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A creche não morde

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Getty

Deixar o bebé ao cuidado de estranhos é uma das provas mais difíceis que os pais têm de enfrentar. Porém, estudos e pediatras demonstram que sair cedo do ninho pode até ser positivo desde que se procure qualidade e não se descure que a família continua a ser o fator mais determinante no desenvolvimento infantil

Desde o momento em que um filho nasce, os pais aprendem a separar-se dele. E uma das primeiras grandes provas que são levados a enfrentar é aquela em que o bebé sai do ninho exclusivamente familiar para frequentar uma creche. A necessidade de colocar o rebento ao cuidado de estranhos lança os pais num vórtice de ansiedade que os leva a visitar todos os estabelecimentos da sua área de residência, a compará-los entre si e a descartar a maioria por não cumprirem os requisitos básicos. Encontrado o local certo, a etapa seguinte não se afigura mais fácil: deixar lá o bebé simboliza o fim do idílio e o início de uma realidade feita de horários, atrasos, compensações, gestão e muita culpa.

Os medos nesta fase são muitos e variados, mas o principal talvez se resuma à pergunta: será a ida para a creche prejudicial ao desenvolvimento da criança? Se a maioria dos progenitores encara esta fase como um ‘mal necessário’, os estudos disponíveis demonstram que uma creche de boa qualidade pode ter um impacto positivo no crescimento infantil. Um dos mais fiáveis, levado a cabo nos Estados Unidos pelo National Institute of Child Health and Human Development (NICHD) — que seguiu, de 1991 a 2007, mais de mil menores com idades entre um mês e os quatro anos e meio — concluiu que, seja qual for o tempo de permanência na creche, o desenvolvimento da criança será sempre mais influenciado pelas características parentais e da família. Por outro lado, não encontrou diferenças de desenvolvimento entre as crianças que ficaram ao cuidado das mães e as que receberam cuidados externos desde tenra idade.

Num mundo ideal, a criança só deveria ingressar na creche aos três anos, porque é quando começa a socializar”, contrapõe Maria Júlia Guimarães, presidente da Sociedade Portuguesa de Pediatria do Neurodesenvolvimento. Porém, “uma vez que ninguém nasce com três anos, as mães trabalhadoras precisam de um estabelecimento de guarda desde mais cedo”. Sendo esse passo incontornável na maioria dos casos, é importante ter em conta a idade em que dá-lo pode tornar-se mais difícil: “Dos nove meses ao ano e meio, o bebé está no auge da chamada ‘reação ao estranho’ e mais ligada afetivamente ao seu cuidador, pelo que oferecerá mais resistência. Convém que a ida para a creche aconteça antes ou depois desta fase.” Para a pediatra, qualquer escolha deve valorizar “menos a preocupação pelas aquisições cognitivas e mais a capacidade de empatia do cuidador”.

Paula Julião, educadora de infância há 21 anos, concorda: “Um educador mais concentrado na parte cognitiva e que se esqueça do resto não terá um grupo com bons resultados. O lado afetivo motiva a criança a aprender.” Se a educação começa em casa, é também um trabalho de equipa, pois “o ‘terceiro adulto’, o educador, deixa de ser um estranho e passa a fazer parte da vida da criança.” Em alguns casos, o seu treino pode resultar num tipo de atenção mais eficaz para o desenvolvimento infantil do que, por exemplo, a dos avós. Assim destaca outro estudo realizado este ano pela economista Daniela del Boca, da Universidade de Turim, que em parceria com o grupo alemão IZA World of Labor revelou: “Em comparação com os cuidados não-parentais informais — ama ou avós —, os cuidados formais — creches — podem obter melhores resultados no que toca à preparação para a escola e à capacidade de resolver problemas.” Segundo esta pesquisa, o cuidado dos avós mostrou também tendência para “aumentar o mau comportamento” da criança.

Mais do que o binómio creche vs. pais ou creche vs. avós, a ênfase deve ser colocada na qualidade dos cuidados. Para Mário Cordeiro, “a creche é uma opção que não se deve diabolizar e que, se for de qualidade, a médio e longo prazo não fará uma grande diferença”. Pode até dar regras, normas e rotinas, “mesmo que de forma um bocado estandardizada”, indo “ao encontro da criatividade de que as crianças precisam nestas idades”. Dois aspetos preocupam o pediatra: os estabelecimentos que são meros “depósitos” e os pais que tudo fazem para compensar o tempo passado longe dos filhos. Quanto ao primeiro, “aconselho os pais a serem consumidores muito exigentes, a não se eximirem das suas responsabilidades e a intervirem sempre que necessário”. Já em relação ao segundo, mais complexo, diz Mário Cordeiro: “Os bebés aprendem a distanciar-se dos pais sem sofrer. E é importante que o reencontro não sirva para os tentar compensar, deixando a criança abusar e cedendo a birras e chantagens emocionais.” Quem disse que educar (filhos e pais) era coisa fácil?

(Texto originalmente publicado na edição do Expresso 2237)