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Um homem na cidade

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Ana Baião

Da Mocidade Portuguesa ao MES, perfil de Nuno Teotónio Pereira, o patriarca da arquitetura de Lisboa, que morreu esta quarta-feira, a poucos dias de completar 94 anos. Republicamos o texto publicado originalmente no extinto caderno Actual, do Expresso, em 19 de junho de 2004, dois dias antes da abertura, no Centro Cultural de Belém, de uma exposição a ele dedicada

Atravessou a vida com um entusiasmo puro, quase inocente, na ideia de que poderia contribuir para um mundo justo. Fê-lo no exercício da sua profissão, no seu trajeto como católico, no percurso de ativista político.

Fê-lo, sobretudo, praticando a cidadania e militando nas causas sociais, que é talvez o ponto onde se cruzam todas as linhas que tecem o seu caminho. É dado a gestos amplos e generosos nas coisas em que se envolve, mas tem a contenção das palavras. É um homem de grande reserva, silencioso, e este traço é também a memória mais antiga que guarda do seu caráter.

Por causa desse mutismo, o pai chamava àquele seu segundo filho “o mudo”. Conta Teotónio: «Éramos seis irmãos, eu muito tímido, não gostava nada de falar, entretinha-me muito com as minhas coisas. Em casa do meu avô, havia uma belíssima coleção de selos e, muito cedo, comecei também a fazer a minha. Gostava imenso daquilo. Nos selos descobria países de lugares estranhíssimos, que depois procurava nos mapas. Foi assim que comecei a interessar-me pela geografia. Se não tivesse seguido arquitetura teria sido geógrafo.»

Nuno era um jovem sossegado, filho de uma família da grande burguesia lisboeta com ligações ao mundo das finanças e ao regime de Salazar. Os Theotónio Pereira, monárquicos e católicos conservadores, praticavam uma educação influenciada pela cultura anglo-saxónica e eram pouco dados à vida social: «A família era muito amiga dos Espírito Santo e de toda essa gente. Mas o estilo era muito diferente. Não se andava em convívios, nem em jantares. Lá em casa, a vida era pacata e austera nos gastos. Do ponto de vista da minha formação, esse aspeto foi muito importante. Nunca me habituei a altos padrões e, assim, mantive sempre uma certa mediania, que me ajudou muito em adulto a suportar as dificuldades económicas por que passei.»

É por via da família que adquire desde cedo uma consciência social: «Apesar de ser uma família de direita, conservadora, havia um grande respeito pela classe trabalhadora. Nunca vi ninguém ser tratado com sobranceria. Tinham a preocupação de promover justiça social. Aplicavam isso na solução corporativa, acreditando que operários e patrões se podiam entender.»

A atividade principal dos Theotónio Pereira era a indústria dos vinhos. O avô tinha uma quinta em Almada. No cais do Ginjal, junto ao rio, ficavam os armazéns da firma, onde atracavam as fragatas que traziam o vinho de Santarém e do Ribatejo, que depois seguia para exportação.

A vivência deste universo meridional marca Nuno Teotónio, que passa todo o período de férias de verão em Almada, entre os jogos de ténis na Quinta do Pombal, os passeios à casa dos tios, hoje Casa da Cerca, e a azáfama dos trabalhadores no cais, quando descia para tomar banhos no Tejo ou andar de barco à vela.

No Liceu Pedro Nunes, em 1936, alista-se como voluntário na recém-criada Mocidade Portuguesa. Quando começa a guerra civil de Espanha e se prepara no liceu uma missão de apoio a Franco, Teotónio Pereira promove campanhas para arranjar alimentos para os nacionalistas espanhóis. «Íamos às empresas buscar sacos de arroz e de açúcar, que foram levados até Sevilha numa grande coluna de camiões. Éramos cerca de cem e ficámos muito bem instalados nos palácios dos aristocratas.»

No ano em que rebenta a II Guerra Mundial, Nuno Teotónio entra para Belas Artes. Manuel Tainha, arquiteto, colega e amigo de longa data, lembra-se dele desde o primeiro dia: «Ali estava o Nuno, com o seu sorrisinho enigmático, apresentando-se impecável, de gravata e fato de 'tweed' completo. No meio de nós, que éramos 15 trapalhões, ele parecia-me uma ave diferente.»

Mesmo assim, recorda: «ficámos um grupo tão estreito que acabámos por formar um coro, e o Nuno, que não era muito musical, também alinhou. Aquele era um mundo pelo qual ele nunca tinha navegado. Vinha de um universo seguro, muito regulado. Progressivamente, vai-se despindo da sua inicial formalidade. Se a passagem pela Escola foi muitíssimo importante para todos nós, nele foi fundamental. Entra de uma maneira, sai de outra».

O primeiro gesto de rutura com a tradição familiar foi, precisamente, suprimir a letra H do nome Theotónio, que lhe conferia uma tónica de distinção de classe que começava a irritá-lo. Esta afirmação aos 20 anos daquele que, até há data, era tido como modelo de bom comportamento foi considerada uma ofensa por toda a família, que fazia um grande gosto naquele H.

A transformação que se opera no universo de Teotónio é gradual. A escola desbrava horizontes. Entre os colegas, destaca a influência de Victor Palla, um ser vibrante e de vasta cultura, e de Costa Martins, que lhe introduzem algumas leituras fundamentais. Pela arquitetura começa desde logo a fazer a rutura com o regime vigente, avançando no sentido do movimento moderno.

Em 1941, no auge do poder nazi, enquanto a Inglaterra estava a ser bombardeada, é apresentada na Sociedade Nacional de Belas Artes a exposição da Moderna Arquitetura Alemã, inaugurada por Albert Speer, arquiteto de Hitler, que provoca discussões fortíssimas com alguns professores: «Na altura, o nosso mentor era já Le Corbusier.»

No ano em que os aliados desembarcam na Normandia, Nuno Teotónio e Costa Martins traduzem a «Carta de Atenas», que assim entra em Portugal pela mão destes estudantes. Até ao final dos anos 40, vai sendo cada vez mais ativo o seu envolvimento com o movimento que se começa a desenhar para a arquitetura das décadas seguintes.

Pouco antes de terminar o curso, quando começam as obras de construção do Bairro de Alvalade, Nuno Teotónio entra para a Câmara de Lisboa. Em 1949 recebe um convite para fazer as habitações económicas da Federação das Caixas de Previdência. «Não hesitei», recorda. Aí, entra em contacto com um país de grande clivagem social e pobreza extrema. Mas se é por meio da habitação social que vai adquirindo a agudeza de olhar que vai talhar a sua enorme consciência cívica, é por via da sua vocação católica que seguirá o trajeto que o leva ao encontro da militância política.

«Não sei porquê, o meu pai assinava um jornaleco chamado 'O Trabalhador', feito pelo padre Abel Varzim, que acabou por ser suprimido pela censura. A certa altura vinha anunciada uma conferência, e eu fui lá. Encontrei dentro do meio católico pessoas que tinham as mesmas preocupações que eu. Nesses encontros, contactei com pessoas da Liga Operária Católica. Foi assim que começou.»

Mário Murteira, economista, que pertencia à Juventude Universitária Católica, funda com Teotónio Pereira a PRAGMA, uma iniciativa católica de difusão cultural e ação comunitária: «No grupo dos católicos progressistas que começava a emergir, o Nuno Teotónio era uma referência. Tinha a reputação de ser um tipo muito sério e uma força de caráter. Não era grande escritor, nem grande orador, todos nós tínhamos uma coisa ou outra, mas era uma pessoa que inspirava confiança total. Talvez fosse por isso que tanta gente lhe pedia tanta coisa.»

Nuno Teotónio (3º a contar da esquerda) com membros da Associação dos Inquilinos de Lisboa

Nuno Teotónio (3º a contar da esquerda) com membros da Associação dos Inquilinos de Lisboa

Luísa Teotónio Pereira, a filha mais velha de Nuno e de Natália Duarte Silva, com quem se casou em 1951, reconhece no pai essa força impulsionadora, traço fundamental do seu caráter que o põe em constante movimento e o conduz ao encontro dos outros: «Ele não é um teórico, é um fazedor. Gosta, sobretudo, de pôr as coisas em prática. Do ponto de vista cívico, essa é a sua principal qualidade. Ele afirma-se no trabalho coletivo, porque é na troca com os outros que lhe surgem as ideias. Precisa dos outros para viver e pensar.»

O casamento com Natália, que conhece na Caixa de Previdência, divorciada, e com ideias mais próximas da esquerda, é feito contra a vontade da família e acompanha o período fervilhante da vida de Teotónio: «Apesar de serem pessoas muito diferentes, eles complementavam-se muito. Eu e os meus irmãos crescemos já nesse ambiente de formação cívica e consciência social», diz Luísa.

«Lá em casa aparecia sempre imensa gente, amigos, pessoas que apareciam a pedir apoio para várias coisas e precisavam de ir conversar. A minha mãe tinha um problema cardíaco, estava muito em casa e era muito disponível. Na altura da Páscoa íamos visitar pessoas que estavam doentes e levávamos amêndoas. Estas coisas faziam parte da nossa vida. Só mais tarde vim a perceber que nas outras famílias não era assim.»

Outro aspeto também diferente era a depuração da casa do Bairro de São Miguel, decorada com móveis desenhados por Nuno Teotónio Pereira: «Lembro-me de ir a casa das outras pessoas e achar tudo atafulhado de móveis», confidencia.

Estes são também os anos de ouro do atelier da Rua da Alegria, que Nuno Teotónio funda primeiro com Bartolomeu Costa Cabral e onde mais tarde entra Nuno Portas. As obras que vão marcar a arquitetura de Lisboa surgem neste atelier, uma espécie de laboratório que ocupa o lugar de escola no panorama cinzento que era a ESBAL.

Ana Tostões, comissária científica da exposição no CCB dedicada ao atelier da Rua da Alegria, avança com a tese: «A arquitetura é sempre um trabalho de equipa. No caso do Nuno Teotónio, isto é francamente assumido. Esse foi o grande período do atelier, e até 1974 eles têm imenso trabalho. Funcionou como uma contra-escola, por onde passaram os mais interessantes arquitetos da sua geração.»

Reunião de trabalho no ateliê da Rua da Alegria

Reunião de trabalho no ateliê da Rua da Alegria

Com Bartolomeu Costa Cabral, Nuno Teotónio projeta o bloco das Águas Livres, emblemático e espantosamente moderno para a Lisboa dos anos 50. Diz Ana Tostões: «A arquitectura de Nuno Teotónio é uma obra em continuidade. Ele não é capaz de fingir. Por formação e educação, tinha uma ligação culta à tradição, às casa boas da família, cresce com isto, que também o marca, e, embora acerte o passo com a modernidade, nunca usa de uma forma dogmática o Corbusier. É um homem que integra as coisas e depois não as segue à letra. Quando o Portas entra no atelier vai ajudar esse processo, fazem uma dupla infernal. Eram absolutamente complementares e fizeram a melhor arquitetura que alguma vez se fez em Lisboa.»

Em simultâneo com a produção do atelier da Rua da Alegria, o grupo dos católicos progressistas começa a juntar-se às vozes de contestação que se faziam ouvir contra o regime. Com a sua enorme capacidade de gerar iniciativas, Nuno Teotónio desempenha, até ao final dos anos 60, um papel fundamental neste processo.

A onda de renovação introduzida pelo Vaticano, praticamente silenciada pela Igreja portuguesa, dominada pelo cardeal Cerejeira, é apanhada pelos católicos progressistas: «A minha aproximação à esquerda fez-se por via da militância social e religiosa. Fui criando laços fortes, inevitáveis, que conduziram à política.»

No final dos anos 60, os católicos mobilizam uma vigília para discutir a questão da paz, em plena guerra colonial. Foi nessa altura que Sophia escreveu o poema «Vemos, ouvimos e lemos», para ser cantado na Capela do Rato, onde se preparava uma manifestação pela paz.Foi já em pleno período marcelista. «Fizemos uma greve da fome, promovemos aquela ação para se discutir abertamente a guerra colonial. Passou por lá imensa gente. A dada altura ouvimos lá fora os cães a ladrar, a PSP entrou por ali dentro e arrastaram-me para a saída. Fizeram uma triagem, foram uns 20 para o Governo Civil e depois 15 para Caxias.»

Não foi esta a única passagem de Nuno Teotónio por Caxias. Das quatro vezes que foi detido pela PIDE, só a última não teve diretamente a ver com as ações clandestinas dos católicos progressistas. Desta prisão - relacionada com material da LUAR (o grupo armado dirigido por Palma Inácio) que tinha ajudado a guardar em casa de uma amiga, centro clandestino onde se produzia toda a documentação que na época circulava sobre a guerra colonial - só sairá no dia 26 de abril de 1974.

Luísa Teotónio, na altura com 21 anos, recorda-se da aflição da família quando percebeu que o pai estava a ser torturado. Durante um mês não teve permissão para receber visitas: «Quando isso acontecia era porque os presos não estavam em estado de ser visitados. Das outras vezes, tinha sido tratado com uma certa deferência, pelo facto de a família do meu avô estar ligada ao regime. Desta vez foi diferente. Ele foi muito mal tratado.» Passou pela tortura do sono, foi espancado, não aguentou, falou na prisão. O peso dessa responsabilidade ainda é vivido com remorsos.

Mas Nuno Teotónio estava particularmente fragilizado. Um ano antes, Natália tinha morrido de parto. Sofria de insuficiência cardíaca, a gravidez era de alto risco. «Morreu com 40 anos. Não me deixei naufragar, mas aquela dor ainda hoje tem mazelas.» A década de 70 foi marcada por esta tragédia familiar e por uma crise no atelier da Rua da Alegria. Foram os anos de travessia no deserto. Não havia trabalho. O atelier esvaziava-se, quase até à década de 80.

Portas deixa a sociedade, na passagem para a política, Nuno Teotónio vem para a rua fazer a revolução. Este e o período do Movimento da Esquerda Socialista (MES) e da acção popular. Os antecedentes do MES começaram a ser delineados ainda antes de Abril de 74, com os estudantes das crises estudantis e os intelectuais de esquerda, entre eles Jorge Sampaio e Ferro Rodrigues. Constitui-se formalmente a 1 de maio de 1974. Nuno Teotónio foi seu dirigente até a extinção, em 1981.

Dessa passagem pela política ativa, que lhe tomou uma fatia de vida, confessa: «Não me sentia nada bem como dirigente político e era pouco convicto nesse papel. Havia aquela coisa da disciplina partidária, sabiam de cor o Marx e o Lenine, e eu nunca fui dado a essas leituras. Sentia-me muito inferiorizado por não ter aqueles instrumentos e participava muito pouco nas reuniões do Comité Central. Na direção do MES fui muito passivo. Não gostava daquelas discussões teóricas, que me provocavam um grande desconforto.»

Na década de 80, Nuno Teotónio retoma a tempo inteiro a atividade profissional, aquela que afinal o revela também como homem. É assim que Ana Tostões entende a exposição que se inicia na próxima semana no CCB: «Ele tem um traço de caráter absolutamente incontornável, o de uma pessoa que procura a verdade. Em tudo. A arquitetura reflete isto, e é também por isto que o seu trabalho não é para ter 'glamour'. Quer, antes de mais, ser verdadeiro e responder às necessidades das pessoas.»

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