores fazem parte do ciclo reprodutivo das plantas. Quando as retiramos estamos a quebrar esse ciclo”, diz Luís Moreno. Moram na parte oriental de Lisboa, numa zona de casas com pequenos jardins e terrenos baldios e a matéria prima que trabalham - flores, plantas, ramos, bagos, frutos - é recolhida por ali na vizinhança. Um trabalho em rede, local, sazonal, assinalável. Só de quando em vez, quando é mesmo necessário, recorrem a pequenos fornecedores locais que trabalham com flores nacionais, sempre da estação. Agora, que é a época das camélias e das rosas silvestres, das hortênsias de tonalidade azul lilás, podemos encontrá-las entre pequenos catos verdes e arranjos delicados de folhas castanhas, vermelhas, amarelas. São uma infinidade de texturas e de cheios que compõem estes buquês deslumbrantes que nos chegam por encomenda. O preço base é 25 euros, acertados com os donos da KC.KLI.KO (pronuncia-se “cokuelicot”, à francesa, que é o mesmo de dizer papoila).

KC.KLI.KO kckliko@gmail.com. Tels. 917 491 726/ 917 609 836