Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

A vida e o legado de Nuno Teotónio Pereira

  • 333

PENSAMENTO. Nuno Teotónio Pereira tomou para si a missão de teorizar e alargar o conceito de Arquitetura à sociedade e à economia

ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Foi o grande pensador da Arquitetura em Portugal. O primeiro a refletir sobre a sua multidisciplinaridade e sobre a sua estreita relação com o desenvolvimento do país, quer a nível social, quer económico. E deixou obra feita. Muita e muito premiada. O legado (neste texto) e a vida (no texto relacionado, Um homem na cidade) de Nuno Teotónio Pereira, que morreu esta quarta-feira no hospital. Faria 94 anos no dia 30 de janeiro

Nuno Teotónio Pereira nasceu em Lisboa a 30 de janeiro de 1922. Na Escola de Belas-Artes da capital, formou-se em Arquitetura, em 1949, com distinção: 18 valores. Nessa altura, já tinha a experiência do trabalho prático, pois fora colaborador no ateliê do arquiteto Carlos Ramos entre 1940 e 1943, e já pensava a arquitetura enquanto política habitacional.

Participou no I Congresso Nacional de Arquitetura, em 1948, e, como arquiteto estagiário, fez parte, com Costa Martins, da comunicação Habitação Económica e Reajustamento Social.

Logo a seguir a terminar o curso, foi proposto para sócio do Sindicato Nacional dos Arquitetos, tendo fundado em 1952 o Movimento para a Renovação da Arte Religiosa. Entre 1948 a 1972 foi consultor de Habitações Económicas na Federação das Caixas de Previdência, tendo realizado o primeiro concurso para habitações de renda controlada.

Foi presidente do Conselho Diretivo Nacional da AAP nos mandatos 1984-1986 e 1987-1989 e em 1966 tinha sido Presidente da Secção Portuguesa da UIA - SPUIA. A nível internacional foi o primeiro delegado português ao Comité do Habitat da União Internacional dos Arquitetos em Bucareste, em 1966.

Teotónio Pereira era ainda membro honorário da Ordem dos Arquitetos, desde novembro de 1994, e Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, desde 2003.

Um legado em obras

Mas não foi só teoria o legado que nos deixou, independentemente do valor que a sua reflexão teve num país onde a arquitetura não era sequer entendida como multidisciplinar e associada ao desenvolvimento social e económico.

Torre de habitação dos Olivais e Igreja do Sagrado Coração

Torre de habitação dos Olivais e Igreja do Sagrado Coração

Assinou obras como a Torre de Habitação, nos Olivais, o Edifício Franjinhas, na Rua Braamcamp, e a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, ou, mais recentemente, a interface do Cais do Sodré, que liga metro, comboio e barco, por exemplo. Trabalhos que lhe valeram o reconhecimento dos seus pares e da comunidade em geral. Com estes projetos tornados realidade, ganhou o 2º Prémio Nacional de Arquitetura da Fundação Gulbenkian, o Prémio AICA, e quatro prémios Valmor.

Edifício “Franjinhas” e Restelo

Edifício “Franjinhas” e Restelo

Também galardoados são seus o edifício na Rua Diogo Silves, nº 18, os edifícios na Rua Gonçalo Nunes nºs 31 – 45, ambos no Restelo, bem como um empreendimento de 144 fogos em Laveiras, concelho de Oeiras.

No entanto, terá sido o Bloco do Aqueduto das Águas Livres, em Lisboa, a sua obra mais grandiosa. Tal como o reconhecimento mais tardio, chegado em abril do ano passado: o Prémio Universidade de Lisboa, pelo exercício “brilhante” na área da arquitetura e como “figura ética”.

O país que amava

Conhecia o país de lés a lés, especialmente o Sul. Apaixonado por Marvão (concelho de Portalegre), onde reabilitou uma moradia, e onde atualmente vive o seu filho, revolucionou a noção de Arquitetura da região. Fez o mesmo em Beja, levando a autarquia a atribuir-lhe o prémio Espiga de Ouro, em 1993.

Amável, disponível e sempre empenhado, gostava de ouvir e compreender as dificuldades dos que o rodeavam, os problemas específicos de cada zona do país, para poder atuar perto das instâncias que achava mais adequadas e ágeis na solução dessas questões.

A saúde, porém, há muito que o impossibilitava de atuar como se habituou a viver a vida. A perda de visão e de audição e a muito fraca mobilidade física deixaram de lhe permitir a viagem e o relacionamento com a sociedade, sua preocupação de sempre.

  • A vida e o legado de Nuno Teotónio Pereira

    Foi o grande pensador da Arquitetura em Portugal. O primeiro a refletir sobre a sua multidisciplinaridade e sobre a sua estreita relação com o desenvolvimento do país, quer a nível social, quer económico. E deixou obra feita. Muita e muito premiada. O legado (neste texto) e a vida (no segundo texto, em baixo) de Nuno Teotónio Pereira, que morreu esta quarta-feira no hospital. Faria 94 anos no dia 30 de janeiro

  • Prisão, tortura, fé, amor e arte: a vida preenchida de Nuno Teotónio Pereira

    Era um nome incontornável na resistência católica à ditadura e um dos arquitetos mais distinguidos do país. Nuno Teotónio Pereira só deixou de trabalhar no ateliê em 2008, quando um glaucoma lhe fechou os dois olhos em menos de uma semana. Oriundo de uma família monárquica e salazarista, evoluiu para o catolicismo progressista e, mais tarde, para o socialismo radical, antes de aderir ao PS do amigo Ferro Rodrigues. Depois de cegar, deu uma longa entrevista ao Expresso, saída em fevereiro de 2015 e que agora se republica. Nuno Teotónio Pereira morreu esta quarta-feira - faria 94 anos a 30 de janeiro

  • Morreu o arquiteto Nuno Teotónio Pereira

    Foi o grande pensador da Arquitetura em Portugal. O primeiro a refletir sobre a sua multidisciplinaridade e sobre a sua estreita relação com o desenvolvimento do país, quer a nível social, quer económico. Fez parte de todas as grandes comissões de aconselhamento arquitetónico, de comités habitacionais, de sindicatos. E deixou obra feita. Muita e muito premiada. Morreu no hospital. Faria 94 anos no dia 30 de janeiro