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Fazer negócio rápido, quente, improvável, arriscado – mas dentro da lei

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António vive há sete anos no Cazaquistão e tem uma datcha (casa de campo) nas montanhas acima da cidade de Almaty

António Bettencourt Henriques

Ajudar portugueses a montar empresas no Cazaquistão é uma parte do trabalho de António Bettencourt Henriques. Trocou Coimbra por Almaty há mais de sete anos, já se casou e tem uma filha de sete meses e meio. Falar russo e fazer negócio “rápido, quente, improvável, arriscado – mas dentro da lei” são os hábitos que já não quer perder. De que sente falta? De uma bica pela manhã. As experiências de António, a nona história da série “Em pequeno número”, que o Expresso publicou na semana de Natal e que agora prossegue na de ano novo sobre portugueses que vivem em regiões em que quase não os há

Fica no sopé de montanhas que fazem parte dos Himalaias. E de todos os pontos da cidade vê-se um pico de 7010 metros de altura, sempre com neve. Almaty é a capital cultural do Cazaquistão, “a Paris da Ásia Central”, como a chama António Henriques, um português entre um milhão e meio de habitantes na cidade do Cazaquistão.

Foi há cerca de sete anos que lhe surgiu uma oportunidade para deixar Portugal e ir para outro país: Áustria, China e Cazaquistão eram os destinos mais atrativos. “O desconhecido e a dimensão do país levaram a melhor. Pensei sempre que haveria coisas boas a encontrar, mesmo que poucos soubessem delas.”

Se recuar ao passado, António Bettencourt Henriques, 31 anos, recorda que a primeira viagem que fez fora de Portugal foi para ir a Paris, no Natal, com a família. “A primeira vez, sozinho, foi para fazer um tour por Alemanha, República Checa e Eslováquia. Sempre gostei de me perder sozinho. Devo ter estado em 36 países até agora, mas há quem colecione muitos mais.”

Só que o Cazaquistão foi diferente: era a primeira vez que deixava o país onde nasceu para ir viver para outro. “Nasci e cresci na ilha da Madeira. Jurei e enganei-me quando pensei que nunca iria para um país sem costa oceânica.”

Ainda que não viva num país perto do oceano, António estruturou a sua vida e criou uma família no Cazaquistão. Casou-se e teve uma filha há sete meses e meio. “Sinto este país como um pouco ‘meu’, emocionalmente falando.”

Dos -40ºC aos 40ºC

Inicialmente, quando partiu para o Cazaquistão, o objetivo era assumir a direção de um dos ramos da AIESEC, uma associação internacional de estudantes. Nessa altura estava a estudar economia na Universidade de Coimbra, onde conheceu a associação internacional, chegando a ocupar o cargo de presidente. Mas, naquela altura, optou: o curso ficava para trás, o Cazaquistão vinha pela frente.

Quando chegou, a maior diferença que sentiu foi o clima. “Em Astana faz regularmente 40ºC no verão e -40ºC no inverno. As escolas fecham se passam os -30ºC.”

E Astana – capital do país, sendo que a palavra significa exatamente ‘capital’ em cazaque – é a outra cidade onde o português passa uma parte da semana em trabalho.

António fotografado num dia com -30ºC em Ust-Kamenogorsk

António fotografado num dia com -30ºC em Ust-Kamenogorsk

António Bettencourt Henriques

“A vida no país é má para quem trabalha na rua no inverno, literalmente a picar gelo. De resto, é uma economia emergente com muitas oportunidades para as pessoas se valorizarem e abraçarem oportunidades para as quais não têm de estar especialmente preparadas. Aprendem pelo caminho. Não há fome neste país, mas há um fosso social notório.”

Há cinco anos que António trabalha como consultor. “Tenho ajudado empresas, na sua maioria portuguesas, a instalar-se e trabalhar cá. Eu farejo, eles mordem. Nunca trabalhei noutra coisa e trabalhar para mim próprio, ao mesmo tempo que ajudo tantos outros, é o que eu quero fazer o resto da vida.”

As empresas portuguesas que têm chegado ao Cazaquistão passam, por exemplo, pelas áreas da eletromecânica, processamento de transações de sistemas financeiros e arquitetura de grandes obras. “Em geral, as pessoas mais operativas têm sido jovens, mas a vinda de administradores é comum.” Apesar disso, são poucos os portugueses que vivem no país.

Segundo a recolha de estatísticas feita pelo Observatório da Emigração, junto de fontes como os institutos de estatística de cada país, a ONU e os consulados, viviam menos de 50 portugueses no Cazaquistão em 2008 – e em 2011 menos de 50 emigrantes ou descendentes de portugueses.

“Existem dois arquitetos de momento de uma empresa que é minha cliente. Estão a construir um edifício no centro de Astana. Será um ícone.” Fora desses dois casos, António conhece o novo embaixador, alguns pilotos da Air Astana e “mais uma ou outra pessoa com contratos a termo”.

A rotina no Cazaquistão

O seu dia-a-dia é agitado e tem de estar sempre em contacto com as pessoas com quem trabalha, que tendem a viver na Europa. “Até a dormir tenho o telemóvel disponível, porque tenho de lidar com as diferenças horárias. A rotina não existe e depende sempre muito dos assuntos e de eventuais visitas ou viagens. Passo em média três dias da semana em Astana e os fins-de-semana em Almaty, cada semana. São uma hora e meia de voo para cada lado.”

Fotografia tirada nas montanhas Tien Shan em Almaty

Fotografia tirada nas montanhas Tien Shan em Almaty

António Bettencourt Henriques

A sua vida organiza-se entre o trabalho. “Muitas reuniões, muitos cafés e restaurantes, algum ginásio e visitar a minha datcha [casa de campo] nas montanhas acima de Almaty.”

Sobre a história do país, o português lembra que a sociedade cazaque era “puramente nómadas há 100 anos”, tendo passado por 70 anos sob o regime da União Soviética.

Foi em dezembro de 1991 que o país declarou independência – a última das repúblicas soviéticas a declarar independência. Desde então, o presidente do Cazaquistão é o mesmo: Nursultan Nazarbayev, de 75 anos.

Segundo as estatísticas mais recentes, do World Factbook da CIA, o país tem atualmente 18,2 milhões de habitantes, divididos entre várias etnias: cazaque (63,1%), russa (23,8%), uzbeque (2,9%), ucraniana (2,1%), entre outras.

A cultura e os hábitos cazaques fazem parte da sua rotina. E quando lhe perguntamos o que hábitos já não conseguiria deixar de ter no seu dia a dia, António é claro. “Falar russo. Comer carne de cavalo depois de treinar. Ser o António e não um António. Não ter de tratar ninguém, ou ser tratado, por Doutor ou Engenheiro. Fazer negócio: rápido, quente, improvável, arriscado – mas dentro da lei.”

Astana é uma das duas cidades onde António trabalha durante a semana

Astana é uma das duas cidades onde António trabalha durante a semana

AFP / Getty Images

Quanto a um regresso, António afasta essa possibilidade pelo menos enquanto for jovem. “É bom poder escolher o país onde se quer trabalhar e passar férias no país onde se nasceu. Ajuda a manter a visão idealizada da pátria”, diz.

Mais ainda, a sua vida familiar está precisamente ali. Com a filha, que já nasceu no Cazaquistão, António só fala em português. “A mãe fala-lhe em russo e entre nós usamos também muito o inglês. A ligação que ela terá ou não a Portugal será para ela própria decidir.”

Sobre a sua própria ligação com o país onde a filha já nasceu, António não tem dúvidas. “Quem se habitua a uma economia em que há tanto por fazer, o que implica uma dose forte de imprevisibilidade no dia-a-dia, tem dificuldade em mudar de ritmo.”

Além disso, hoje em dia, conta, “quando a companhia é cazaque, a maior parte das vezes falo em “nós”, e sai-me naturalmente.” Quanto ao que lhe faz falta? “A bica de manhã – os cafés aqui abrem às 10 horas.”

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