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Poemas de Sophia no funeral de Nuno Teotónio Pereira

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Nuno Teotónio Pereira em sua casa em janeiro de 2015, data da sua última grande entrevista (ao Expresso)

António Pedro Ferreira

​A última homenagem ao arquitecto foi numa igreja com a sua assinatura

O funeral do arquitecto Nuno Teotónio Pereira começou ao som da “Cantata da Paz”. “Vemos, ouvimos e lemos/ Não podemos ignorar”, assim reza o refrão do célebre poema de Sophia de Mello Breyner, musicado por Francisco Fernandes, e que foi suavemente entoado por algumas centenas de pessoas que quiseram prestar a última homenagem ao cidadão arquitecto, cuja vida se confundiu com o catolicismo progressista dos anos sessenta e setenta. O poema, aliás, fora cantado pela primeira vez numa vigília contra a guerra colonial realizada na igreja de São Domingos, na passagem de 1968 para 1969, e organizada clandestinamente por Teotónio Pereira e pela amiga Sophia. Voltou a ser cantado ao princípio da tarde de hoje na igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa, obra da autoria do arquitecto, que lhe valeu um dos quatro prémios Valmor e onde quis que o seu corpo ficasse em câmara ardente.

“Capacidade de reunir e envolver pessoas”

A cerimónia, muito simples, foi presidida pelo frei Bento Domingues, que conheceu Teotónio Pereira em 1962 e de quem também era grande amigo. O dominicano saudou a assistência, dizendo que lhe fazia lembrar “os encontros dos terceiros sábados”, como ficaram conhecidas as reuniões, promovidas por Teotónio Pereira e a primeira mulher, Natália Duarte Silva, perto do Campo Pequeno, e que há mais de 40 anos constituíam um habitual ponto de encontro de numerosos católicos progressistas. Bento salpicou a sua intervenção com várias leituras, incluindo uma crónica de 1995 do próprio arquitecto no Público, as bem-aventuranças do evangelho de São Mateus (numa velha versão do movimento Metanóia) e até uma frase de Raul Solnado, que lhe ouvira pouco antes de morrer: “Deus do amor, livra-me de um deus sem humor…” Socorrendo-se de numerosas citações do Papa Francisco, o sacerdote estabeleceu um certo paralelismo entre Jorge Bergoglio e Teotónio Pereira, em termos de irrequietude, inconformismo e alegria. Deste, elogiou a “sua capacidade de reunir e envolver pessoas”, de “inventar” e de “não fazer juízos de valor”. Bento Domingues quis terminar com mais um texto de Sophia, extraído da sua “Carta aos amigos mortos”: “E eu vos peço por este amor cortado/ Que vos lembreis de mim lá onde o amor/ Já não pode morrer nem ser quebrado./ Que o vosso coração que já não bate/ O tempo denso de sangue e de saudade/Mas vive a perfeição da claridade/ Se compadeça de mim e de meu pranto/ Se compadeça de mim e do meu canto.”

Da família, falou um dos netos, para um muito terno e comovido elogio do avô, que, disse, viveu os últimos tempos na obsessão de completar 94 anos – o que aconteceria no próximo dia 30 – e sobretudo de vir a conhecer o primeiro bisneto, nascido no longínquo Equador.

Quatro prémios Valmor

Nuno Teotónio Pereira ficou em campa rasa no cemitério do Lumiar. Na igreja, o Estado português esteve presente através da sua segunda figura, o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, e do primeiro-ministro, António Costa. À cerimónia compareceram inúmeras figuras do catolicismo progressista, mas também do extinto Movimento de Esquerda Socialista (MES), um pequeno partido de que Teotónio Pereira foi um dos principais dirigentes. Em termos políticos, viam-se personalidades de todos os quadrantes políticos, com destaque para o PS.

“As pessoas são mais importante que a obra”, afirmou Bento Domingues na sua intervenção, garantindo que essa fora sempre a perspectiva de Teotónio Pereira. A sua obra como arquitecto é vastíssima. Para além da igreja que o acolheu (feita em colaboração com o grande amigo Nuno Portas, que também esteve presente), foram distinguidos com o prémio Valmor três outros trabalhos seus: o edifício “Franjinhas”, na Rua Braamcamp (com João Braula Reis); um prédio de habitação na freguesia dos Olivais Norte (com António Pinto Freitas); e a estação de metropolitano do Cais do Sodré (com Pedro Botelho). Mas um dos trabalhos em que mais se revia esteticamente é o Bloco das Águas Livres, também em Lisboa, desenhado em colaboração com Bartolomeu da Costa Cabral.

Casado em segundas núpcias com a artista plástica brasileira Irene Buarque, Nuno Teotónio Pereira tinha três filhos e faleceu em Lisboa no passado dia 20.

  • Um homem na cidade

    Da Mocidade Portuguesa ao MES, perfil de Nuno Teotónio Pereira, o patriarca da arquitetura de Lisboa, que morreu esta quarta-feira, a poucos dias de completar 94 anos. Republicamos o texto publicado originalmente no extinto caderno Actual, do Expresso, em 19 de junho de 2004, dois dias antes da abertura, no Centro Cultural de Belém, de uma exposição a ele dedicada

  • A vida e o legado de Nuno Teotónio Pereira

    Foi o grande pensador da Arquitetura em Portugal. O primeiro a refletir sobre a sua multidisciplinaridade e sobre a sua estreita relação com o desenvolvimento do país, quer a nível social, quer económico. E deixou obra feita. Muita e muito premiada. O legado (neste texto) e a vida (no texto relacionado, Um homem na cidade) de Nuno Teotónio Pereira, que morreu esta quarta-feira no hospital. Faria 94 anos no dia 30 de janeiro

  • Prisão, tortura, fé, amor e arte: a vida preenchida de Nuno Teotónio Pereira

    Era um nome incontornável na resistência católica à ditadura e um dos arquitetos mais distinguidos do país. Nuno Teotónio Pereira só deixou de trabalhar no ateliê em 2008, quando um glaucoma lhe fechou os dois olhos em menos de uma semana. Oriundo de uma família monárquica e salazarista, evoluiu para o catolicismo progressista e, mais tarde, para o socialismo radical, antes de aderir ao PS do amigo Ferro Rodrigues. Depois de cegar, deu uma longa entrevista ao Expresso, saída em fevereiro de 2015 e que agora se republica. Nuno Teotónio Pereira morreu esta quarta-feira - faria 94 anos a 30 de janeiro

  • Morreu o arquiteto Nuno Teotónio Pereira

    Foi o grande pensador da Arquitetura em Portugal. O primeiro a refletir sobre a sua multidisciplinaridade e sobre a sua estreita relação com o desenvolvimento do país, quer a nível social, quer económico. Fez parte de todas as grandes comissões de aconselhamento arquitetónico, de comités habitacionais, de sindicatos. E deixou obra feita. Muita e muito premiada. Morreu no hospital. Faria 94 anos no dia 30 de janeiro