Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

A revolução de jasmim no Conservatório

  • 333

ESTILO Alunos como Ruika e Motoya estão a imprimir uma nova atitude de trabalho na Escola de Dança do Conservatório Nacional

Luis Barra

Não se atrasam. Não faltam. Não contestam. Dançam. Suam a malha. Esticam os músculos e procuram o futuro como bailarinos. Na Escola de Dança do Conservatório Nacional, em Lisboa, há cada vez mais estrangeiros. E os 17 alunos asiáticos não estão aqui para brincadeiras

Christiana Martins

Christiana Martins

Texto

Jornalista

Luís Barra

Luís Barra

Fotos

Fotojornalista

O sorriso é certo. A delicadeza na resposta também. Ruika Yokoyama está em Portugal há três anos. Em dezembro, subiu ao palco do Centro Cultural de Belém como a Fada Açucarada do “Quebra Nozes”, no espetáculo de fim de ano da Escola de Dança do Conservatório Nacional (EDCN). Desassossegada, por dentro era só nervos. Mas, na plateia, quem a viu dançar, só teve direito ao sorriso certo. Entre as voltas e os equilíbrios característicos da coreografia clássica, Ruika, 18 anos, cumpria a sua missão à risca: dançar, o mais perto possível da perfeição. Ao seu lado, a estender-lhe a mão, o “príncipe” Motoya Fukushima. Seguro, amparava-lhe os movimentos, impulsionava-lhe os saltos. Juntos, dividiam ansiedades em silêncio.

A partilha é maior, contudo, e vem mais de trás. Japoneses, ambos têm um domínio limitado do inglês e ainda menor do português. Têm saudades da comida japonesa. E conjugam à perfeição a palavra empenho. Ruika e Motoya são dois dos 17 alunos asiáticos que diariamente procuram na EDCN uma porta para o futuro como bailarinos profissionais. Pela quantidade de alunos orientais presentes em simultâneo no palco do CCB naquela noite, não há espaço para dúvidas: um processo revolucionário com perfume a jasmim está em curso no conservatório.

Ruika e Motoya ensaiam, enquanto a professora de dança contemporânea, Liliana Mendonça, observa

Ruika e Motoya ensaiam, enquanto a professora de dança contemporânea, Liliana Mendonça, observa

luís barra

“A dança está a tornar-se cada vez mais multiétnica e estes alunos têm um nível muito elevado”, explica Pedro Carneiro, diretor da EDCN. É dele grande parte da responsabilidade pela chegada destes estudantes asiáticos. Tinha chegado há um dia do Japão, quando conversou com o Expresso na sua sala, na rua do Século, na parte antiga de Lisboa. Defensor da estratégia de internacionalização da escola, começou por apresentar os seus melhores alunos em concursos internacionais de prestígio, como o Prémio de Lausanne, na Suíça, de que a EDCN acabou por tornar-se instituição associada.

O passo seguinte foi a sua própria participação como membro dos júris das competições internacionais, muitos dos quais no Japão, país a que Pedro Carneiro vai pelo menos duas vezes por ano para participar como júri de concursos de dança. Mas o seu destino é mais vasto, já analisou candidatos nos Estados Unidos, Brasil, Rússia, Alemanha e Itália e o resultado é que, desde 2009, há cada vez mais alunos estrangeiros. Este ano letivo, a escola são 25 alunos. Para além de 15 japoneses e dois estudantes de Taiwan, cinco italianos, duas ucranianas e uma letã. Vários destes alunos vieram depois de terem conquistado bolsas de estudo, mas a maioria veio para Portugal por opção.

À espera da próxima aula na EDCN

À espera da próxima aula na EDCN

luís barra

“Eles vêm para beneficiar de uma formação sólida e completa, com acesso à dança contemporânea que, em geral, não existe na maior parte de escolas privadas japonesas”, explica Pedro Carneiro. O diretor da EDCN conta ainda que, no Japão, ainda não são muitos os alunos de ballet do sexo masculino, impedindo muitas das futuras bailarinas de terem aulas de pas-de-deux (dança em par). Além disso, o panorama da dança profissional naquele país é bastante limitado, com poucas companhias e salários reduzidos. Assim, a solução passa quase sempre pela partida.
A contrapartida disciplinar é o que estes alunos trazem para a escola. “São um ótimo exemplo para os estudantes portugueses pela enorme cultura de trabalho, pelo empenho e por procurarem sempre dar o máximo dos máximos”, ensina Pedro Carneiro. E o diretor do conservatório conclui: “São um enorme contributo para os alunos nacionais melhorarem, nivelando as aulas por cima”. Neste momento, a política de atribuição de bolsas de estudo atende ainda a uma segunda estratégia: reforçar o peso dos estudantes do sexo masculino. Em 2005, dos 122 alunos, 32 eram rapazes. Este ano, dos 209 estudantes, 77 são rapazes. Por isso, as bolsas já só têm sido entregues a eles.

Enquanto a aula de Português não começa, as alunas asiáticas estudam e conversam

Enquanto a aula de Português não começa, as alunas asiáticas estudam e conversam

luís barra

Quando chegam à escola, muitos dos pequenos bailarinos asiáticos não falam praticamente nada de inglês, nunca tinham estado na Europa. Em geral, chegam sozinhos para viver em uma das duas residências disponíveis, uma de universitários, outra de religiosas, já totalmente ocupada por alunos da EDCN. Mista, mas com pisos separados para rapazes e raparigas. Pagam 380 euros por mês, com direito a pequeno almoço e jantar. Na residência universitária, têm de ser responsáveis por todas as suas refeições, o que, em alguns casos, pode-se converter em um problema, com algumas raparigas a ganharem peso para além do previsto.

Das vezes por semana têm aulas de Português. Nanaka Ogawa tem 17 anos, chegou a Lisboa em Setembro. Nunca tinha tido aulas de dança contemporânea. Nunca tinha vindo a Europa. Nada sabia sobre Portugal. Vivia no interior do Japão, perto do mar, virada para a China. Yu-Chin Liao tem uma história em tudo semelhante, difere apenas porque é de Taiwan e, sobretudo, na forma de se expressar. Diz que quando chegou a Portugal foi “wow!”. Tudo novo.

Durante a aula de Português para estrangeiros, a concentração oriental é generalizada

Durante a aula de Português para estrangeiros, a concentração oriental é generalizada

luís barra

Na sala de aula, cadernos abertos, letras bem feitas, parecem alunos de aproveitamento máximo. Mas quando começam a tentar falar em Português, a timidez e a diferente sonoridade das línguas transforma-se em obstáculo. Falam baixinho, com medo de errar. Mas Maria José Chousal, a professora, incentiva-os, vai buscar situações do quotidiano para que se sintam mais à vontade na nova língua. Acostumada a lidar com alunos estrangeiros, percebeu que, com os asiáticos, tem de adotar um ritmo mais lento e de apostar na repetição.

A professora Liliana Mendonça, com os alunos japoneses Ruika e Motoya

A professora Liliana Mendonça, com os alunos japoneses Ruika e Motoya

luís barra

A professora de dança contemporânea sublinha a capacidade de concentração dos alunos asiáticos. “Não se distraem tanto, o que reflete toda uma atitude perante o trabalho”, afirma Liliana Mendonça. Cabe-lhe a complexa tarefa de ensinar o vocabulário contemporâneo a alunos apaixonados pela linguagem do ballet clássico. “Eles têm de dar 200% porque chegam mais atrasados no domínio técnico, além disso, culturalmente são muito contidos e a dança contemporânea desconstrói as regras a que estão habituados”, ensina.

A disseminação da presença de bailarinos asiáticos nas grandes companhias internacionais é cada vez maior. Mas, para lá chegar, têm de tornar mais versáteis, capazes de ir para além do clássico. Ruika, sorri, e concorda, quando confrontada com a hipótese de que o estilo oriental está na moda da dança atual. Nomes como Yuiko Kajiya, em Houston, Misa Karanaga, em Boston, Hoko Nakamura, em S. Petersburgo e Ryoichi Hirano, em Londres fazem parte dos cabeças de cartaz em alguns dos principais palcos clássicos. Quase todos passaram pela avaliação de Lausanne, próximo destino de Ruika.

O sorriso constante de Ruika e Motoya

O sorriso constante de Ruika e Motoya

luís barra

Em março, lá vai ela. Rindo, E Ruika repete o refrão da sua vida: partir. Mais uma vez. Mais uma vez, sozinha. Em março, vai a Lausanne, este ano como a única representante da EDCN ceite na competição suíça. Vai à procura de um lugar de protagonismo na cena da dança internacional. O resultado é uma incógnita, mas ninguém tem dúvidas de que tentará dar “o máximo dos máximos”. E que vai sorrir. Apesar dos nervos em papa por dentro do seu fato de bailarina.