Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Hospital onde morreu jovem por falta de assistência tinha desde julho indicação para tranferir doentes com aneurisma

  • 333

Hospital de Sâo José

paulo vaz henriques

A recomendação fora dada em julho, relativamente aos períodos do fim de semana, tendo em conta que os doentes que os doentes com rutura de aneurisma cerebral que entrassem a partir das 16h de sexta feira teriam de esperar até segunda-feira para serem tratados. David Duarte, de 29 anos, morreu na madrugada de 13 para 14 de dezembro (de domingo para segunda-feira) por falta de equipa médica especializada precisamente por se tratar de um fim de semana

A Entidade Reguladora da Saúde (ERS) recomendou em julho ao Hospital de São José que transferisse doentes com rutura de aneurisma cerebral para outras unidades hospitalares com capacidade para fazer cirurgia ao fim de semana, foi divulgado esta segunda-feira.

Segundo um relatório publicado no seu site, o regulador abriu um processo de inquérito para averiguar o que se passava no Hospital de São José, na sequência de notícias divulgadas em janeiro de 2015 que davam conta de que os doentes que entravam naquela unidade com rutura de aneurisma cerebral, a partir das 16h de sexta-feira, teriam de esperar até segunda-feira para serem tratados.

Foi o que aconteceu em dezembro do ano passado, quando foi conhecido que um jovem de 29 anos transferido numa sexta-feira do Hospital de Santarém para São José acabou por morrer com uma hemorragia cerebral enquanto esperava tratamento.

Este problema deve-se à suspensão das escalas de prevenção aos fins-de-semana da Neurocirurgia-Vascular desde abril de 2014 e da Neuroradiologia de Intervenção desde 2013, no Centro Hospitalar de Lisboa Central (CHLC), que engloba o Hospital de São José.
Tendo avaliado as circunstâncias do que foi noticiado em janeiro, a ERC emitiu uma recomendação ao CHLC, noticiada esta segunda-feira pelo jornal “Público”, para que “nas situações em que constata não possuir capacidade para a prestação de cuidados de saúde específicos, nomeadamente, realização de cirurgias em situação de rotura de aneurisma cerebral por falta de recursos humanos especializados, essenciais à sua realização, os utentes sejam encaminhados para unidade hospitalar que garanta a prestação dos cuidados de saúde necessários”.

Dos factos apontados no relatório, lembra a ERS que “quando um aneurisma rompe, os doentes devem ser tratados nas primeiras 24 horas pela equipa de neurorradiologia ou pela neurocirurgia”, o que “deixou de acontecer” nos últimos dois anos aos doentes que entram em São José ao fim de semana.

E sublinha que, “apesar de o Hospital de Santa Maria ter intervenção ao fim de semana, os doentes não estão a ser encaminhados”.

O CHLC reconheceu ser comum em situações de emergência e dificuldade assistencial o contacto inter-hospitalar, incluindo com Santa Maria, mas alegou não ter conhecimento de “situações fatais”, “sequelas graves” ou “reclamações de familiares ou doentes”.

Acresce que a transferência para outras unidades hospitalares destes doentes é limitada pelo facto de a mobilização e transporte na fase aguda não ser a mais adequada conduta médica, justificou o CHLC.

“Além do mais, existem neurocirurgiões 24h sobre 24h no Hospital de São José”, acrescenta.
Mas a presença destes especialistas não é suficiente, como reconhece o próprio hospital, que afirma que a indisponibilidade de outros profissionais para integrarem as escalas de prevenção inviabiliza a construção de equipas para o tratamento desta patologia.

Assim, face a estes constrangimentos, o hospital instituiu como prática “manter os doentes sob ativas medidas de controlo clínico e terapêutico, até ao tratamento específico do aneurisma, sem complicações significativas”, ou seja internados nos cuidados intensivos em “permanente monitorização e avaliação da sua evolução”.

O regulador entendeu arquivar o processo de inquérito por o comportamento do hospital não ter, naquela altura, violado os direitos e interesses legítimos dos utentes, designadamente o direito de acesso os cidadãos aos cuidados de saúde no âmbito do SNS.

  • Carta da namorada do jovem que morreu por falta de médico ao fim de semana

    David Duarte, 29 anos, perdeu a vida na madrugada de 13 para 14 de dezembro (de domingo para segunda-feira) no Hospital de São José, em Lisboa, porque a equipa médica que o poderia salvar recusa trabalhar ao fim de semana pelo valor que o Estado paga. A namorada de David Duarte, Elodie Almeida, de 25 anos, estava com ele quando surgiram os primeiros sinais. Colocou em palavras escritas aquilo que não conseguiu contar ao Expresso de viva voz. É um testemunho raro