Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Piropo é liga de cobre e galanteio. Mas não é ordinarice

  • 333

GALANTEIO. “The Flirtation” (“O namorisco”), do pintor italiano Eugenio Blaas (1843-1932)

d.r.

Piropo não é o mesmo que assédio verbal. O piropo pode ser património imaterial da humanidade, porque apenas exalta o belo e o sublime. O assédio verbal e a ordinarice, pelo contrário, podem (e devem) ser criminalizados. Noutros tempos, o primeiro agradecia-se, o segundo tratava-se à bengalada

Henrique Monteiro

Henrique Monteiro

Redator Principal

O piropo tem sido muito mal tratado, sobretudo por ignorantes que não sabem o que é. Confundindo-o com ordinarices atiradas de um qualquer andaime (como ainda recentemente AQUI o fez José Soeiro), desconhecem a sua longa história de galanteria, que já vem de Ovídio, poeta latino de há 2000 anos. Do mesmo modo que o Bloco de Esquerda, ao pretender legislar contra o assédio verbal lhe chama erradamente piropo, como se pode ver AQUI. Ora nada disto é assim.

Entendamo-nos: uma coisa é a chamada ‘boca foleira’ e pior ainda a ordinarice total. Outra, completamente diferente e oposta, é o piropo. E esta taxonomia (ou, se preferirem, esta classificação científica) é absolutamente necessária para não se deitar fora a criança com a água do banho. O piropo, o belo piropo, pode ser património imaterial da humanidade, porque apenas exalta o belo e o sublime, sem qualquer teor sexual implícito. Muito menos um teor de assédio ou perseguição. O piropo agradecia-se. A ordinarice tratava-se à bengalada.

Consultem-se os dicionários. Todos eles fazem equivaler o vocábulo a galanteria. Não é acaso – são dicionários de origens muito diferentes: Porto Editora, Texto Editora, José Pedro Machado, Academia das Ciências, Houaiss, Morais e mesmo os espanhóis da Real Academia e de Cuyàs. Se aqui se recorre ao espanhol é porque a palavra entrou pela via do castelhano.

José Pedro Machado, que dá cartas com os cinco volumes do dicionário etimológico (da origem das palavras), diz que piropo vem do grego pyropos, que significa “de cor vermelha” ou “vermelho de fogo”. Na verdade, o piropo começa por ser uma liga de cobre e ouro de cor vermelha e brilhante. Entre os clássicos é frequente citar-se um verso de Ovídio “flammasque imitante pyropo” (em português poder-se-ia traduzir por “fogo reluzente”) que passa à Idade Média referindo-se basicamente ao mineral que combina ouro e cobre ou, por vezes, ouro, prata e cobre e muito provavelmente aos trovadores provençais, como metáfora de faces rosadas ou de lábios de carmim.

Ao certo, sabe-se que Benito Arias Montano, escritor humanista natural de Sevilha, escreveu em 1569, no início do seu livro ‘Retórica’, a frase latina que termina com as palavras: “luce pyropum”. Na verdade, a frase trata de bochechas rosadas e de um fantástico olhar cor de leite e ainda de uma estrelada luz de rubi (luce pyropum). Seguindo ainda o raciocínio de Machado, os estudantes que elucubravam sobre a ‘Retórica’ achavam o termo piropo de uma sensualidade apreciável. Já que, a seguir a essa palavra, o mesmo Arias Montano aludia a lábios dignos de Vénus e a um nariz avesso às flechas do amor.

Com o passar dos tempos, Francisco de Quevedo, poeta espanhol do século XVII, já utiliza ‘piropo’ na aceção moderna do termo, num poema todo ele dedicado à boca de uma mulher. É assim, pensa-se, que o termo se cristaliza naquilo que sempre foi depois: requebro ou galanteio.

É verdade que a lei recentemente aprovada na Assembleia da República, que aclara e atualiza o artigo 170 do Código Penal, não fala em ‘piropos’ mas em ‘importunação sexual’. São coisas totalmente diferentes, mas os jornais não perdoam. Vejam os títulos: “Piropos com teor sexual dão prisão até três anos” – Observador; “Piropos já são crime e dão pena até três anos” – DN; “Piropos e propostas sexuais já dão pena de prisão” – Expresso (não escapamos); “Piropos a caminho do tribunal” – Visão; “Um piropo pode dar cadeia” – RTP. Podíamos obviamente continuar, mas não valerá a pena.

Se é certo que as palavras ganham significados novos, é tempo de defender a pureza do piropo como elogio da beleza, galanteio e espírito cavalheiresco, muito longe da ordinarice que – essa sim – deve dar pena de prisão, aliás, o insulto – pois é na verdade um insulto.

Vejamos como os espanhóis, os primeiros a tratar do piropo, abordam o assunto. Eis alguns dos seus piropos mais famosos:
- Teus olhos são o meu céu, teus lábios são o meu mar e o teu corpo é a terra que eu quero habitar
- Um segundo diante da tua beleza é melhor do que a eternidade no paraíso;
- Vivi sem conhecer-te; mas quando te vi percebi que não tinha vivido.

Retirem o que pode haver de piroso ou kitsch. Mas concorde-se que ninguém pode ser condenado por um verdadeiro piropo.