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Filhos. Para quando o segundo?

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Carol Yepes/Getty Images

Na altura de ter um segundo filho, são vários os elementos ponderados. Existe um intervalo ideal ou recomendado?

São, acima de tudo, opções pessoais a ditar quando se avança para um segundo filho. Depende de cada casal e da dinâmica familiar. Mas se, em teoria, se pudesse escolher, existiria algum momento melhor? “Na cabeça das pessoas, existe efetivamente um intervalo ideal, normativo, que é o dos dois aos quatro anos”, explica Vanessa Cunha, investigadora do Instituto de Ciências Sociais e socióloga na área da família e da fecundidade. “Por um lado, os pais não querem privar a criança mais velha de atenção, por outro, querem dar-lhe uma infância com irmãos em que haja cumplicidade” — e aí os filhos têm de ser próximos o suficiente para brincarem juntos.

Portugal é um dos países da União Europeia onde a proporção de filhos únicos é mais elevada — superior a 32%. E contudo, no ideário português, como no europeu, todos apontam os dois filhos como o número ideal. “Do 25 de Abril de 1974 em diante, o ideal dos dois filhos consolidou-se bastante e tem-se mantido constante”, afirma Vanessa. Para a investigadora, “o que explica a elevada taxa de filhos únicos em Portugal é que, quando se põe na balança as condições de vida do primeiro filho e o desequilíbrio que um segundo filho pode significar, o prato pende para o lado do primeiro”. Vanessa Cunha acredita que, com a crise económica, a precarização do trabalho e a crescente insegurança profissional, a tendência do filho único acentuou-se. “Uns adiaram, outros desistiram da ideia.” E acrescenta: “A falta de confiança e a incerteza nas políticas são o melhor contracetivo.”

Segundo o Inquérito à Fecundidade de 2013, elaborado pelo Instituto Nacional de Estatística e pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, em Portugal, os filhos desejados superam os filhos dados à luz. Em média, as pessoas desejam ter 2,31 filhos, mas na realidade têm 1,03 filhos, o que não chega para assegurar a substituição de gerações (situada nos 2,1). Os dados do Eurobarómetro sobre ideais de fecundidade (Testa, 2007) garantem que, apesar do ideal português dos dois filhos, “a transição para o segundo filho dá sinais de ser cada vez mais difícil” (Cunha, 2007), sobretudo se olharmos para as sucessivas gerações do século XX. Tendo em conta três gerações — a nascida entre 1935-40, entre 1950-55 e entre 1970-75, que faz a passagem para a democracia em Portugal —, constata-se com facilidade que o intervalo do primeiro para o segundo filho tem vindo a aumentar: de 3,8 para 4,3 e para 4,9.

A contraceção tem um papel determinante, mas a principal motivação para adiar o segundo filho é a económica. A segunda é a difícil conciliação entre vida familiar e profissional. Quando a família de apoio falha na ajuda quotidiana, muitos casais sentem que um segundo filho seria uma “bola” difícil de manter no delicado malabarismo entre a vida familiar e profissional. Há nuances interessantes relacionadas com o intervalo entre o primeiro e o segundo filho em Portugal. “As pessoas com intervalos mais curtos entre filhos — de dois a quatro anos — são as mais escolarizadas”, afirma Vanessa Cunha. “Até porque o fazem já nos trintas, têm mais pressa e mais dinheiro.” Já os intervalos maiores, de cinco a nove anos, correspondem a famílias com menos recursos económicos, que optam por “despachar” despesas de infantário de um primeiro filho antes de terem o segundo.

O espaçamento maior entre filhos é também fruto de outro fenómeno da sociedade moderna: as famílias recompostas, com rebentos de vários relacionamentos, leva à existência de “fornadas” ou “gerações” de filhos e irmãos com grandes diferenças de idade. Como vantagens, a socióloga aponta “o envolvimento da criança mais velha, enquanto ajudante, na partilha da parentalidade — uma descoberta positiva por parte dos pais”. Como desvantagem, fica a noção de “duas crianças que crescem quase como filhos únicos, em etapas diferentes”. Para os pais, o mais pesado num intervalo grande entre filhos pode ser a sensação ingrata de “voltar às fraldas”, com a “perda de liberdade subsequente”.

Sensibilidade e bom senso

Quando o assunto é um segundo filho e o eventual intervalo ideal entre crias, a palavra-chave para a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos é “bom senso”. “Pensando na mãe e no seu corpo, na sua recuperação, a partir dos dois anos ela está apta a ter outro filho. Mas se um segundo filho vier depois da sua aquisição da linguagem (pelos três anos), isso facilita” a logística familiar, pois o primogénito consegue comunicar melhor com a mãe e ajudar. Para Ana Vasconcelos, “o intervalo ideal entre irmãos, que é hoje possibilitado pela contraceção, são os três, quatro anos, até para conciliar com a vida profissional”.

A especialista defende que “as pessoas devem pensar sempre em ter dois filhos, até tendo em mente a fragilidade da vida”. Não só “a vivência de ter irmãos é muito importante” como lhe surgem em clínica muitos casos de mulheres e casais que lamentam não ter tido o segundo filho. Acredita que “o medo” é o travão que impede os filhos desejados de se tornarem reais. “O medo de não ter dinheiro, de não conseguir gerir tudo...” E alerta: “Isso vai ter um preço elevado, em termos de gerações.”

Milice Ribeiro, psicóloga e membro da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar, concorda que “não pode haver uma regra”. “Estas escolhas têm muito a ver com a dinâmica de cada família, a sua dinâmica educacional...” Se pode fazer sentido, para algumas, ter dois filhos seguidos, no longo prazo, isso aumenta significativamente o cansaço da mãe, em particular, se ela amamentar. A especialista em formação parental salienta que há novas características da sociedade moderna que alteram a linearidade da questão dos filhos: “Por um lado, as pessoas vivem mais anos, e há quatro gerações a coexistir — o que nunca aconteceu antes. Por outro, os pais têm menos filhos e mais espaçados; e, por último, deixou de haver uma configuração familiar única, o que facilita haver filhos mais velhos de pais diferentes.”

A psicóloga acredita que “as condições de vida das famílias são fulcrais para não se dar o salto do primeiro para o segundo filho”. E cita o sociólogo Louis Roussel, que explicou a natalidade na Europa com o movimento do pêndulo no seu artigo “La Famille en Europe Occidentale — divergences et convergences”. Ele estudou 16 países entre os anos 60 e 89, que juntou em quatro grupos — Portugal integra o grupo do Sul (Portugal, Espanha, Itália e Grécia). A nível europeu, a meta dos dois filhos aumentou no Norte da Europa, assim como no Centro, mas no Sul o número de filhos desceu muito nas últimas décadas. “A tendência encontrada é ter menos filhos, mais tarde e mais espaçados. Nos países do Norte, esta evolução começou mais cedo e não foi tão acentuada, enquanto nos países do Sul foi forte e tardia.”

No fundo, o que distingue países como a França (o país europeu com maior índice de natalidade) de Portugal é que o Estado francês toma a seu cargo a educação pública de todas as crianças, o que é um garante de estabilidade às famílias. Independentemente dos governos, a estrutura gratuita e universal está assegurada para todas as crianças. Isso é talvez o maior incentivo à natalidade. Pode ser que um governo de esquerda consiga introduzir alterações duradouras nesta matéria...

(Texto originalmente publicado na edição do Expresso 2252, de 24 de dezembro)