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Quando fazemos os nossos bebés?

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JAY DIRECTO/GETTY IMAGES

Setembro é o mês com mais nascimentos nos últimos 12 anos e maio esteve no topo na década de 1980. Recuando nove meses, chegamos a dezembro e agosto como os meses de maior conceção. Só que cientificamente não há explicação

Chegado o calor e, para alguns, as férias, uma pausa no trabalho e tempo para desacelerar, poderá perguntar-se: será esta a altura em que mais aumenta a atividade sexual dos portugueses e a intenção de terem filhos? Não há uma resposta científica para esta pergunta, mas o que podem dizer as estatísticas dos nascimentos em Portugal nos últimos 35 anos?

Os números do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que maio foi, durante a década de 1980 e início de 1990, o mês com mais nascimentos — o que nos remete para agosto como o momento da conceção dos bebés. No final dos anos 90, a tendência deixa de ser tão clara e registam-se oscilações, até que, nos últimos 12 anos, setembro passou a ser o mês com mais bebés — ou seja, foram concebidos por volta de dezembro.

Poderá então dizer-se que o mês de dezembro é atualmente a altura em que os portugueses têm maior atividade sexual com intenção de procriar? Científica ou biologicamente, não se pode dizer isso, respondem os terapeutas sexuais, psicólogos clínicos, obstetras e ginecologistas ouvidos pelo Expresso. “Não há nenhum estudo científico que prove haver uma altura em que se tenha mais filhos e não há picos de fertilidade durante o ano, portanto biologicamente não há nenhuma explicação. Creio que seja apenas uma coincidência”, defende Teresa Bombas, presidente da Sociedade Portuguesa de Contraceção, especialista em ginecologia e obstetrícia, lembrando outros fatores de peso para a decisão de ter filhos, como a questão económica.

Fruto do acaso ou uma coincidência é também a explicação que Sandra Vilarinho, presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica, dá aos picos de nascimentos, confirmando não ter nenhuma prova científica que os justifique. Porém, partindo de uma “base empírica”, a psicóloga e terapeuta sexual lembra que dezembro e agosto são “períodos de festividades, alturas em que as pessoas estão mais disponíveis e em que há menos sobrecarga laboral”, o que poderá levar a uma maior atividade sexual.

Partindo dos dados das suas consultas de terapia, Sandra Vilarinho diz que o maior número de pedidos de apoio surge entre fevereiro e maio, estendendo-se até julho. “Voltam a aumentar entre outubro e novembro, e há um espaçamento maior, com menos pedidos, entre dezembro e janeiro”, afirma, realçando que poderá haver vários motivos que expliquem estes números.

Quanto à época do ano, a especialista aponta, também “empiricamente”, a primavera e o verão como as “alturas mais propensas para a atividade sexual”, durante as quais “há mais sensualidade e os casais aderem a iniciativas com maior facilidade”.

Fevereiro surge quase todos os anos com o menor número de nascimentos — para o que contribuirá ser o mês com menos dias. Abril também tem menos nascimentos do que os restantes meses, assim como junho — sobretudo a partir do final de 90.

Na opinião de Ana Carvalheira, psicóloga e investigadora do ISPA — Instituto Universitário, a estação do ano não é “potenciadora ou inibidora” da atividade sexual. “O desejo sexual de homens e mulheres é multifatorial. Por conseguinte, as estações do ano ou o clima seriam apenas uma pequena variável numa equação complexa e com muitas variáveis”, defende. “E não é necessariamente o calor que potencia a atividade sexual, pois o mesmo se poderia dizer do frio.”

Foi precisamente no mês frio de dezembro de 2009 que Catarina Matias, hoje com 31 anos, engravidou de Gonçalo, um dos 9548 bebés nascidos em setembro de 2010. “Tínhamos sentido esse desejo de ter filhos, e o Gonçalo foi planeado, mas nunca pensámos na data do nascimento. Sei que muitos casais planeiam ter filhos de maneira a nascerem na primavera, para que já sejam maiorzinhos no inverno, quando há maior risco de apanharem alguma doença”, conta a enfermeira. Em comum com as outras mães de bebés nascidos em setembro, Catarina teve um final de gravidez no pico do verão. “Foi mais exigente. Inchei muito, e com o calor a gravidez é mais difícil de suportar.”

Haverá então uma melhor altura do ano para fazer um filho? Na opinião dos especialistas, não há. Quanto a uma gravidez no verão, Luís Graça, presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal, diz que essa é a “altura em que é mais desagradável para a grávida”, mas trata-se apenas de uma questão de conforto. “Risco não existe de maneira nenhuma.” Quanto ao pico de nascimentos, o especialista tinha uma impressão contrária. Com base nos números de partos no Hospital de Santa Maria, desde 2005, Luís Graça sustenta que, naquela unidade, é em maio que se regista o maior número de nascimentos. E da mesma maneira que um dia confirmou a partir dos dados não existir coincidência entre um maior número de partos e as noites de lua cheia, também não vê um padrão nos nascimentos. “Poderá simplesmente ter a ver com o acaso.”

(Texto originalmente publicado na edição do Expresso 2231)