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Um e-mail cheio de género

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Mais de 196 mil milhões de e-mails são trocados todos os dias

Joe Raedle/Getty

Comunicamos cada vez mais depressa, mas dizemos cada vez menos. O e-mail matou as cartas, mas não conseguiu anular as diferenças entre homens e mulheres. Eles escrevem pouco, elas um pouco mais


Não se guardam sentimentos em envelopes. À caixa de correio já quase só chegam contas para pagar. Não se escrevem cartas de amor, não se mandam relatos de viagens, nem sequer informações profissionais. Hoje, as emoções e as ideias, as declarações e os pensamentos vão parar à caixa de e-mail. Em todo o mundo, mais de 196 mil milhões são trocados todos os dias.

Quase sempre curtos. Muito curtos. Mesmo lacónicos. A extensão mais comum da resposta a um e-mail tem umas meras cinco palavras e metade de todas as mensagens enviadas não vai além das 43, segundo investigadores da Yahoo Labs e da universidade norte-americana de Cornell, que realizaram o maior estudo mundial sobre a comunicação eletrónica. As novas tecnologias estão a mudar irreversivelmente a comunicação humana. Está mais rápida, mas mais curta; mais instantânea, mas menos profunda.

Na escrita à mão, é possível saber muito de quem escreve só pela caligrafia. “A forma e a dimensão da letra, a sua inclinação, a velocidade da escrita, o grau de continuidade entre as letras ou a disposição da escrita na folha dão muitas indicações sobre a personalidade da pessoa e o estado psicológico em que se encontrava no momento em que escreveu”, garante Luís Philippe Jorge, especialista em grafologia. Mas a escrita à mão já é uma raridade. Num mundo formatado a Times New Roman 12, muitos não conhecem a letra do seu melhor amigo nem nunca viram a caligrafia do colega que todos os dias se senta ao seu lado. Ainda assim, e sem ligar ao conteúdo, também é possível saber alguma coisa de quem escreve um e-mail pela forma como o escreve, pelo menos a julgar pelo estudo, que analisou mais de 16 mil milhões de e-mails enviados por dois milhões de pessoas ao longo de vários meses.

A investigação cruzou dados como a idade e o género dos remetentes e destinatários, as horas de envio, o tempo médio de resposta e a extensão da mesma. Os jovens respondem muito mais rapidamente, mas são avessos a longos ‘testamentos’. Em média, os adolescentes, por exemplo, só precisam de 13 minutos e de 17 palavras para responder a um e-mail. À medida que a idade avança, aumenta o tempo que se demora a escrever uma resposta e também cresce consideravelmente o que se tem para dizer. As pessoas com mais de 50 anos levam, em média, 47 minutos e usam quase outras tantas palavras.

Também há variações em função do género. No que diz respeito à escrita de um e-mail (e muitas mulheres diriam que não só), o comportamento dos homens está mais próximo do dos jovens do que do dos adultos: respondem mais rapidamente, mas de forma mais lacónica. “A comunicação online reflete o comportamento em ambiente offline. As mulheres têm uma maior propensão para a convivialidade, o que pode refletir-se na extensão das respostas, enquanto os homens tendem a falar menos. Tal como os jovens, que são menos dados a grandes conversas do que os seus pais. Vivem mais o momento. A comunicação é mais instantânea e mais curta”, explica o presidente da Associação Portuguesa das Ciências da Comunicação, Paulo Serra.

Independentemente da idade ou do género, a tendência geral é bem vincada e aponta para “um encurtamento” da comunicação, que é, assim, “menos refletida e mais imediata”, adianta o investigador. Filipa Subtil, especialista em Sociologia da Comunicação, concorda. E vai mais longe: “Há um empobrecimento da comunicação, com uma diminuição acentuada do vocabulário, e conteúdos cada vez mais curtos, superficiais e fragmentados.” A investigadora não poupa nas palavras: “Vamos pagar um preço caro. A ‘hipertecnologização’ dos processos comunicacionais já está a refletir-se socialmente, provocando um desinvestimento nas relações humanas. Os laços estão cada vez menos sólidos. Pode ser difícil virar a cara quando o outro está à nossa frente, com a sua tristeza e os seus problemas. Mas é muito fácil não responder a um e-mail quando a conversa não nos interessa.” Sobretudo se a caixa está cheia

(Texto originalmente publicado na edição do Expresso 2226)