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Espelho meu, espelho meu, há alguém mais musculado do que eu?

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SERGEI GAPON/GETTY IMAGES

O culto do corpo perfeito e o aumento da massa muscular tornou-se uma moda que, quando se torna obsessão, pode levar ao consumo de anabolizantes, com graves riscos para a saúde

Procurados essencialmente por praticantes de culturismo e desportos de alto rendimento, os esteroides anabolizantes têm vindo a ganhar terreno junto da população frequentadora de ginásios, que busca um corpo musculado da forma mais rápida possível. Sendo substâncias químicas que aumentam os níveis de testosterona no corpo, conduzem ao aumento da massa muscular, força física e resistência, diminuindo os períodos de recuperação entre esforços. Convenhamos, é tentador.

Só que, além de serem considerados produtos dopantes, têm efeitos colaterais graves para a saúde. No desporto de alta competição, os atletas são acompanhados por equipas médicas, estão sujeitos a controlo antidoping e a sanções, mas o mesmo não acontece com os frequentadores de ginásios, que seguem as indicações de outros praticantes ou de instrutores. É sobretudo este tipo de utilização que preocupa a comunidade médica, porque os danos para a saúde, sobretudo nos mais jovens, são irreversíveis.

Apesar de a venda estar sujeita a receita médica (são utilizados, por exemplo, no tratamento de distúrbios hormonais e enfermidades), os esteroides, seja sob a forma de comprimidos, pó ou ampolas injetáveis, são mais fáceis de obter do que se possa pensar. Há farmácias que os vendem livremente, e na internet existem inúmeros sites com extensos catálogos de produtos, bastando um cartão de crédito para os adquirir.

Atenção aos suplementos

Com o crescente culto do corpo musculoso, que atrai mais atenção nas ruas, aumentou o consumo de anabolizantes, ainda que muitas vezes a ‘ajuda extra’ comece pelos suplementos alimentares. Há que fazer a distinção. Os suplementos alimentares são alimentos que foram processados e transformados em pó, cápsula ou líquido com o objetivo de reforçar a alimentação de uma pessoa que está doente ou de um atleta de alto rendimento, por exemplo. Oferecem ao corpo proteínas, aminoácidos, carboidratos e vitaminas que, quando associados a uma dieta balanceada e à prática regular de exercício, podem melhorar o rendimento, diminuir a fadiga e aumentar a massa muscular. Mas convém falar com um nutricionista e ter atenção onde e o que se compra. Em 2010, a empresa responsável pelo site “Bodybuilding.com” teve de apelar à devolução de lotes de 65 suplementos nutricionais, destinados maioritariamente ao desporto amador praticado em ginásios, por suspeitas de conterem esteroides.

Mortes precoces

Quando além do corpo também o espelho começa a pedir mais, a insatisfação constante com o corpo pode tornar-se uma obsessão, denominada transtorno dismórfico muscular ou síndrome de Adónis, que afeta principalmente os homens, levando-os à prática exaustiva de exercícios físicos. Daí até à toma de anabolizantes é um pulinho. E como os sintomas mais graves, na maior parte dos casos, tardam em tornar-se visíveis, facilmente se acredita que os problemas de saúde jamais acontecerão. Mas nenhum esteroide anabolizante é livre de efeitos colaterais, independentemente da dosagem ou duração de uso. O que muda de indivíduo para indivíduo é a forma como o corpo vai responder à droga e a intensidade dos efeitos colaterais.

De acordo com os dados da World Anti-Doping Agency, as modalidades com maior percentagem de casos positivos para agentes anabolizantes são as de força e cultura física, como Bodybuilding, CrossFit, Powerlifting e Halterofilismo. Mas o tema é tabu, e são muitos os que recusam reconhecer que o uso daquelas substâncias pode levar à morte, apesar de haver casos comprovados, como o de Andreas Munzer (nascido na mesma região austríaca de Arnold Schwarzenegger, o seu modelo e ídolo), que morreu em 1996, com apenas 31 anos. Segundo o que veio a público, a sua morte deveu-se à falência múltipla de órgãos, resultado de uma conjunção do abuso de substâncias esteroides anabolizantes, diuréticos e da percentagem muito baixa de gordura. A soma de uma dieta rígida, treinos intensos, drogas e falta de descanso tornaram Munzer uma bomba ambulante, prestes a explodir. O que veio a acontecer.

(Texto originalmente publicado na edição do Expresso 2236)