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“Nunca é tarde demais para escrever sobre quem se ama… meu Avô, António de Almeida Santos”

Nasceu num momento dramático, quatro meses apenas depois de Almeida Santos ter perdido uma filha. Ficou uma relação especial entre avô e neto. Cantavam juntos, partilhavam experiências. Em 2009, Manuel Magalhães prestou uma homenagem ao avô, nas páginas do Expresso. Volta agora, já médico cardiologista, para contar em exclusivo o que ficou por dizer. Quando recebeu a notícia da morte do avô, Manuel estava em Angola e escreveu este depoimento durante a viagem de avião para poder estar presente no funeral. A correr, mas sempre a tempo

Manuel Magalhães

António Pedro Ferreira

Perdoa-me Avô António por cometer este quase sacrilégio de tentar passar em palavras o que foste enquanto meu Avô, pesam demais as teclas no meu computador, a inexperiência em escrever e o peso de o fazer apenas um dia depois de teres levantado âncora desta vida cheia que tiveste.

Não tenho o teu dom da palavra, da sobriedade e da serenidade mas tive a sorte ou o milagre (bem sei que não os crês) do teu amor durante longos e cheios 35 anos. Sou um abençoado tal como todos os que te rodearam.

Neste momento quero apenas celebrar o que vivemos, com uma saudade imensa e com a esperança, de quem acredita, que nos encontraremos lá para a frente seja onde isso for. Vou escrever sobre ti simples sorridente e optimista como sempre foste…

Lembro-me dos teus mimos, das longas horas que brincaste comigo sentado ao teu colo. O jogo das palmadas nas mãos, sempre suaves e carinhosas, após “um, dois, três” contado em uníssono e impecável sincronia era de longe o meu favorito! Quantos risos, quantas e tantas vezes que te pedi para o repetires e quantas e tantas vezes o repetiste. Comigo e os outros primos depois de mim. São já 8 netos e 3 bisnetos! É muita obra, muito colo!

Tenho saudades dos Domingos! Foste sempre um líder, chefe de família, de um clã que cultivaste e mantiveste unido até ao fim. Domingo após Domingo acolheste-nos em tua casa, a fizeste sentir nossa, sempre de porta aberta, com comida na mesa, alegria no rosto e calor no coração. Iamos-te sempre chamar ao escritório para jantar. Poucos sabem mas não me recordo nem de um único dia do senhor em que não trabalhasses. Estavas sempre a escrever com a tua esferográfica preta ou encarnada, enfiado no meio de centenas de folhas e livros e como tu dizias, a fazer o que melhor sabias fazer na vida… trabalhar! Mas quando lá entrava paravas, recebias-me com um brilho contagiante nos olhos e um alegre “como estás meu velho?”. Que bom era ali chegar. Fazias-me sentir especial…

Foste meu amigo e fiel conselheiro nos momentos em que mais duvidei. Quando não sabia o que fazer tu transformavas o complicado em simples e fácil com uma resposta invejavelmente lógica e curta só ao nível dos predestinados. A mais pesada das dúvidas que tive foi escolher entre a Medicina ou a Operação Triunfo, era a responsabilidade do que esperavam de mim contra o que eu sonhava. Sorveste todas as minhas palavras atentamente e levemente respondeste:

“Se não o fizeres vais ficar o resto da tua vida a perguntar como teria sido? Então faz.”

Ao mesmo tempo asseguravas todos de que seria apenas uma experiência para mim e que era claro que seguiria depois com a Medicina. Já sabias tu!

Aliás foste tu que me pegaste o bichinho da música. Muitos serões de guitarra clássica ou Portuguesa na mão a cantares com e para a família. Profundo e intenso. Ainda tenho o som da tua voz e os toques límpidos da guitarra gravados nos meus ouvidos, nos meus olhos a tua imagem a cantar compenetrado e como era contagiante.

Nunca gravamos o nosso prometido fado… e que pesada pena eu tenho.

Sei que te preocupaste comigo sempre, com os meus estudos, as minhas escolhas e que no meio de tanta ocupação arranjaste sempre tempo para me perguntar, ouvires e andares informado. No fundo acho que tinhas medo que não assentasse e continuasse a viver apenas de sonhos e saltar de namorada em namorada. A verdade é que também não foram assim tantas. Mas conheceste todas e trataste-as como se fossem as mais importantes da minha vida. Era esse mais um dom… fossem meus amigos, namoradas ou apenas conhecidos fazias as pessoas sentirem-se em casa, especiais e únicas naquele momento confrangedor que era conhecer o António de Almeida Santos. Mas afinal eras só o meu Avô!

Foste sempre mais carinhoso do que alguém possa imaginar, sempre mais atento e presente do que quem está sempre lá.

Um patriarca!

Apesar de toda esta responsabilidade nunca te vi elevar a voz para quem quer que fosse, destratar ninguém, irritares-te com alguém, descontrolares-te ou impores-te pela força e, (quase) tudo o que dizias estava certo e convencias os que te rodeavam. Foste sempre convincente e um porto seguro para a família, para os amigos e para os colegas. Nunca vi ninguém duvidar de ti ou das tuas palavras. Tens bons e verdadeiros amigos em todo o mundo que te reconhecem e sentem a tua perda.

Mesmo assim decidiste partir da única maneira possível para ti… de repente.

Sei que se pudesses escolher teria sido exactamente assim que escreverias o teu fim. Rápido, simples e junto dos teus.

Escreveste o capítulo final. Tiraste o quase das memórias.

Não fiques triste mas hoje rezo ao meu Deus por ti. Porque te adoro e me deste mais do que podia pedir.

Guarda-me um lugar nessa nova Assembleia onde já deves estar a presidir… mas isso não interessa pois para mim és só o meu Avô António.

“Até já meu velho…”

Depoimento recolhido por Christiana Martins

  • Por favor, preocupem-se

    Se há príncipes numa República, Almeida Santos foi um deles. Foi tão príncipe quanto Soares foi ‘Rei’. Esses tempos passaram. Muito do que um e outro disseram e fizeram seria hoje desconsiderado por parte deste PS. Almeida Santos considerava-se um pessimista e o advir de tempos novos preocupavam-no mais do que o exaltavam: “Sou muito pessimista sobre o futuro da nossa civilização e acho que o pior da globalização é o cidadão globalizado, sujeito aos valores do capitalismo liberal”

  • Almeida Santos. O príncipe dos bastidores

    Almeida Santos foi uma das figuras mais importantes da política do pós-25 de Abril. Jurista brilhante, ministro vezes sem conta e legislador omnipresente, nunca foi especialmente amado. Morreu um dos maiores protagonistas da política e o príncipe dos seus bastidores