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Gripe A volta ao ataque

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José Carlos Carvalho

Epidemia gripal deste inverno começou há uma semana e meia e o vírus da pandemia de 2009 regressou em força. 5500 pessoas já adoeceram

É oficial: a epidemia gripal começou e pela primeira vez desde a pandemia de 2009, o vírus da gripe A volta a ser dominante. A população mais jovem é o alvo principal, precisamente a que não tem indicação da Direção-Geral da Saúde (DGS) para ser vacinada gratuitamente. Por ter, à partida, uma saúde mais robusta deverá ser capaz de resistir ao ataque, embora não seja de descartar o surgimento de casos graves.

“O nosso modelo informa que o período gripal teve início na semana de 28 de dezembro a 3 de janeiro”, afirma a investigadora do Instituto Gulbenkian Ciência (IGC) Joana Gonçalves de Sá, responsável por um modelo que “testa em tempo real a sinalização do início do período gripal”. Os dados, concretos, divulgados na quinta-feira, 7 de janeiro, pelo Instituto Ricardo Jorge (INSA) mostram que as previsões estão certas.

“A taxa de incidência foi de 51 por 100 mil habitantes”, ou seja, 5500 portugueses já adoeceram. Foram “admitidos dez novos casos de gripe nas unidades de cuidados de intensivos, o valor mais elevado estimado desde o início da época gripal”, lê-se no boletim. “Em todos os doentes foi identificado o vírus influenza A, 90% A(H1N1)pmd09”, o pandémico.

O diretor-geral da Saúde Francisco George sublinha que apesar de a gripe A ter surgido em 2009 “há pessoas que não ainda não têm defesas contra este vírus agressivo”. A cientista da Gulbenkian explica ainda que “mesmo as pessoas contagiadas podem não criar imunidade natural”.

Raquel Guiomar, coordenadora do Laboratório Nacional de Referência para o Vírus da Gripe do INSA, recorda que “durante a pandemia de 2009, o grupo etário que parecia ter uma sintomatologia mais grave foi o dos adultos porque os idosos tinham alguma imunidade de vírus anteriores com semelhanças, e daí não se ter verificado uma mortalidade acrescida”. Ainda assim, “são necessárias mais semanas para confirmar que esta relação se mantém”.

Crianças dão alerta

Francisco George reconhece que “os mais jovens não têm indicação para a vacina gratuita porque não chega para todos”. O Estado comprou 1,2 milhões de doses e as farmácias perto de 700 mil, quase 80% já administradas. A versão atual inclui a estirpe pandémica, que tem surgido sazonalmente embora nunca ‘em força’ como agora.

O pico da infeção está por estimar, no entanto, há já sinais que permitem fazer previsões. “As crianças estão a surgir na Urgência, pelo que o pico deverá ser daqui a quatro semanas”, diz o consultor da DGS e pneumologista do Centro Hospitalar de Lisboa Norte (Santa Maria e Pulido Valente), Filipe Froes. “A infeção nas crianças é descrita muitas vezes como sendo o primeiro passo para uma infeção generalizada e o início das aulas é seguido com atenção em muitos países”, acrescenta Joana Gonçalves de Sá, do IGC. “Olhámos para sintomas reportados nas chamadas recebidas pela Saúde 24 e uma das variáveis de relevo é a tosse nas crianças.”

Com a epidemia de gripe no início, ainda são em maior número outros vírus respiratórios, que funcionam como uma ‘guarda avançada’ e sem vacina. “Há o rinovírus e o coronavírus, este com alguma gravidade”, diz o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, Mário Jorge dos Santos. E são muitos os doentes que têm acorrido aos serviços de saúde já com situações de congestionamento.

O caso mais grave registou-se no Hospital Amadora-Sintra, obrigado a transferir doentes para Santa Maria onde, na segunda-feira dia 4 de janeiro, a Urgência Central recebeu 603 doentes, mais 164 em relação ao dia anterior, “cerca de 80% de fora da área de influência”, explica a administração. Os internamentos aumentaram (de 65 para 90), tendo sido necessário reforçar equipas e abrir camas no Pulido Valente.

Também na Guarda foi necessário transferir doentes, sobretudo para Coimbra, que ainda não precisou de ativar medidas excecionais. No Santo António, no Porto, não foi igualmente ativado o plano de contingência. Ao invés, Braga “reforçou o internamento, com 26 camas, e a equipa médica e de enfermagem”. E no Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga “tem sido utilizada uma unidade de internamento transitório sempre que a ocupação de camas está próxima dos 100%”.

A equipa ministerial tem reforçado o apelo ao contacto prévio para a Linha Saúde 24 para evitar idas desnecessárias às Urgências e está a surtir efeito. “O aumento da atividade, fruto da nova política, cifra-se em mais de 30%”, diz o administrador, Luís Pedroso Lima. “A Linha evitou a ida às Urgências de 70% das pessoas que a ela recorreram.”

[Atualização de texto publicado na edição de 9 de janeiro do Expresso]