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Máfia trafica na costa portuguesa

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Giovanni Tegano, um dos chefesda Ndrangheta, escondeu-se
das autoridades italianas durante 17 anos. Foi preso em 2010 em Régio da Calábria

ANTONIO TACCONE/ Getty Images

Ndrangheta investigada há quinze anos por PJ e serviços de informação. Droga e jogo online passam por Lisboa

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

A prisão do britânico Robert Dawes, considerado o mais influente traficante de droga da Europa, veio dar algum fôlego às autoridades portuguesas e espanholas que investigam a presença da máfia calabresa na Península Ibérica. O homem de 44 anos era procurado por negócios do tráfico e vários homicídios, tendo sido detido há um mês numa mansão em Benalmádena, perto de Málaga, no sul de Espanha. A ligação a Portugal deve-se a um veleiro de nome “Gloria of Grenada” e à Ndrangheta, nome pelo qual é conhecida a organização criminosa italiana da Calábria que domina 80% do tráfico de cocaína que chega à Europa.

A embarcação de recreio proveniente da América do Sul, e com passagem pelo arquipélago das Bermudas, foi apreendida no porto de Sines no verão de 2014 com quase 200 quilos de cocaína que valiam seis milhões de euros no mercado negro. Os cinco tripulantes, todos estrangeiros, foram detidos e condenados a uma pena de prisão em Lisboa. Segundo fontes da investigação, eram operacionais de Robert Dawes e trabalhavam para a máfia da Calábria. Na sequência desta operação, foram presas trinta pessoas em Espanha e Itália e apreendidos mais de um milhão de euros em dinheiro. Dawes foi o último do grupo a cair.

Um investigador revela ao Expresso que “muita da droga importada da América Latina chega à costa portuguesa por via da Ndrangheta”, que se aproveita da localização geográfica do país, de algumas fragilidades das fronteiras marítimas e até da proximidade económica com o Brasil, país de onde vem grande parte da cocaína. Os barcos de recreio, mais difíceis de intercetar, são muito utilizados. Em 2007, por exemplo, um veleiro desta rede calabresa foi detetado nas águas da Madeira com 1500 quilos de cocaína.

Há quinze anos que a Polícia Judiciária (PJ) e os serviços de informações investigam a presença desta poderosa multinacional do crime organizado. Desde 1991, vários membros foram sendo detidos e condenados (ver texto ao lado). Um operacional de nacionalidade luso-brasileira preso no Estoril há seis meses é apenas o caso mais recente. “Hoje, a Ndrangheta é a máfia italiana mais influente a operar no nosso país”, confidencia um alto responsável próximo da investigação. Outra fonte policial acrescenta: “Não estando cá sediados, usam o nosso território para praticar as suas atividades criminosas.”

Nicola Gratteri, o procurador-adjunto da direção distrital antimáfia de Régio da Calábria e um dos autores de “Oro Blanco”, livro publicado no ano passado que desvenda alguns segredos das redes de tráfico, confirma a importância estratégica de Portugal para a máfia calabresa: “Não conseguem imaginar quanta Ndrangheta existe em países como a Alemanha, Holanda, Espanha, Portugal, Suíça e Bélgica”, afirmou em maio.
O comércio de droga é o principal mas não o único negócio ilegal a que se dedicam os mafiosos calabreses em Portugal. As apostas online a jogos de futebol parecem ser igualmente rentáveis. A Federbet, entidade com sede na Bélgica que vigia as apostas online, fez uma denúncia às autoridades portuguesas. Há suspeitas de haver vários jogos viciados, incluindo um envolvendo o Freamunde que não chegou a realizar-se mas que teve até um resultado final.

Segundo o organismo belga, muitas das apostas relativas a jogos suspeitos em Portugal são provenientes de Nápoles e de Régio da Calábria, uma cidade dominada pela Ndrangheta, organização acusada de estar por trás dos resultados falsificados em Itália. Dos 40 milhões de euros apostados online em cada jornada na I e II Liga, os belgas acreditam que cinco milhões sejam de “apostas sujas em resultados viciados”. Contactada pelo Expresso, a Liga Portuguesa de Futebol Profissional disse que este “não é um tema prioritário” acrescentando “não haver novidades de momento”.

Investigação arquivada

Em 2010, Francesco Forgione, ex-presidente da Comissão Antimáfia do Parlamento italiano, revelou ao Expresso que a Ndrangheta tinha bases em Faro e Setúbal enquanto a Camorra, máfia de Nápoles, contava com um clã em Cascais e outro no Porto. Nesse mesmo ano, Giovanni Lore, um capo da máfia siciliana, a Cosa Nostra, que estava em fuga há vários meses, foi detido no Bombarral. “Hoje as coisas são ligeiramente diferentes. Umas poucas famílias italianas continuam por cá”, salienta um investigador da PJ, sem adiantar muitos pormenores. “Há ainda quem pretenda apenas refugiar-se em Portugal para fugir à Justiça italiana, tentando levar uma vida discreta, sem levantar ondas.”

Há três anos foi arquivada uma das mais importantes investigações realizadas em Portugal sobre a Ndrangheta. A polícia italiana tinha na mira os negócios de Domênico Giorgi — marido de uma sobrinha do chefe do clã Pelle-Votari que passou algum tempo em Portugal —, com empresários portugueses e italianos de Coimbra. Suspeitava de que o dinheiro obtido pelo mafioso em atividades ilegais na Calábria era branqueado em investimentos imobiliários e da restauração na zona centro do país. Apesar dos esforços da PJ e do DCIAP, o grupo, que começou a ser julgado há uma semana por mais de 80 crimes de auxílio à imigração ilegal, conseguiu evitar as acusações de associação criminosa e branqueamento.