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De que massa se faz um fuzileiro?

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José Caria

Os dois cadetes que estiveram desaparecidos cerca de 20 horas frequentam desde 21 de dezembro um curso de 100 dias úteis em que, além das provas de orientação, têm também exercícios de tiro

Carlos Abreu

Jornalista

O curso de formação de oficiais fuzileiros tem uma duração prevista de 895 horas distribuídas por 100 dias úteis à razão de cerca de nove horas por dia durante os quais os cadetes adquirem, sobretudo, formação teórica. Além do horário escolar, durante estes 100 dias os cadetes têm ainda de executar, ao longo de 446 horas, exercícios de tiro e de orientação noturnos, como aqueles em que desapareceram dois jovens a rondar os 20 anos, este domingo, localizados são e salvos ao final da tarde desta terça-feira.

Segundo o porta-voz da Marinha, onde está integrado o Corpo de Fuzileiros, trata-se de uma “prova para testar a capacidade que os militares das forças especiais têm para se orientar à noite sem qualquer auxílio de instrumentos [bússola, GPS, telemóvel] ou de pessoas, durante o qual deverão manter-se incógnitos [isto é, invisíveis para os instrutores que se encontram no terreno] e que decorre normalmente entre a Lagoa de Albufeira e a Escola de Fuzileiros” em Vale de Zebro, Barreiro.

Segundo o comandante Rodrigues Vicente, os dez homens que frequentam este curso “foram largados no domingo à noite e normalmente teriam chegado até ao fim da manhã do dia seguinte, segunda-feira. Há relatos de outros cursos em que muitas vezes, por qualquer motivo, os cadetes se atrasam e não conseguem completar neste tempo”.

Para aqui chegar, estes dez homens tiveram de ser os melhores entre 69 candidatos que este ano decidiram concorrer ao “concurso de admissão de voluntários para prestação de serviço na categoria de oficiais na classe de fuzileiros”, publicado em Diário da República a 14 de setembro do ano passado (aviso n.º 10401/2015). Caso concluam a formação com sucesso e conquistem a ambicionada boina “azul ferrete” serão promovidos a aspirantes e, por se encontrarem em regime de contrato, estarão ao serviço do Estado português entre dois a seis anos, no máximo.

Durante o concurso, além de documentação que tiveram de entregar, com especial destaque para o atestado médico de robustez física logo no primeiro dia do curso (para aqueles que são admitidos, claro) e de um longo autoquestionário de saúde que têm de preencher online, os candidatos, que têm de ter no mínimo o 12.º ano, são ainda submetidos a diversas provas de classificação e seleção com “caráter eliminatório e duração prevista de três dias”.

Têm, por exemplo, para obterem positiva nestas provas (entenda-se dez em 20 valores), de serem capazes de correr “2400 metros em terreno sensivelmente plano” em menos de 12 minutos, fazer cinco elevações na trave com as mãos em pronação (isto é, com as costas da mãos viradas para o rosto, em vez das palmas) e 30 abdominais em menos de um minuto. Mas isto é só o princípio.

Os candidatos têm ainda de executar um salto para a rede de abordagem a partir de uma posição elevada agarrados a um cabo e descer pela malha até ao solo e executar uma descida em slide pequeno com alça e ficar em pé quando chegarem ao solo, estando a base de lançamento a nove metros de altura e o cabo cerca de 25 metros de comprimento.

Tratando-se de militares vocacionados para as operações anfíbias, claro que não poderiam faltar provas de natação. Dentro da piscina, os candidatos terão de nadar 25 metros com controlo respiratório em qualquer estilo ventral (bruços, crawl ou mariposa), sem apoios nem paragens e mergulhar para recolher uma manilha de 200 a 500 gramas colocada a uma profundidade entre dois e 2,5 metros.

A destreza física é classificada em quatro graus, tendo os dez candidatos admitidos este ano obtido médias positivas em todas as provas.

As aulas começaram a 21 de dezembro. Este domingo, os cadetes estavam de regresso a Vale de Zebro depois de terem passado as festas junto das famílias. Esta foi a primeira prova de fogo que tiveram de enfrentar numa instrução com “um certo grau de rusticidade”, tal como lembrou esta terça-feira de tarde aos jornalistas o comandante da Escola de Fuzileiros, Pacheco dos Santos.