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230 toneladas de roupa vão para o lixo

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Não existe um fluxo de reciclagem de têxteis e 5% do vestuário usado acaba incinerado ou em aterros

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Em plena época de saldos aumenta a compra de novas peças de vestuário e os armários são libertados do que já não se usa. Parte da roupa velha é doada a associações de caridade ou colocada em contentores para esse fim, mas uma quantidade significativa acaba por ir parar ao lixo.

Em Portugal “os resíduos têxteis pesam anualmente cerca de 230 toneladas no sistema de recolha de lixo urbano”, estima Pedro Carteiro, da associação Quercus. Dados da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) indicam que 5% das 4607 toneladas de resíduos sólidos urbanos são compostos por peças de vestuário ou roupa de casa que acabam num aterro ou são incinerados. O ambientalista lamenta que assim seja, já que “se perdem fibras valiosas que poderiam voltar à indústria”.

Ao contrário do que se passa em França, por exemplo, em Portugal não existe um fluxo de resíduos têxteis, equivalente ao dos ecopontos das embalagens de plástico, metal, papel ou vidro. E a APA considera não haver necessidade de tal. No seu entender, basta “a existência de contentores de rua para colocação de roupa usada para fins de doação ou caridade, que se enquadram no conceito de prevenção/reutilização, não assumindo o estatuto de resíduo”. Muitas das empresas que gerem estes contentores acabam, porém, por exportar parte da roupa recolhida para países terceiros, onde o mercado em segunda mão é mais profícuo.

O sector industrial também não parece estar interessado em reciclar roupa usada. “Não há nenhuma empresa portuguesa com maior visibilidade que tenha enveredado por este negócio, tornando a reciclagem uma componente importante do que produz”, afirma Paulo Vaz, diretor-geral da Associação do Têxtil e Vestuário de Portugal.

“A roupa usada dá fibras menos resistentes e não permite grande margem de lucro”, justifica António Rodrigues, fundador da Sortextil. A empresa já reciclou fardas militares, mas agora dedica-se apenas à transformação de restos de tecido das fábricas de tecelagem e confeção em panos para oficinas automóveis ou fio que é exportado para renascer em novo tecido.

Do plástico se tece

“Misturando algodão reciclado com algodão orgânico obtém-se um tecido muito mais amigo do ambiente”, sublinha Javier Goyeneche, que diz ter encontrado em Portugal uma fábrica que lhe faz esta matéria-prima.

O empresário espanhol, que desenvolveu a linha de moda sustentável Ecoalf, lembra que “são necessários quase três mil litros de água para fazer uma t-shirt de algodão, sendo muito mais ecológica a reciclagem”. A sua linha de vestuário e acessórios inclui casacos feitos a partir de garrafas PET e mochilas que têm na sua composição redes de pesca retiradas do mar.

Por cá, encontram-se à venda artigos de outras marcas que apostaram em peças ecológicas com recurso a algodão orgânico ou a poliéster reciclado, como t-shirts da portuguesa OHNO, jeans da multinacional H&M ou alguns artigos da Decathlon.

Apesar de não haver nenhuma fábrica nacional que produza tecido a partir de plástico, há pelo menos duas (Selenis e Ecoibéria) que fabricam polímeros a partir de garrafas PET, que são exportados para serem transformados em poliéster para confeção. “Sai mais barato que o fio produzido pelas petroquímicas, mas não é rentável em Portugal”, diz Jorge Lemos da Ecoibérica. E, acrescenta, “só seria rentável se se apostasse em produtos de qualidade e houvesse maior sensibilidade social para a reutilização”.