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Esquecer o Google é esquecer quem manda

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Youtube. O rei no negócio da música

Miguel Cadete

Miguel Cadete

Diretor-Adjunto

De que falamos quando falamos de streaming? Do Spotify, certamente. Da Apple Music, lançada há poucos meses atrás? Também. Do Tidal, apoiado por artistas muito ricos? Eventualmente. Do que esquecemos quando falamos de streaming? Do maior player no mercado. Chama-se Google e é o dono do YouTube, a máquina mais poderosa da indústria da música dos nossos dias e dos que hão de vir.

Vamos aos números. De 2015 só ainda existem estatísticas relevantes para o mercado dos Estados Unidos da América. A Nielsen diz isto: vendas de álbuns em CD, menos 10,8%. Vendas de álbuns em suporte digital, menos 2,9%. Vendas de canções em suporte digital, menos 12,5%. Ok. Temos o streaming para compensar. É a mais pura das verdades.

Vamos a números? Streams de audio em 2015, mais 83,1%. Streams de video, mais 101,9%. E o que é o stream de video? YouTube essencialmente. E o que é o YouTube para a música: algo mais do que o Spotify, Apple Music, Tidal, e todos os outros serviços de streaming juntos. Qual o seu modelo de negócio? Completamente grátis. Sem assinaturas. E quanto paga o YouTube aos proprietários de direitos?

Menos do que cada um dos serviços de streaming audio. Quem manda, afinal? Google.

Não admira que Lucian Grainge e Doug Morris, os número um das duas maiores companhias discográficas do mundo, a Universal e a Sony, estejam descontentes com o mercado. Grainge disse em fevereiro passado que o negócio é insustentável para o YouTube, bem como para as editoras. E é bem provável que esteja coberto de razão. O que o YouTube paga não chega para nutrir artistas, nem paga, muito possivelmente, os custos de uma máquina como o serviço de vídeo da Google.

Mas para que serve o YouTube num negócio gigantesco como o Google, quase todo ele baseado em publicidade? Não é certamente como cash cow. Serve para atrair clientes.

E aqui chegamos à mais velha encruzilhada da indústria da música. Escolher entre promover e vender. O que oferecer para captar clientes e o que cobrar para alimentar o negócio. É o dilema mais velho da história da música popular. Alguém se lembra dos dias da rádio? Era o tempo em que as editoras subornavam os DJ para tocarem os seus singles. Ou seja, as editoras pagavam para que os seus discos fossem tocados. Para que obtivessem promoção de maneira a vender muito mais cópias que então pagariam essa despesa e muitas outras.

Hoje, as editoras (e os proprietários de direitos) querem ter a promoção proporcionada pelo YouTube e receber por isso. Não sei se é justo ou não. Mas sei que estão nas mão de uma máquina chamada Google que dá um lucro superior a 4,7 mil milhões de dólares por ano (valores de 2014). Caso quisessem, as editoras fechavam a música no YouTube. Mas não querem. Pois necessitam dessa visibilidade. Querem isso e querem a música seja oferecida mediante uma assinatura e não contra a mostra de publicidade. São tostões se vistos parcelarmente mas um mastodonte se tomado em conjunto, como faz o Google.

A escolha é sempre a mesma: promover ou vender. mas quem hoje manda nesse equilíbrio é o Google.

Miguel Cadete escreve no EXPRESSO DIÁRIO às sextas-feiras