Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Tu estás livre e eu estou livre e há um Tinder

  • 333

NIHAT DURSUN/GETTY

Todos os meses são feitos em Portugal 157 milhões de swipes no Tindre. Que aplicação é esta que leva cada vez mis portugueses a engatar quem anda por perto?

Um homem chega sozinho a um bar cheio de raparigas solteiras. Está decidido a encontrar uma companheira para passar a noite. Fisga ao balcão uma mulher ruiva, particularmente bonita, que parece disponível. Dirige-se a ela à campeão, sem rodeios: “Olá, tudo bem? Sou o Gonçalo, tenho 35 anos, estou solteiro, acho-te atraente... Podes falar-me dos teus interesses? Se tivermos muita coisa em comum, tomamos um chá em minha casa. Que tal?” Ela vira-lhe a cara.

Ele volta a repetir o processo com outras tantas mulheres igualmente atraentes que encontra no bar, até obter uma resposta positiva. Este episódio parece-lhe particularmente estranho? É o que se passa a todo o momento no Tinder, a aplicação social do momento, criada em 2012, nos Estados Unidos, para smartphones e tablets, que permite através da geolocalização que desconhecidos que estejam perto uns dos outros e que tenham os mesmos interesses e objetivos comecem à conversa num chat. Esta app, presente em 196 países e em 30 línguas diferentes, já conquistou mais de 50 milhões de utilizadores até ao momento e, de acordo com dados que o Tinder facultou ao Expresso, todos os dias acontecem mais de 12 milhões de matchs (encontros felizes).

Em Portugal, esta moda também arde sem se ver. Há cada vez mais portugueses que usam o Tinder para encontrarem rapidamente companhia amorosa ou sexual, à distância de um deslizar de dedo no ecrã. Tudo se processa de maneira bastante simples. Após instalada a aplicação (disponível para IOS e Android), o Tinder liga-se ao Facebook, e uma parte da informação que tem no mural é transferida. Assim, quem estiver por perto ligado à aplicação pode ver o seu rosto, o seu primeiro nome, a idade, algumas fotografias selecionadas por si e uma breve descrição. A partir daqui começa a caça ao tesouro, num jogo múltiplo de escolhas. A aplicação pergunta-lhe se está interessado em mulheres, em homens ou em ambos, qual a baliza de idades que procura (entre 18 e 50 anos) e a que distância máxima quer que essas pessoas se encontrem de si (num raio entre 2 e 160 quilómetros). Segue-se uma espécie de roleta de rostos que aparecem no ecrã. O que tem de fazer é deslizar o dedo para a direita (swipe right), se a pessoa lhe agradar, ou para a esquerda (swipe left), se quiser descartar a proposta e continuar a busca. Quando encontra alguém que lhe dê vontade de mais, e se a outra pessoa também tiver deslizado o dedo para o mesmo lado, dá-se a chama — aquilo que no Tinder se considera o match —, e têm ambos possibilidade de falarem numa janela de conversação privada. Depois, é com cada um, e a oportunidade sexual pode surgir em menos de um fósforo.

Em Portugal não existem ainda estudos sobre o uso desta app (ou de outras do género, como o Grindr, para utilizadores homossexuais), mas ela constitui uma solução prática para solteiros, descomprometidos ou solitários. A psicóloga clínica e investigadora do ISPA Ana Carvalheira afirma que nos últimos dois anos lhe têm chegado ao consultório homens que encontraram nesta app uma saída para os seus fracassos sexuais. “São sujeitos que sempre tiveram dificuldade em flirtar, abordar mulheres, e depois de terem descoberto o Tinder tem sido ‘um ver se te avias’. Por vezes, o Tinder superou-me a mim própria enquanto psicoterapeuta nos resultados pretendidos.

Quero com isto dizer que, da minha prática clínica, o Tinder tem particular vantagem para os tímidos, os introvertidos, os inseguros, os que têm menos recursos sociais, porque ali estão mais protegidos da rejeição, ensaiam comportamentos de sedução com mais controlo e conseguem encontros imediatos que, de outra forma, não seriam possíveis.” A investigadora usa a metáfora do aquário para melhor descrever este filtro online de pessoas para engate. “É como ir à pesca. Em vez de lançarmos a cana na praia e arriscarmo-nos a ficar a tarde inteira sem pescar nada, lançamos a cana dentro de um aquário com um cardume de sardinhas. Haverá decerto alguma sardinha que me agrade.”

Há quem veja esta aplicação como um meio apenas para comportamentos promíscuos, com base em escolhas superficiais feitas a partir de uma fotografia. Patrícia Pascoal, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica, não se revê nessas críticas. “Parecem-me bastante moralistas e redutoras. Porque só revelam um lado da moeda, como se a atração interpessoal e sexual, a vontade de concretizar encontros e de conhecer pessoas novas além do boy next door, fosse uma coisa negativa, perigosa. E isso é castrador!” Para Patrícia, esta é uma versão digital e bastante melhorada da velha casamenteira ou do blind date. “Além de ser uma forma prática de manter relações fugazes, ajuda a enganar a solidão e a empurrar problemas relacionais e de compromisso para a frente. Noutros casos, surge como uma excelente forma de conhecer pessoas novas quando se viaja para outros destinos e até para começar uma relação amorosa de parâmetros convencionais.” Porque não?

(Texto originalmente publicado na edição do Expresso 2239)