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Não vos quero assustar, mas acho que posso ser a voz da minha geração

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Larry Busacca / Getty Images

Ela descreve-se assim: “[Sou] aquela amiga virtual que partilha demasiadas coisas contigo, que grita contigo sobre a tua situação financeira, que te ajuda a escolher um fato de banho, um candeeiro, um presidente... E que te diz o que tens de fazer se precisares de fazer um aborto”. Ela é mesmo assim: polémica, imprevisível. Tem dois globos de ouro em casa, a internet dedica-lhe ora aversão ora admiração e a Time já a considerou a pessoa mais cool do ano

“Não vos quero assustar, mas acho que posso ser a voz da minha geração. Ou pelo menos uma voz. De uma geração.” A frase é dita pela personagem fictícia Hannah Horvath no primeiro episódio de “Girls”, mas é frequentemente atribuída a Lena Dunham, a atriz e realizadora que não só escreve estas palavras como também lhes dá voz e corpo. E porquê? Porque desde que em 2012 lançou “Girls”, a série muitas vezes comparada a “Sexo e a Cidade” - em comum com a história de Carrie e Mr. Big tem a cidade de Nova Iorque e as quatro amigas que a protagonizam -, Dunham ainda não parou: aos 29 anos, está prestes a somar ao seu currículo uma nova série, acaba de estrear uma newsletter feminista e já lançou um livro sobre a sua curta vida (na versão portuguesa, “Não Sou Esse Tipo de Miúda”) .

Se ainda não tiver reparado em Lena Dunham, asseguramos-lhe que a Internet já o fez, e nem sempre com reações simpáticas, sobretudo no que toca às suas convicções feministas. Encontre pistas na descrição que a própria Dunham deu ao site norte-americano “The Cut” sobre a newsletter que dirige desde setembro, a “Lenny Letter”: “É aquela amiga virtual que partilha demasiadas coisas contigo, que grita contigo sobre a tua situação financeira, que te ajuda a escolher um fato de banho, um candeeiro, um presidente... E que te diz o que tens de fazer se precisares de fazer um aborto”.

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A newsletter, que é feita para um público jovem (ou, segundo Dunham, para “um exército de mulheres intelectualmente curiosas e para as pessoas que gostam delas, que querem mudar as coisas mas que também querem saber onde podem comprar o top mais giro para o verão que não lhe custe um salário inteiro”), abriu, como não podia deixar de ser, com uma entrevista de Dunham a Hillary Clinton.

Não podia deixar de ser, porque, como relata um texto incluído neste número 1, “tudo começou em 1992, quando a Lena escreveu um trabalho, no terceiro ano de escola, tendo por base o controverso comentário de Hillary sobre chá e biscoitos” - na altura, a atual candidata à nomeação democrata nas eleições presidenciais norte-americanas disse a um repórter, questionada sobre o porquê de ter mantido a sua atividade como advogada enquanto o marido concorria à presidência, que “podia ter ficado em casa a cozinhar biscoitos e a tomar chá, mas o que decidi fazer foi exercer a minha profissão, na qual entrei antes de o meu marido se tornar uma figura pública”.

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Lena Dunham também não seria pessoa de ficar de braços cruzados, a tomar chá e biscoitos em casa. Nascida em Nova Iorque, corria o ano de 1986, Dunham cresceu no centro do meio artístico - os pais, o pintor Caroll Dunham e a fotógrafa Laurie Simmons, enchiam a casa de jantares com amigos artistas e intelectuais, pelo que a decisão de Dunham de estudar escrita criativa na Universidade de Oberlin foi encarada com naturalidade. Já na faculdade, Dunham filmou três curtas metragens e com uma delas, “Tiny Furniture” (Móveis Pequenos), lançou as bases para o que viria a ser “Girls”, a série que aos 26 anos lhe valeu o título de “Pessoa mais Cool do Ano”, atribuído pela revista TIME - e, convém acrescentar, dois globos de ouro que foram parar às prateleiras de casa da atriz em 2013.

“Girls” acabaria também por lhe valer algumas críticas, muitas ligadas às frequentes cenas de nudez, outras tantas relativas à falta de diversidade racial do elenco da série. Dunham respondeu ao primeiro reparo com mais cenas de nudez e ao segundo com um pedido de desculpas e a inclusão do ator e rapper negro Donald Glover no elenco da segunda temporada (o prazo de validade desses spoilers já passou). Glover interpreta um jovem republicano que tem uma breve relação com Hannah e a atitude da protagonista, ridicularizada pelo namorado por não saber lidar com as questões raciais (“acabaste de citar um verso de Missy Elliot?”, pergunta ele, a meio da discussão) acaba por espelhar o pedido de desculpas da própria Dunham.

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A sinopse da próxima aventura de Dunham, a série “Max”, aprovada no final de novembro pela HBO (casa de “Girls”), não surpreende quem segue a carreira da atriz, realizadora, argumentista, escritora e ativista (devemos estar a esquecer-nos de qualquer coisa). Desta vez, numa história em que se deixa ficar atrás das câmaras, Dunham apresenta uma comédia passada em 1963, no contexto da segunda vaga do feminismo. Zoe Kazan está encarregada de dar corpo à protagonista, uma jovem jornalista que descobre o movimento.

Dunham é criticada por algumas camadas do movimento feminista por poder estar a relativizar a importância destas causas em declarações como esta: “As pessoas querem falar de políticas radicais, mas também querem falar de moda e da Rihanna, e deve-se perceber que todas estas coisas podem acontecer ao mesmo tempo”. No entanto, os elogios à jovem chegam precisamente por causa dessa ligeireza, mas no sentido contrário: será Dunham uma voz, se não de uma geração, de um novo feminismo, mais pop e mais disseminado?

DANNY MOLOSHOK / REUTERS