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#Twitter. Dizer adeus aos 140 caracteres pode salvar o passarinho azul?

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Reuters

Numa jogada de alto risco, a rede social prepara-se para renunciar à sua característica mais icónica e aumentar o limite de caracteres por mensagem. A grande questão é se consegue fazê-lo sem irritar os amantes do formato curto

Em quase 10 anos de vida, muitas coisas mudaram no Twitter, mas uma manteve-se sempre inalterada: o limite de 140 caracteres por publicação. Mas isso parece estar prestes a mudar. A rede social do passarinho azul prepara-se para, até ao final de março, abandonar a sua característica mais icónica. Segundo noticia o Re/code, um site de tecnologia focado nos negócios do Silicon Valley, os utilizadores poderão passar a escrever até 10 mil caracteres, 71 vezes mais do que o limite atual, algo que, desde o verão, já podem fazer nas mensagens privadas na rede. Segundo o artigo, os tweets deverão passar a apresentar uma pré-visualização de 140 caracteres que pode depois ser expandida para mostrar o texto todo.

Na sua conta no Twitter, o CEO da empresa, Jack Dorsey, deixou antever que a revolução está mesmo em marcha. "[O limite de 140 caracteres] tornou-se um bonito constrangimento e adoro-o! Inspira criatividade e brevidade. E um sentido de velocidade. Nunca perderemos esse sentimento. Temos gasto muito tempo a observar o comportamento das pessoas no Twitter e temos visto que muitas fazem screenshots de texto e depois tuitam-nos. Ao invés, e se o texto... fosse mesmo texto? Poderia ser pesquisado. Poderia ser destacado. Isso é mais útil e poderoso." Curiosamente, para publicar o texto de 1315 caracteres, Dorsey teve de fazer como muitos utilizadores: publicou uma imagem com o texto que escreveu.

A hipótese gerou uma torrente de críticas, com muitos a lembrar que o apelo do Twitter está precisamente nas mensagens curtas, que o diferenciam de outras redes sociais, mas foi defendida por vários analistas. Nick Bilton, colunista do "New York Times" e autor do livro "O Escândalo do Twitter - Uma história verdadeira de dinheiro, poder, amizade e traição", lembra que as tecnologias nas quais assentava a premissa do Twitter (como as mensagens SMS) mudaram e, como tal, este deve também reinventar-se.

Quando Dorsey (que foi nomeado CEO em outubro) escreveu o primeiro tweet, a 21 de março de 2006, o iPhone ainda não nascera, não existiam apps e as mensagens de telemóvel eram quase exclusivamente textos de 160 caracteres. Foi precisamente essa limitação que levou ao limite de 140 caracteres: era preciso deixar espaço para as mensagens incluírem o nome da pessoa que escreveu o tweet. Mas em dez anos muita coisa mudou: o Twitter abriu-se primeiro às imagens, depois ao vídeo e, por fim, aos GIF. Só o limite de caracteres se manteve igual.

Muitas vozes consideram, porém, que esta opção está ultrapassada, tornando difícil manter uma comunicação fluída e sem mal-entendidos, e lembram que vários utilizadores recorrem já a estratégias para contornar esse obstáculo: colocam um link onde se pode ler o texto completo, seja num blogue ou noutra plataforma, ou, como Dorsey, publicam um screenshot do texto. Mas há quem tema que esta decisão, a confirmar-se, torne o Twitter uma rede social ainda mais fértil para os trolls da internet, desencorajando muitos utilizadores.

LUTA PELA SOBREVIVÊNCIA

A decisão é controversa, mas dela pode depender o futuro da empresa. A notícia surge numa altura em que o Twitter atravessa dias cinzentos: o número de utilizadores está a estagnar (320 milhões, cinco vezes menos do que o Facebook), a empresa continua a perder dinheiro (mais de 120 milhões de euros de prejuízo no terceiro trimestre de 2015, os últimos resultados conhecidos), despediu recentemente mais de 300 pessoas, 8% da sua força de trabalho, e procura ainda um modelo que viabilize o seu negócio. No primeiro dia em bolsa, em novembro de 2013, as ações da empresa chegaram a ultrapassar os 50 dólares. Esta sexta-feira, foram transacionadas pouco acima dos 20, caindo mais de 10% desde que a notícia foi conhecida, há três dias.

Para lá dos resultados contabilísticos, o principal problema do Twitter, apontam muitos analistas, é a sua falta de mass appeal (capacidade para seduzir as massas). Ao contrário dos rivais Facebook e Instagram (que há um ano ultrapassou o Twitter em número de utilizadores), o Twitter não é uma plataforma verdadeiramente mainstream. Muitos dos que aderem rapidamente perdem o interesse: em 2014, 44% das pessoas registadas não realizaram um único tweet.

Mais do que um teste à liderança de Dorsey, a alteração do limite de caracteres é, por isso, uma jogada de alto risco para o futuro da empresa. Tanto pode dar-lhe o impulso que lhe falta como afastar muitos dos utilizadores mais indefetíveis do formato curto. E nenhum negócio pode prosperar sem uma base sólida de utilizadores fiéis.