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Uma massagem depois do trabalho ou um jantar no rio Mekong

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Bruno Dionísio é um português a viver na cidade de Vientiane, no Laos, onde faz manutenção de aeronaves

CHRISTOPHE ARCHAMBAULT / Getty Images

Foi no Laos que Bruno encontrou o que procurava: um país com gente que sorri na rua, que vive bem com o que tem em vez de mal com o que não alcança. No dia em que regressou à Europa, soube que tinha de regressar à Ásia - mas não a uma Ásia qualquer, antes à Ásia dele. O relato de Bruno, a décima e última história da série “Em pequeno número”, que o Expresso publicou na semana de Natal e agora prossegue na de ano novo sobre portugueses que vivem em regiões em que quase não os há

Junto às margens do rio Mekong fica Vientiane, a capital do Laos. Bruno vive no centro da cidade. Desloca-se a pé para quase todo o lado: mercados, restaurantes, bares, farmácias. E vai de mota até ao aeroporto internacional, onde trabalha, a quatro quilómetros do centro e a cinco minutos de casa.

Há um ano que Bruno Dionísio, 34 anos, vive no Laos, “um país do sudeste asiático com uma beleza natural enorme e uma capital em crescimento”, depois de já ter vivido no Vietname e na Malásia. “Foi isso que encontrei quando cheguei.”

“O meu estilo de vida no Laos assemelha-se bastante ao que tinha no Vietname. Com a diferença que Vientiane é uma pequena aldeia comparada com a agitação e loucura de Saigão. Aqui levo uma vida bastante tranquila e simples, mesmo assim com acesso a todos os bens necessários. É uma cidade que vai crescendo ao seu ritmo, muito devido a ajudas internacionais.”

O primeiro cinema abriu há cerca de três meses e perante a falta de mais atividades, a rotina centra-se no contacto com as pessoas. “Passa-se bastante tempo na rua, onde o calor é uma constante, entre mercados locais, cafés ou simplesmente a caminhar junto ao rio Mekong.”

Pratos de insetos fritos à venda num mercado na cidade de Vientiane, onde Bruno vive

Pratos de insetos fritos à venda num mercado na cidade de Vientiane, onde Bruno vive

HOANG DINH NAM / Getty Images

Segundo as estatísticas do Observatório da Emigração, recolhidas junto de fontes como os institutos de estatística de cada país, a ONU e os consulados, não há registo de portugueses – e os consulados apontavam para a presença de menos de 50 emigrantes e descendentes de emigrantes portugueses. Ainda que já tenha conhecido portugueses em viagem pelo país, ainda que sejam raros, Bruno Dionísio acredita ser o único a viver em Vientiane.

Mas não sente dificuldade em dar-se com os locais, mais ainda por ter tido aulas de língua lao, o que lhe permite ter pequenas conversas. O lao é a língua oficial do país, mas o francês e o inglês também são línguas faladas.

Entre os 6,8 milhões de habitantes, a religião do maior número de pessoas é o budismo (66,8%) – apenas 1,5% são cristãos e 31% da população tem outras religiões. E as estatísticas do World Factbook também mostram que em 2012 a agricultura era a ocupação de 73,1% da população ativa, os serviços ocupavam 20,6% dos trabalhadores e na indústria estavam 6,1%.

“As pessoas locais ainda não estão totalmente acostumadas a esta crescente presença de estrangeiros, mas a sua simpatia e generosidade faz com que a adaptação ao país seja muito fácil.” As compras são feitas entre os mercados locais – onde encontram vegetais e frutas – e os supermercados “mais europeus” – onde compram “alguns produtos como queijo, vinho ou iogurtes”.

De Lisboa para Saigão

Para trás, antes de chegar ao Laos, fica a saída de Portugal em 2011, “depois de ter trabalhado sete anos para a TAP Portugal”, na área de manutenção de aeronaves, na qual trabalha há 12 anos. Começou por ir para Paris, onde esteve seis meses a trabalhar no aeroporto de Charles de Gaulle. “Depois de Paris, decidi experimentar algo mais desafiante em termos profissionais e pessoais. Elegi o Vietname como próxima paragem.”

Esse foi um primeiro contacto: soube de uma oportunidade de trabalho através da internet e esteve um ano no Vietname, tempo suficiente para se habituar ao estilo de vida asiático, ao clima, à comida e às pessoas.

Quando depois voltou à Europa, sentiu as diferenças. “Foi dos maiores choques que senti, depois de um ano no Vietname.” Esteve em Bruxelas, país onde os pais viveram durante sete anos e onde Bruno nasceu e viveu até aos dois anos. “Não consegui ficar mais de dois meses na Bélgica. A Ásia chamava-me...”

De Bruxelas partiu para viver dois anos em Saigão, no Vietname, e dali partiu para Kuala Lumpur. “Surgiu uma oportunidade de trabalho que me pareceu bastante aliciante em termos de carreira.” Só que o estilo de vida com que se cruzou não coincidia com o que procurava.

“Esta não era a Ásia que me encantava. Sinto-me melhor em países asiáticos nos quais a cultura é mais genuína. Países menos desenvolvidos, por assim dizer, em termos económicos e de turismo, onde as pessoas por norma são mais inocentes e amistosas. E foi assim que decidi vir para o Laos.”

Hoje, há alguns hábitos que já teria dificuldade em perder, como jantar junto ao rio Mekong, “com vista para a Tailândia já ali do outro lado.”

Mas há também uns ‘pequenos luxos’: “uma boa massagem depois do trabalho ou no fim de semana, os sumos de fruta natural maravilhosos que se vendem em qualquer esquina a preços bastante simpáticos, ir de mota para o trabalho sem o stress dos engarrafamentos, ver constantemente pessoas sorridentes com o pouco que têm.” São essas as rotinas que espera conseguir manter.

Decisões a dois

Bruno e a namorada espanhola em Luang Prabang, uma cidade no centro-norte do Laos, a 425 km da capital

Bruno e a namorada espanhola em Luang Prabang, uma cidade no centro-norte do Laos, a 425 km da capital

Bruno Dionísio

Atualmente, Bruno vive com a namorada, de nacionalidade espanhola, que também foi para o Laos para trabalhar. “Em final de janeiro de 2016, o contrato dela no Laos irá terminar e será enviada para um outro país asiático, embora ainda não saibamos qual vai ser. Tomei a decisão de deixar a minha posição aqui e acompanhá-la nesta nova experiência.”

Ainda em Portugal, e antes de se dedicar à área da manutenção de aeronaves, Bruno passou por diversos trabalhos em Portugal. “Fui jardineiro, estafeta de carro, fiz sandwiches, trabalhei para a Câmara de Oeiras, trabalhei num restaurante, trabalhei numa fábrica de fazer cigarros.”

Para os próximos anos, a intenção é continuar a viver no sudeste asiático. “Um dia mais tarde gostaria ter uma experiência em África. Grande parte da minha família nasceu em Angola, cresci a ouvir todas estas histórias de África, alimentando a minha imaginação e criando o desejo de um dia lá viver. Mas em geral não faço grandes planos. Deixo que a vida me reserve algumas surpresas.”

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