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Do lixo se faz luxo sustentável

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Transformar resíduos que poluem o fundo do mar em matéria-prima para roupa, calçado e acessórios é a aposta de Javier Goyeneche. O empresário espanhol, com quem o Expresso falou, é o convidado especial da conferência dos Green Project Awards 2015, que decorre esta quinta-feira na Culturgest, em Lisboa

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Com 80 garrafas de plástico PET faz-se um casaco acolchoado de inverno; com os restos de pneus usados produzem-se chinelos de praia; e com os resíduos das redes de pesca obtêm-se fibras de nylon para fazer um anorak. Onde outros só veem lixo, Javier Goyeneche descobre matéria-prima para roupas e acessórios sustentáveis, sejam eles os restos de tecido que fica nas fábricas, os resíduos no fundo do mar ou os restos de café recolhidos numa cadeia de restaurantes de Taiwan.

Há uma década ligado ao mundo da moda, o empresário espanhol despertou para "a consciência de preservação do planeta" sobretudo após o nascimento do filho Alfredo, em 2009, que está na origem do nome da marca Ecoalf. "A minha ideia era montar uma empresa de moda efetivamente sustentável, utilizando maioritariamente materiais reciclados para fazer produtos com a mesma qualidade e desenho de outros que existem no mercado, mas sem utilizar os recursos naturais porque não temos um planeta B", explica Javier Goyeneche, em conversa telefónica com o Expresso.

A ideia de uma linha sustentável de roupa nasceu há seis anos, mas a utilização de lixo marinho, sobretudo de garrafas de plástico recolhidas no mar Mediterrâneo, só começou verdadeiramente a ser posta em prática em 2013, em parceria com associações de pescadores da costa levante espanhola. Ao projeto deu o nome de "Upcycling the oceans".

Entre setembro e dezembro de 2015 foram recolhidas do mar 12,5 toneladas de resíduos de plástico, alumínio e outro tipo de coisas. As garrafas PET são separadas, limpas e trituradas para serem convertidas em lâminas de plástico que acabam, posteriormente, convertidas em poliéster para fabrico de roupa ou acessórios.

Tudo 100% reciclado

Na última década e meia surgiram várias marcas que apresentam roupa e acessórios que contêm na composição dos seus tecidos materiais plásticos, tecidos reciclados ou algodão orgânico. O que distingue a Ecoalf é a aposta a 100% nos materiais reciclados, não só para os tecidos como para atacadores, solas ou fechos e botões. "Existem outras marcas como Patagónia ou Nike que utilizam tecidos reciclados, mas eu não conheço nenhuma outra companhia onde tudo é feito de material reciclado", garante Goyeneche. A aposta em investigação e desenvolvimento já lhe valeu vários prémios em Espanha.

Entretanto, desde que arrancou com este projeto, o volume de negócios anual da sua empresa quintuplicou "para perto de €5 milhões", atesta Javier Goyeneche. Os principais mercados são os EUA, o Japão, Itália e o norte da Europa.

Em Portugal, a marca ainda não está à venda e isso é algo que Javier Goyeneche quer "alterar" num futuro próximo. "Estamos a procurar um distribuidor para entrar no mercado português", diz. A Ecoalf tem parceria com várias cadeias de lojas em vários cantos do mundo, do Bloomingdales em Nova Iorque às Galerias Lafayette em Pequim, passando pelas lojas Merci em Paris, o El Corte Inglés em Espanha ou o Harvey Nichols em Londres.

Por cá, para já há apenas uma parceria com uma fábrica no norte do país que recicla parte dos materiais utilizados para o vestuário que Goyeneche fabrica. O mesmo sucede no Japão, na Coreia do Sul e em Taiwan.

Anti-moda rápida

Porém, esta não é uma linha de roupa que se coadune com o consumo de massas. "Não temos nada a ver com fast fashion, somos muito lentos", confessa o empreendedor madrileno, já que "o processo de reciclagem para fazer a matéria-prima para roupa é mais longo do que o de um tecido normal".

As preocupações com a atração do produto vão para além da consciência ou filosofia ambientais: "Isto é uma empresa de moda e no final, quando entras no Harrods ou no Bloomingdales estás a competir com outros produtos e, por isso, tens de apostar em tendências e oferecer o desenho e a cor que o cliente gosta. Se não fizeres um bom produto, fica só uma intenção e uma história", defende.

Para Javier Goyeneche "a sustentabilidade não pode ser só uma moda, mas deve ser uma obrigação". E vaticina que "as empresas que não pensarem que devem fazer as coisas de forma diferente vão desaparecer", já que, sustenta, "há uma geração de consumidores novos que querem marcas que representam os valores com os quais se identificam. Não podemos continuar a olhar para o lado. A realidade é que estamos a consumir cinco vezes mais recursos naturais do que os que o planeta é capaz de gerar e não podemos continuar a agir como se nada fosse, sob pena de ser um desastre".

50 finalistas nos Green Project Awards

O projeto de moda sustentável de Javier Goyeneche será apresentado esta quinta-feira na conferência "COP21 - Conclusões e Desafios", com que abre a oitava edição dos Green Project Awards.

A iniciativa da Agência Portuguesa do Ambiente, Quercus e GCI visa premiar os "projetos e iniciativas que promovem as boas práticas ambientais e o desenvolvimento sustentável em Portugal". Este ano conta com cerca de 50 finalistas, entre mais de uma centena de candidaturas apresentadas.

Os vencedores nas sete categorias — "Agricultura, mar e turismo", "Investigação & desenvolvimento", "Produto e serviço", "Iniciativa de Mobilização", "Iniciativa Jovem", "Gestão eficiente de recursos" e "Consumo Sustentável" — serão conhecidos esta quinta-feira. A edição deste ano inclui ainda o Prémio Jerónimo Martins / GPA que prevê atribuir uma bolsa de 20 mil euros ao vencedor; e o prémio GPA Edia - Boas Práticas em Alqueva, no valor de 2500 euros.

  • Doze perguntas e respostas para sabermos como estão a tentar salvá-la

    Os líderes mundiais estiveram e alguns continuam a estar em Paris para fechar um acordo de longo prazo que salve ou salvaguarde o que andámos (e andamos, com o verbo no presente e sem acento) a desproteger - a Terra. Não é seguro que haja acordo, mas eles estão a tentá-lo - a cimeira acabaVA supostamente esta sexta-feira, mas pode prolongar-se. E porque isto é sério e nos influencia a todos (por exemplo, os invernos podem ficar mais chuvosos em Portugal - e há cidades em risco, cá dentro e lá fora), olhamos para as complicações políticas e as necessidades ambientais. Dê-nos cinco minutos do seu tempo - para entender como é que a Terra pode dispor de mais minutos salvaguardada do mal que lhe estamos a fazer