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“Abanou, abanou e nada.” A história trágica de Vítor

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Menino de 11 anos foi encontrado morto pela irmã mais velha na cama ao lado da mãe de ambos numa casa na Ponta do Sol, na Madeira. A tese das autoridades é que este será um caso de homicídio seguido de suicídio: a mãe, que padecia de cancro, terá envenenado o menor. O namorado da mãe tinha morrido há dias

Marta Caires

Jornalista

A casa onde tudo terá acontecido

A casa onde tudo terá acontecido

Marta Caires

Vítor ia fazer 12 anos este sábado, jogava futebol no Pontassolense e andava feliz pelo irmão mais velho, emigrante em Londres, ter vindo passar as férias do Natal à Madeira. Era um miúdo alegre que ia à escola, não faltava aos treinos e ainda tinha tempo para brincar à bola e andar de bicicleta com os amigos. A sua história seria a mesma de muitos outros miúdos de 11 anos não fosse ter acabado como acabou. A irmã mais velha, com quem vivia, encontrou-o morto, na madrugada desta quarta-feira, na cama, ao lado do cadáver da mãe de ambos na casa da família na Travessa do Caminho do Castanheiro, Ponta do Sol.

As autoridades estão convencidas de que se trata de um caso de homicídio seguido de suicídio. A mãe de Vítor, de 55 anos e que sofria de cancro, terá dado um produto tóxico ao filho, suicidando-se de seguida. A tese será sustentada por uma carta que terá sido encontrada junto aos corpos e entregue já à polícia, mas não se sabe ainda todos os contornos da história. O que se sabe é o que conta Maria Cecília Pereira, vizinha da casa ao lado, que na madrugada desta quarta-feira foi acordada pelo barulho.

“A irmã do Vítor e o marido chegam sempre mais tarde a casa. Ela trabalha num restaurante à beira mar na Ribeira Brava e tinha ido comprar uma caixa de cereais para o irmão comer ao pequeno almoço. Foi quando deu com os corpos na cama - abanou, abanou e nada. Chamaram os bombeiros e foi quando acordei”, explica a vizinha. Pouco ou nada havia a fazer. Os bombeiros confirmaram o óbito, chamaram a polícia e o delegado de Saúde. E, mesmo depois de tudo confirmado, Maria Cecília ainda não acredita que o Vítor está morto.

“É o que mais me custa pensar que nunca mais o vamos ver aqui, a correr e a saltar, a brincar com o meu filho.” Vítor, que ia fazer 12 anos este sábado, viveu o último ano aos cuidados da irmã mais velha, de 24 anos. A mãe, ao lado de quem morreu, saiu de casa e foi viver com o namorado, um homem mais novo, também da freguesia da Ponta do Sol. O caso, no entanto, não acabou bem. A mãe de Vítor adoeceu, esteve internada várias vezes e há três semanas, pouco depois de ter saído do hospital, o companheiro suicidou-se com veneno.

“Foi a filha que a foi buscar depois disso e a trouxe para casa.” Maria Cecília diz que a vizinha, que não era de muitas conversas, já acusava os efeitos dos tratamentos e da doença. “Já não tinha cabelo e andava com bengala, mas ninguém podia prever que ia fazer uma coisa destas.” Nas últimas três semanas, a vida correu normal, com mais alegria por ser Natal e pelo irmão mais velho de Vítor, emigrado em Londres, estar de férias na Madeira. “O Vítor estava mesmo feliz com a visita do irmão, da cunhada e da sobrinha, de quem gostava muito.”

As férias do Natal correram como sempre. O Vítor passou as tardes a brincar com os amigos, o Nuno e o José António. “Éramos os três, eu, o Vítor e o José António”, diz Nuno, o vizinho de 13 anos com quem jogava à bola e andava de bicicleta. A bola ainda está no quintal, era para brincar hoje. Vítor só não brincava nos dias em que tinha treino no Pontassolense, onde jogava futebol. “Foi o que aconteceu ontem. Chegaram os dois da escola, mas depois houve treino e por isso não houve brincadeira”, explica Cecília, que abana a cabeça, continua incrédula.

“Que quisesse por termo à vida, que a doença fosse difícil e estivesse a custar, eu até entendo, mas que deixasse o filho viver, deixasse o Vítor por aqui. Os irmãos iam tomar conta dele. A irmã tomou conta dele durante um ano e nunca lhe faltou nada e o irmão de Londres também ia ajudar.” A vizinha abana a cabeça. Nuno, o amigo de 13 anos, não sabe bem o que dizer, só que eram os três amigos da bola e da bicicleta e um deles não vai voltar a brincar com eles.