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Hélder Bataglia. O último aventureiro

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Ana Baião

Ascensão e queda do self-made man que desbravou para os portugueses o caminho de regresso a África

Gustavo Costa

Correspondente em Luanda

No último piso do prédio mais alto de Luanda há um homem a morar sozinho. Dali, no topo da Rua Marechal Brós Tito, ao entardecer, vê a baía que dá forma à cidade e os ancoradouros da ilha, do lado de lá do braço de mar que banha a marginal. Foi ele que imaginou a vista e construiu a torre onde parece estar agora preso. Há mais de meio ano que Hélder Bataglia não vai a Portugal, onde é referido nas notícias e aguardado pelo Ministério Público, para eventualmente esclarecer os contornos de 12 milhões de euros de transferências bancárias feitas na Suíça e a relação que tem com o ex-primeiro-ministro José Sócrates.

Bataglia vive encurralado entre o 24º e o 17º piso, onde ficam os escritórios do que resta da Escom, aquela que já foi uma das empresas mais importante de Angola, avaliada em 600 milhões de euros, estendendo os seus tentáculos ao Congo e à África do Sul e com interesses na Venezuela e na China.

Hélder Bataglia nunca foi grande apreciador dos bancos de escola, sempre preferiu outro tipo de bancos, pelo que não foi longe nos estudos

Hélder Bataglia nunca foi grande apreciador dos bancos de escola, sempre preferiu outro tipo de bancos, pelo que não foi longe nos estudos

D.R.

A Escom está a morrer. Dos 1400 trabalhadores que tinha espalhados pelo país, muitos deles envolvidos na prospeção das minas de diamantes, sobram apenas 30, depois de quase 400 terem ido para casa no final de julho com os salários em dia e as indemnizações pagas. São os últimos de uma vaga de despedimentos que o ainda presidente da empresa tem estado a fazer, à medida que vai vendendo os ativos do pequeno império que construiu na antiga colónia portuguesa ao longo de duas décadas para o Grupo Espírito Santo e para ele próprio.

A torre onde acorda e adormece todos os dias, batizada de Escom, é o espelho da ambição que levou consigo no início da década de 90 para Angola, o país onde cresceu, depois de o ter abandonado em 1975, quando desembarcou para umas férias em Lisboa e não voltou mais. Pelo menos, não tão cedo como estava à espera.

Foi na antiga Feira Popular, em Entrecampos, que o seu regresso começou a ser traçado. E com isso o nascimento da Escom. Durante um jantar de sardinhas no verão de 1990, a poucos metros da montanha-russa e do comboio-fantasma, Bataglia conheceu Luís Horta e Costa, um jovem gestor do Grupo Espírito Santo vindo poucos anos antes do Brasil. Foram apresentados por um amigo comum, Francisco de Mello Breyner. “Olhe que este tipo é que podia dar jeito para aquilo que está a pensar”, comentou Francisco com Luís no final.

Bataglia tinha então 33 anos e era um homem magro, de penetrantes olhos azuis, riso largo e conversa fácil. Casara bem, em 1980, com uma italiana de famílias ricas, Simonetta. E, embora vivesse em Alfama, na rua do elétrico 28, passava metade do tempo em Minsk, na Bielorrússia, em Amata, no Cazaquistão, e noutras seis cidades dos então territórios da União Soviética, ajudando o sogro, o consiglieri Mario Carlutti, a gerir a construção de fábricas de sapatos e curtumes. Eram superfícies cobertas gigantescas, de entre as maiores do mundo, e tinham sido financiadas com uma linha de crédito do Governo de Roma para algumas grandes empresas italianas.

Bataglia fez uma comissão de 42 meses em Cabinda, onde chefiou um pelotão de artilharia no qual só havia mais um branco

Bataglia fez uma comissão de 42 meses em Cabinda, onde chefiou um pelotão de artilharia no qual só havia mais um branco

Alguns meses depois do jantar de sardinhas, Luís Horta e Costa ligou-lhe. Tinha ficado a matutar nas palavras de Mello Breyner. Andava há uns tempos a magicar numa oportunidade de negócio relacionada com Angola e precisava de alguém de espírito aventureiro e com algum lastro em África com quem pudesse fazer parelha. Aquele sujeito bem falante, diplomata e desenrascado, que tinha vivido mais de 20 anos na antiga colónia, parecia ter o perfil adequado.

Luís, por seu turno, gastara os últimos dois anos da sua vida como distribuidor da cerveja Sagres em Vila Real e estava à procura de encontrar um novo rumo. Queria ter êxito. A seguir ao 25 de Abril, fora para o Brasil, juntamente com os Espírito Santo, de quem era íntimo, e tornara-se diretor comercial de uma plantação de café que a família de banqueiros comprou no estado da Bahia. Mas atravessou um período pessoal difícil, e agora que o tio António — como costumava tratar António Espírito Santo Silva — o convencera a voltar a trabalhar no grupo tinha vontade de provar que podia ir longe pelo seu próprio pé.

O ambiente era de grande otimismo em Portugal. A transição revolucionária tinha terminado em 1982 e o país entrara na Comunidade Económica Europeia em 1986, carimbando o caminho para a normalização da sociedade e o estabelecimento definitivo do capitalismo, numa viragem para as virtudes da iniciativa privada. O Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa (BESCL) estava a ser reprivatizado pelo Governo de Cavaco Silva, e a família de banqueiros que o fundara no século XIX instalou-se em Lisboa para garantir que a joia da coroa não lhe escapava das mãos. Manuel Ricardo Espírito Santo, o último presidente do banco até ao 25 de Abril, liderava a operação para a tomada de controlo da instituição, enquanto António Espírito Santo Silva e Patrick Monteiro de Barros ocupavam-se de restabelecer os negócios não financeiros do clã.

Tinham convertido em escritório a antiga casa de família na Rua de São Bernardo, junto ao Jardim da Estrela, em Lisboa. Luís foi ocupar a sala dos motoristas, onde havia apenas uma mesa e um telefone. “Não me deram nada para fazer”, recorda. “Podia tentar vender o telefone, mas comecei por ir ter com o Mário Cardoso [o antecessor de José Castella, o financial controller do grupo] e pedi-lhe uma empresa, com o pretexto de que precisava de uns cartões de visita e de pôr lá qualquer coisa escrita.” Fizeram-lhe a vontade e passaram-lhe a gestão da Espírito Santo Agriculture and Development Limited (ESADL), uma companhia com um nome promissor mas que era apenas uma caixa postal registada nas Bahamas.

Depressa o tio António deu a dica de que Horta e Costa precisava para insuflar conteúdo à sua nova empresa. A sucursal do BES em Madrid ia tornar-se o banco agente de uma linha de crédito de 600 milhões de euros aberta pelo Estado espanhol para os produtores espanhóis que quisessem exportar para Angola, numa iniciativa diplomática para apoiar aquele país antes das primeiras eleições legislativas desde a independência, em novembro de 1975. José Eduardo dos Santos, do MPLA, e Jonas Savimbi, da UNITA, tinham estabelecido tréguas, para se poderem confrontar nas urnas. No dia seguinte, Luís meteu-se num avião para Madrid e saiu de lá com a garantia de que, se arranjasse produtos que interessassem aos angolanos, metade da linha de crédito poderia ser usada em Portugal.

A linha chamava-se FocoEx, e Bataglia achou o esquema interessante, dispondo-se a frequentar a sala de motoristas da Rua de São Bernardo. Manteve um pé na Rússia, mas aceitou ir apalpar terreno a Angola.

Casou em segundas núpcias com Simonetta, a italiana que lhe dava chão; quando ela morreu, em 2007, sentiu-se perdido

Casou em segundas núpcias com Simonetta, a italiana que lhe dava chão; quando ela morreu, em 2007, sentiu-se perdido

Pouco antes de Manuel Ricardo morrer em março de 1991, vítima de uma embolia pulmonar, e Ricardo Salgado vir da Suíça para o substituir à frente do banco, Bataglia voou para Luanda com Horta e Costa. Desde a sua partida atrapalhada no final de 1975, Hélder estivera apenas mais duas vezes em Angola. Uma delas para ver os amigos de infância, em 1984, e outra para servir de cicerone em 1989 a uma empresa italiana, a Società Esercizi Cantieri, na venda de barcos à Peskwanza, uma empresa de pesca em Porto Amboim.

Agora ia com a ideia de que, com sorte, podia ser para sempre. Havia paz em Luanda, mas a cidade estava destruída. Um amigo emprestou-lhes um Lada velho, com um motor que não aguentava as subidas até ao Trópico, o hotel onde toda a gente ia, e ficaram alojados numa pequena casa de uma empresa de construção. As viagens foram-se sucedendo, dez dias de cada vez. A linha de crédito do Governo espanhol foi esgotada em pouco tempo. A Espírito Santo Agriculture and Development Limited, com a sua caixa postal nas Bahamas, vendeu 300 milhões de euros ao Governo angolano: arroz, óleo de girassol e jipes UMM, de fabrico português. “Abasteceram, em tempo de guerra, as forças armadas e o mercado de produtos alimentares”, reconhece um antigo alto funcionário do Ministério das Finanças.

A reputação de Bataglia em Lisboa tornou-se sólida. Queriam muito tê-lo como quadro do grupo. Disse-lhes que sim, com uma exigência: não seria empregado, mas acionista do Grupo Espírito Santo (GES). Apesar das reticências iniciais, pelo facto de nunca terem tido um sócio exterior ao clã, António Espírito Santo Silva e Patrick Monteiro de Barros acabaram por aceitar as condições do jovem trader, convencidos com as provas que dera do seu talento.

Em 1993, a Escom nascia formalmente numa outra caixa postal nas Ilhas Virgens Britânicas, e Hélder Bataglia assumia a presidência da sociedade. Com o dinheiro ganho nas comissões da venda de produtos a Angola com a FocoEx, cobriu os seus 33% do capital social da empresa.

Nesse momento, a decisão mais importante para o futuro da Escom já tinha sido tomada. Em 1992, com as eleições a darem a vitória ao MPLA e com Jonas Savimbi a não reconhecer os resultados, a guerra eclodiu de novo, num clima de violência redobrado, mas a decisão do GES foi de ficar a qualquer custo. Os combates aconteciam em plena capital. Incapaz de proporcionar o mínimo de segurança a empresários estrangeiros que se dedicassem a assegurar o comércio internacional, o país atravessava um período de carência crítica de bens essenciais.

Açúcar, arroz, medicamentos. Tudo o que fosse preciso, a Escom importava. “Ganharam muito dinheiro logo no primeiro ano”, lembra uma fonte que acompanhou de perto esse início promissor. Não havia concorrência, e, além disso, a empresa beneficiava de uma relação simbiótica com o BES. Os interesses confundiam-se. Até 1995, a Escom funcionava no escritório da representação que o banco fazia questão em suportar na baixa de Luanda, apesar de não ter atividade. E Bataglia escolhia as empresas portuguesas com quem fazia acordos de exportação diretamente da lista de grandes clientes do BES. “Havia clientes do banco que estavam em situação de aperto e era uma forma de os ajudarmos — e de, com isso, ajudarmos o banco”, lembra Luís Horta e Costa.

Sam Pa procurou Bataglia em Lisboa porque precisava de um parceiro para realizar investimentos com o apoio do 
Governo da China

Sam Pa procurou Bataglia em Lisboa porque precisava de um parceiro para realizar investimentos com o apoio do 
Governo da China

O caminho dos diamantes

Bataglia, no entanto, não queria ser apenas mais um comerciante em África. Sonhava com mais. Na primeira oportunidade, alargou a esfera de negócios para fora do trading. Entrou no sector da saúde, uma área tão ou mais crítica do que a importação de alimentos. A empresa construiu de raiz um hospital em M’Banza Kongo, acumulando com a gestão de um outro hospital na província do Zaire. Em Cabinda, tomou também o controlo de um hospital e de um centro de saúde. Mandou vir gestores de Portugal e foi a Cuba buscar mais de 50 médicos, enquanto, ao mesmo tempo, abastecia as farmácias espalhadas pelas províncias.

Até que, em 1995, surgiram as minas. Eram um investimento tabu. Havia campanhas sistemáticas no Ocidente contra os diamantes de sangue, e Angola estava na lista negra. As pedras preciosas financiavam a guerra. A UNITA dependia mais delas do que o MPLA, que tinha o petróleo como fonte principal de receitas, mas José Eduardo dos Santos queria disputar o mercado do inimigo e fazer-lhe concorrência direta. Para a Escom, era um grande trunfo poder abrir o caminho para a economia angolana, mostrando aos grupos internacionais que era possível investir ali, dentro de parâmetros aceitáveis.

A experiência na Rússia ajudou Bataglia a convencer a administração da Alrosa a meter-se na prospeção de diamantes na Lunda Norte, numa área controlada pelo MPLA. Formaram uma empresa a meias, a Sociedade Mineira do Camatchia Camagico, com que exploraram a mina do Luó. Foi no tempo em que o empresário francês Pierre Falcone e o seu parceiro israelo-russo Arkadi Gaydamak abasteciam Luanda com armamento, antes de Gaydamak levar algumas altas patentes reformadas da Mossad para cortarem as rotas de distribuição de diamantes da UNITA. A Alrosa viria, entretanto, a ser financiada pelo israelo-russo na exploração de um dos maiores kimberlitos (a rocha-mãe dos diamantes) do mundo, no Catoca, na Lunda Sul.

Mais tarde, a Escom trouxe o maior grupo da indústria de diamantes, os australianos da BHP Billiton, com quem ganhou 14 concessões atribuídas pelo Estado angolano. O palácio presidencial do Futungo de Belas olhava para o que estava a acontecer com bons olhos: não se tratava só de dinheiro mas de credibilizar o regime junto da comunidade internacional.

José Eduardo dos Santos fez saber que gostaria de ver a Escom como um exemplo em Angola, alargando o seu papel na recuperação do país. Em Lisboa, Ricardo Salgado deu luz verde para avançarem: haveria dinheiro do banco para investir a sério. Mas o recado vinha de Luanda com uma contrapartida atrelada: o grupo não podia ganhar tudo sozinho. Teria de se associar a parceiros locais. E assim surgiu uma sociedade feita a meias com a Africa Markets Development Limiteda (AMDL). Era uma dessas companhias criadas com dois únicos objetivos: ter uma fatia dos lucros e manter os seus proprietários na sombra. De acordo com algumas fontes, na lista de donos da AMDL estavam vários generais das forças armadas angolanas, entre eles os irmãos Faceira, António França NDalu e João de Matos.

Em Angola, é conhecida a sua veia de benemérito

Em Angola, é conhecida a sua veia de benemérito

Em 1996, essa joint-venture abriu o primeiro cash & carry de Angola, o Kinda, montou uma companhia de pesca, a Starfish, e colocou uma frota de seis Boeing no ar, a Air Gemini, para sobrevoar o país com cargas de alimentos, distribuindo-os pela população ao abrigo do Programa Alimentar Mundial. E também para dar assistência às minas de diamantes localizadas em zonas mais remotas.

No outro lado da fronteira, na República Democrática do Congo, tanto dinamismo chamou a atenção de Denis Sassou Nguesso. O político mandou chamar o português a Paris, onde se encontrava a preparar a sua candidatura para as eleições de 1997, e disse-lhe que gostaria de ver a Escom a fazer no Congo o que estava a fazer em Angola.

Nguesso tinha sido Presidente de 1979 a 1992, sendo destronado no primeiro sufrágio livre do país. Com o seu regresso ao poder, veio a guerra civil, mas Bataglia aceitou o desafio na mesma. Desembarcou com dois aviões russos carregados de equipamento em Brazaville. Construiu o aeroporto internacional de Ollombo e repavimentou parte das ruas da capital, onde também pôs de pé a sede da rádio nacional. As obras multiplicaram-se. Como retribuição, Nguesso nomeou-o cônsul honorário do Congo em Benguela e condecorou-o com a Ordem de Mérito Empresarial.

O “macrocéfalo” de Benguela estava em acentuada progressão. Foi quando começou a imaginar a torre onde passa os dias agora. E, talvez sem se dar conta, à medida que a marcha do seu sucesso foi acelerando, começou a construir as circunstâncias da sua queda. Um amigo olha para trás, resumindo: “O Hélder tem aquela coisa de ser um self-made man. Queria participar no circuito social e às vezes era um pouco ingénuo. Era generoso e tinha muito entusiasmo. A dada altura, deslumbrou-se.”

Simonetta dava-lhe chão. Afastava-o das tentações de se deixar levar demasiado pelas luzes das festas e pelo glamour dos muito ricos. Por isso, quando a mulher morreu em 2007, sem conseguir resistir a um tumor cerebral, Hélder, segundo dizem os que lhe são próximos, sentiu-se perdido.

Irmão branco

Hélder José Bataglia dos Santos nasceu a 25 de janeiro de 1947, numa altura muito difícil para a sua família. Os pais viviam em Vieira de Leiria, onde as perspetivas eram más. A região estava depauperada. O pai, José, partiu para Angola e enviou a mulher para o Seixal, a terra dela, para ter mais apoio depois do parto. Rita e o bebé juntaram-se ao marido ao fim de dois anos.

Em Baía Farta, uma vila piscatória 30 quilómetros a sul de Benguela, José construía e reparava traineiras. O miúdo foi colocado na única escola primária da terra, onde todos os seus colegas eram negros. “Era uma criança que passava por privações”, diz um amigo de infância, José Guerreiro, filho de um operário português. “Vivia com muitas dificuldades.

Aos 10 anos foi enviado para Benguela, onde foi inscrito na escola comercial e industrial, destinada aos rapazes de famílias sem recursos para os colocar no liceu. Luís Rasgado “Dufa”, seu colega de turma, recorda que lhe puseram uma alcunha: “Macrocéfalo”. Quando chegou a vez de a irmã, Anabela, seis anos mais nova, ter de fazer a instrução primária, os pais mudaram-se também eles para a cidade, para que a menina frequentasse uma escola feminina, o Colégio das Madres.

Hélder encontrou-se de novo sozinho aos 19 anos, quando entrou para o Instituto Industrial de Nova Lisboa, na atual Huambo, no planalto central, longe da costa. Partilhava casa com o dirigente sindical Galvão Branco, um amigo que o acompanhara ao longo do ensino secundário e que agora era também seu colega de turma no curso de engenheiro técnico mecânico. “Costumávamos trocar opiniões sobre oportunidades e estratégias para se ter sucesso em Angola”, diz o amigo. Não se adaptou nem ao curso nem a Nova Lisboa, uma cidade muito mais recente do que Benguela, virada para a linha de comboio e para a indústria. E mais chuvosa.

Ainda foi para Portugal, tentar o curso no Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL), que então ficava na Rua Buenos Aires, no centro da capital. Mas achou a cidade triste, e a vocação técnica nunca lhe veio, não chegando a frequentar o segundo ano.

Nas últimas semanas, vendeu ao general João de Matos a mina de diamantes de Tchiedji, o último ativo de peso da Escom

Nas últimas semanas, vendeu ao general João de Matos a mina de diamantes de Tchiedji, o último ativo de peso da Escom

Com o abandono dos estudos, incorporou o exército em Angola. Como angolano. Bataglia fez uma comissão de 42 meses em Cabinda, passando um longo período em Maiombe, uma das mais densas florestas do mundo. Tinha o posto de furriel miliciano e chefiava um pelotão de artilharia onde só havia mais um branco, além dele. Os ataques dos guerrilheiros do MPLA eram constantes e, pelo meio, havia surtos mortíferos de paludismo. Mas saiu da tropa com a cabeça arrumada. Não ia voltar a estudar. Em Benguela, convenceu alguns investidores a acreditar nele, arranjou um financiamento do Instituto de Investigação às Pescas e comprou o edifício da sua antiga escola primária para montar uma empresa de secagem de peixe com uma tecnologia nova. Entretanto, casou-se com Luísa Gago da Silva, filha de um empresário português de passagem por Angola, e em 1973 já era pai de uma menina, Rita.

Na sequência da saída atrapalhada de Benguela em 1975, a sua empresa foi nacionalizada, e, ao ver-se em Lisboa sem nada, decidiu que, para fazer dinheiro depressa, teria de correr riscos maiores. Se quisesse ter boas oportunidades, teria de ir para onde ninguém ia. Foi bater à porta de empresas no norte de Portugal, tentando convencê-las a tê-lo como representante comercial no Médio Oriente.

O primeiro choque petrolífero, em 1973, fez o preço do crude aumentar quatro vezes em apenas meio ano e funcionou como uma promessa de prosperidade na região. Bataglia foi para o Kuwait, então a mais desenvolvida das economias árabes, estimulada pela criação do primeiro fundo soberano do mundo, o KIA. Durante anos foi o único português instalado regularmente no barco-hotel Marriot, um dos raros alojamentos na cidade do Kuwait, e as suas incursões foram um sucesso. Vendia trens de cozinha da União Industrial de Cesar e chocolates e bolachas da Aliança, esgotando rapidamente as produções das fábricas e alargando aos poucos o seu perímetro de ação aos países vizinhos, à medida que passava a representar cada vez mais empresas.

A vida de caixeiro-viajante durou pouco, no entanto. Numa paragem forçada no Cairo em 1979, impossibilitado de embarcar para Teerão, onde rebentara a revolução islâmica, cruzou-se com Simonetta. Apaixonaram-se. A seguir ao matrimónio no ano seguinte na Igreja de Santiago, no coração de Lisboa, os seus negócios ganharam envergadura. Continuou a viajar para Bagdade e Teerão, mesmo havendo guerra, mas passou a concentrar-se na Argélia, onde em 1982 o Governo local lançava um gigantesco programa de investimento. Convenceu as autoridades de que era capaz de construir cinco centros de formação profissional e, sem ter os meios para isso, foi às Caldas da Rainha recrutar uma empresa de obras que o fizesse por ele. Bataglia limitava-se a juntar as pontas. Parecia ter, finalmente, encontrado a sua vocação.

A desilusão chinesa

Trinta anos depois, em 2003, Sam Pa foi à procura dele em Lisboa, no 12º piso da Torre 1 das Amoreiras, onde ficava o escritório local da Escom, com vista sobre o Tejo, por causa dessa capacidade de juntar pontas. Bataglia nunca tinha ouvido falar daquele chinês de óculos, barba e cara redonda. Apresentou-se como representante de um grupo que estava à procura de um parceiro internacional para realizar investimentos ambiciosos com o apoio do Governo da China. “Dizia que sabíamos muito sobre África e a América Latina, especialmente sobre as ex-colónias”, contou o presidente da Escom numa entrevista concedida a um jornalista do “Financial Times”, Tom Burgis, para o livro “A Pilhagem de África”.

Bataglia, na companhia de Ricardo Salgado e Álvaro Sobrinho, foi recebido pelo Presidente Eduardo dos Santos

Bataglia, na companhia de Ricardo Salgado e Álvaro Sobrinho, foi recebido pelo Presidente Eduardo dos Santos

Luís Horta e Costa não gostou do chinês. “Era um tipo de falinhas mansas e com um terrível mau gosto. Tinha uma obsessão por marisco e mulheres”, recorda. Embora desconfiado de uma esmola tão grande, Bataglia achou que não tinha nada a perder. Foi de avião com Ricardo Salgado e Sam Pa até à China. Foram recebidos por administradores da Sinopec, a empresa petrolífera estatal, tiveram direito a batedores nas ruas e visitaram o Palácio do Povo em Pequim. Não podia ser um engodo. Aparentemente, estavam abertas as portas para fazerem negócio ao mais alto nível.

Segundo Tom Burgis, Sam Pa teria estado envolvido no fornecimento de armas chinesas ao MPLA nos anos 90, sendo conhecido por vários nomes. Algumas fontes contactadas por Burgis asseguram que Pa trabalhava há muitos anos para os serviços secretos de Pequim. De acordo com essas fontes, a enredada teia de empresas montadas por ele a partir de dada altura numa única morada em Hong Kong, Queensway 88, seriam apenas um meio para atingir os seus fins: resolver a crescente necessidade de petróleo e gás enfrentada pela China.

A Escom criou com uma das empresas do círculo de Sam Pa uma sociedade, a China Beya Escom, com sede em Hong Kong. E logo de seguida organizaram uma viagem juntos a Caracas. Os chineses queriam iniciar a nova parceria pela Venezuela. Foi com esse cartão de visita, de facilitador de negócios com Pequim, e representando ao mesmo tempo o Grupo Espírito Santo, que Bataglia conheceu Hugo Chávez. O Presidente venezuelano foi caloroso, e algumas empresas chinesas instalaram-se no país depois disso, para construírem habitações sociais e caminhos de ferro. Um périplo pela Argentina abriu também perspetivas animadoras no sector energético. Encantado com Buenos Aires, o presidente da Escom comprou inclusive um apartamento para poder levar Simonetta de vez quando a dançar tango.

Os ventos não podiam ser mais favoráveis quando Bataglia alojou Sam Pa na sua casa de Luanda em 2004, de forma meio clandestina, para contactos exploratórios com o Futungo de Belas. Depois do assassínio de Jonas Savimbi e da capitulação da UNITA, a paz em Angola consolidara-se e o preço do petróleo vinha a subir de forma sustentada. Uma fonte explica que, no entanto, Pa tratou rapidamente de contornar o português. Segundo uma fonte ouvida pelo Expresso, logo na primeira viagem a Pequim com Manuel Vicente, o então presidente da Sonangol, a empresa estatal de petróleos de Angola, o chinês começou a convencer o angolano que talvez não precisassem de nenhum intermediário português pelo meio.

Em pouco tempo, a China fez de Angola o seu segundo maior fornecedor de petróleo, construindo em troca grandes projetos de infraestruturas no país, com mão de obra chinesa, através de parcerias criadas a partir de uma nova empresa, a China Sonangol. Hospitais, estradas, escolas. Generosas linhas de crédito para o regime de José Eduardo dos Santos eram abertas por Pequim. Mas a Escom foi afastada do jogo. De repente, Sam Pa deixou de atender o telefone. Bataglia e o Grupo Espírito Santo não conseguiram sequer reaver os seis milhões de dólares que tinham investido na China Beya Escom. A sociedade ficou por encerrar e o dinheiro desapareceu.

O fracasso na relação com o grupo Queensway 88 não pareceu ter abalado o empresário na altura. Tinha muitas frentes de negócio em franco desenvolvimento. No final dos anos 90, Bataglia conhecera Álvaro Sobrinho, o matemático que no BES, em Lisboa, foi responsável por desenhar o sistema de reformas do fundo de pensões dos funcionários. Era o atuário do banco. Sobrinho foi enviado para Luanda para ajudar a Escom a gerir o fundo de pensões dos ex-combatentes das Forças Armadas, numa sociedade constituída com o MPLA. Depressa tornaram-se amigos. E quando Ricardo Salgado decidiu abrir o Banco Espírito Santo Angola (BESA), Bataglia foi o primeiro a sugerir o nome do angolano para presidente-executivo, juntando-se a ele na administração.

O BESA foi o primeiro banco de direito angolano a ser criado, em janeiro de 2002, e mais de 90% dos seus quadros foram recrutados em Luanda. Com o continuado aumento do preço do petróleo a aquecer a economia, a concessão de créditos crescia exponencialmente. A Escom passou a ter uma fonte de financiamento direta para os seus projetos imobiliários. Aparentemente, não se colocava a questão de haver um conflito de interesses, apesar de Bataglia estar em ambos os lados da barricada — como credor e devedor.

Não havia nada que pudesse correr mal. Os 24 pisos da torre Escom, para onde foram canalizados 100 milhões de dólares em empréstimos, foram vendidos em três meses, quando a construção ainda estava a meio. A febre da procura por apartamentos e escritórios de luxo levou a empresa a avançar com mais três torres ao lado, quadruplicando o investimento com o projeto Sky Center.

A viragem

A fortuna pessoal de Bataglia acumulava-se. Em Lisboa, a Escom via os frutos da consultoria que fizera durante meia dúzia de anos para o German Submarine Consortium no negócio da venda de dois submarinos ao Estado português por mil milhões de euros. Em segredo, o presidente e os dois administradores, incluindo Horta e Costa, recebiam no final de 2004 cinco milhões de euros em bónus pelo sucesso do contrato, canalizando-os até à Suíça através de um esquema nubloso de offshores nas Ilhas Virgens Britânicas e nas Bahamas, para fugirem aos impostos em Portugal. Foi quando Bataglia conheceu Michel Canals, um histórico gestor de fortunas portuguesas na UBS, em Genebra, tornando-se seu cliente a partir daí.

O português apostou nalguns negócios pessoais, fora do círculo dos Espírito Santo. Foi comprando imóveis em Luanda e com um amigo de infância, José Paulo Pinto de Sousa, primo direito de José Sócrates, meteu-se na exploração de salinas em Benguela. Os pais de ambos eram amigos íntimos, e a relação entre as duas famílias estreitou-se ainda mais quando Bataglia teve uma filha com a irmã de José Paulo, hoje com 15 anos — e cuja paternidade acabou por assumir.

Mais tarde, em 2009, depois de vender a sua participação no BESA a Álvaro Sobrinho por 60 milhões de dólares, Bataglia seria desafiado por Canals para investir na criação de uma pequena empresa de gestão de fortunas. O esquema era simples: a agência cobraria 1% dos depósitos feitos pelos clientes e com isso garantia-lhes a ocultação das suas identidades e um plano seguro de investimentos. Bataglia disse que sim, mas com uma condição: ter Sobrinho também como sócio.

Foi agraciado, em 2007, com a Ordem do Infante D. Henrique, mas orgulha-se particularmente da condecoração que recebeu do Presidente do Congo, Denis Sassou Nguesso, que lhe estendeu as mãos nos tempos de aperto

Foi agraciado, em 2007, com a Ordem do Infante D. Henrique, mas orgulha-se particularmente da condecoração que recebeu do Presidente do Congo, Denis Sassou Nguesso, que lhe estendeu as mãos nos tempos de aperto

Canals saiu da UBS juntamente com Nicolas Figueiredo e José Pinto, os gestores que geriam com ele as contas portuguesas no banco. O objetivo era alargarem a sua base cada vez mais em Angola e entrarem no mercado chinês, onde o número de multimilionários disparara. De acordo com uma fonte, só mais tarde é que, ao cruzar-se com Nicolas Figueiredo à porta do presidente do BES, Bataglia descobriu que entre os clientes da sua pequena empresa de gestão de fortunas estava também Ricardo Salgado. De quem é que o presidente do banco andaria a esconder dinheiro? Estes detalhes iriam mais tarde dar origem a um dos inquéritos-crime mais badalados da justiça portuguesa, o processo Monte Branco, com misteriosas ligações a uma casa de câmbios na Baixa de Lisboa que recebia e fornecia malas de dinheiro a clientes com contas na Suíça geridas pela Akoya.

Em breve, tudo se precipitaria. Nos EUA, o Lehman Brothers tinha caído com estrondo em 2008 e o prolongamento da crise financeira mundial foi apertando o cerco aos bancos das economias mais frágeis, como Portugal. Demasiado dependente do seu próprio banco, o GES tentava resolver discretamente uma gritante mas ainda desconhecida falta de liquidez. A Escom tinha sido feita do zero, sem dinheiro nenhum próprio, recorrendo sempre aos empréstimos do banco para investir. Acumulava 300 milhões de euros de passivo, um terço deles no BESA e o resto em Lisboa, no BES. Não tinha mais como cobrir os planos megalómanos em curso, incluindo a expansão do negócio dos diamantes e uma plantação de bananas que era suposto vir a empregar três mil pessoas.

Em dezembro de 2010, Ricardo Salgado e Manuel Vicente concordaram que a maioria do capital da empresa seria vendida à Sonangol por 480 milhões de dólares, mantendo Bataglia uma fatia de 10% e o cargo de presidente. Álvaro Sobrinho ofereceu-se para canalizar o pagamento de um sinal de 85 milhões de dólares através de uma empresa sua criada no Panamá. Sobrinho transferiu o dinheiro para uma conta da Espírito Santo Resources, mas o presidente da Escom nunca recebeu a sua parte de 30 milhões. “Como Ricardo Salgado não lhe disse nada, ficou à espera que a totalidade do pagamento se concretizasse para poder receber”, diz uma fonte que acompanhou o processo. “Era uma questão de dez dias.” Mas a venda não se realizou. E o dinheiro não foi devolvido à Sonangol. O caso tem estado a ser investigado pelo Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), no meio de outros processos que têm Salgado como protagonista. Até à falência do GES, em 2014, todos os projetos da Escom em Angola ficaram suspensos, numa espécie de limbo, à espera de melhores dias. Em Luanda, os homens do regime passaram a olhar para Bataglia com outros olhos. A relação de confiança com o presidente da Escom quebrou-se. E com isso, por arrasto, quebrou-se também a amizade que o unia a Ricardo Salgado, cultivada sobretudo a partir da criação do BESA, quando chegaram a ir de férias juntos, no Mediterrâneo, na costa da Turquia e de Itália.

Bataglia virou a cabeça para o outro lado, distanciando-se do destino dos Espírito Santo. Nas últimas semanas, vendeu os direitos de exploração das minas de Tchiedji, o último ativo de peso da Escom em Angola, onde a empresa investiu 240 milhões de dólares na fase de prospeção. São as duas únicas concessões, de um total de 14 atribuídas pelo Estado, que têm algum valor. Uma delas é um kimberlito e tem de ser mais bem estudada, mas a outra, de aluviões, está pronta a ser explorada. A posição foi comprada pelo grupo Geni, do general João de Matos, um dos primeiros parceiros da Escom em Angola.

João de Matos parece ter entrado numa guerra camuflada com o general Kopelipa, o omnipresente ministro de Estado, pelo controlo da indústria de diamantes, mas Bataglia não tinha muitas opções. Ou vendia as minas o mais rápido possível ou, com a licença de concessão a correr o risco de caducar, não as vendia mais. O empresário está concentrado em gerir danos e em fazê-lo depressa. No Congo, Nguesso veio em seu auxílio e financiou, em janeiro de 2015, a compra por um grupo de investidores congoleses da totalidade da participação de 67% detida até aí pelo GES, fazendo questão de que o português mantenha o resto do capital e continue como presidente.

A Escom está a morrer em Angola, mas vai sobreviver no Congo. Em Brazaville, a empresa teve uma faturação de 150 milhões de euros, e Bataglia, como sempre, tem vários planos em marcha. Está a construir um dos maiores complexos de escritórios e residências de Brazaville com o mesmo arquiteto que fez a torre Escom, Fernando Bagulho, e virou-se para a prospeção de coltan, o minério usado em todos os aparelhos eletrónicos portáteis. “Onde for mais difícil é onde eu quero estar, é aí que estão as melhores oportunidades”, costuma dizer aos amigos.

Para já, a maior dificuldade parece ser o confinamento que impôs a si próprio na torre Escom. Embora nem tudo seja mau. Além das vistas largas sobre a ilha de Luanda, no rés do chão funciona uma geladaria italiana gerida pela filha Rita e no segundo andar existe o Oon.dah, o restaurante de luxo de Isabel dos Santos. É lá que se cruza regularmente com Álvaro Sobrinho ou com José Guilherme, o construtor civil português que ofereceu 14 milhões de euros a Ricardo Salgado e que foi, tal como o banqueiro, constituído arguido no processo Monte Branco por causa disso. Cumprimentam-se, mas cada um senta-se na sua mesa. Sozinhos.

Texto originalmente publicado na edição de 1 de agosto da Revista E.