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Jiadistas vão regressar a casa? Não, mesmo com os salários a metade

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PROPAGANDA. Um combatente do autoproclamado Estado Islâmico agita uma bandeira em Mossul, em 2014 FOTO REUTERS

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As novas medidas de austeridade no Daesh não vão levar a uma debandada dos jiadistas Ocidentais para casa. E até podem motivar os mais fanáticos

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

O autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) vai reduzir para metade os salários dos jiadistas na Síria e no Iraque, diz o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, que mantém uma rede de ativistas, médicos e combatentes por toda a Síria. As razões são de ordem puramente económica: os combatentes sírios da organização terrorista vão ver os seus salários passar dos 400 para os 200 dólares mensais, enquanto os combatentes estrangeiros, que ganhavam o dobro, passarão a receber 400 dólares em vez dos anteriores 800.

Poderá este corte salarial servir de pretexto para alguns dos jiadistas estrangeiros regressarem aos seus países de origem? Ou contribuir para que as dezenas de aspirantes a soldados do Califado que moram no Ocidente desistam de partir?

O Expresso ouviu responsáveis ligado à investigação do fenómeno extremista e especialistas em terrorismo e concluiu que dificilmente esta medida de austeridade vá desmotivar as tropas extremistas na Síria e no Iraque. "Foram poucos os jiadistas que se alistaram por motivos mercenários. Portanto, poucos ficarão desmotivados com os cortes anunciados", defende Luís Tomé, professor associado na Universidade Autónoma de Lisboa e coordenador do Observatório de Relações Exteriores (OBSERVARE).

Este especialista em terrorismo acrescenta que a crise no Estado Islâmico pode ter um efeito perverso: o de "dar mais peso" e força no interior da organização terrorista aos soldados mais fanáticos.

O argumento é partilhado por uma fonte ligada à investigação do jiadismo. "Admitir que a diminuição dos salários vá desmotivar as tropas de Abu Bakr al-Baghdadi e levá-las a regressar a casa era estar a dizer que os jiadistas se deslocaram por motivos económicos e não por conversão e adesão ao jiadismo salafista", afirma este responsável. E não foi isso o que se passou, acrescenta. "O recrutamento pressupõe a conversão e adesão à mensagem religiosa", conclui.

Ou seja, também os que desejam partir para a Jihad não vão desistir depois de saberem que vão receber menos dinheiro do que há um ano.

Outro especialista em questões de terrorismo, José Manuel Anes, tem uma opinião algo diferente: "Os jiadistas têm duas motivações: uma de dimensão ideológica/religiosa e a outra material (como o salário, a casa e a assistência às mulheres)", afirma. Daí que, "a falta de fundos desmobilize alguns", conclui.

O grupo extremista, que em junho de 2014 proclamou um califado nas zonas sob o seu controlo no Iraque e na Síria, esforça-se por manter funcional um Estado de pleno direito, com instituições governamentais, hospitais e escolas e pagamento de impostos.

A situação financeira com que tem agora de lidar pode ser resultante da intensificação dos ataques aéreos às suas infraestruturas petrolíferas na Síria e no Iraque, uma vez que a coligação liderada pelos Estados Unidos bombardeia instalações da organização em ambos os países, havendo ainda aviões de guerra russos a atacar os jiadistas na Síria.

  • Estado Islâmico corta salários para metade

    “Devido às circunstâncias excecionais que o Estado Islâmico está a enfrentar, foi decidido cortar os salários dos mudjahedine em metade do seu valor”, lê-se no comunicado do Daesh revelado pelo Observatório Sírio dos Direitos Humanos