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Doutor, mas na net diz que...

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O acesso online à informação sobre saúde gerou pacientes mais exigentes e interventivos, criando novos desafios à classe médica. Porém, na selva da web, é preciso literacia para encontrar fontes fiáveis. Em Portugal, esse é ainda um caminho a percorrer

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

Jornalista infográfica

Imaginemos o seguinte: um indivíduo vai ao médico, levando-lhe os resultados de um simples hemograma. Antes de entrar no consultório, pesquisou na web os valores deste exame e encontrou os glóbulos brancos muito acima do normal. Leu que a alteração pode ser sinal de leucemia ou linfoma e, assustado, questionou o médico sobre a nova ‘realidade’. Este, já habituado às construções mentais de pacientes mais informados mas em geral mais hipocondríacos, desmontou o pesadelo, explicando o que nenhum site pode fazer: que o diagnóstico é um processo complexo de análise de diversos fatores e não a hegemonia estanque de um fator isolado.

O livre acesso à informação sobre saúde na internet mudou radicalmente a relação entre médicos e pacientes. Veio oferecer ao cidadão a possibilidade de se tornar mais ativo face à sua própria saúde, reforçando a sua autonomia. Do outro lado da moeda, cria um desafio à classe médica, hoje confrontada com pacientes mais capacitados e que chegam à consulta com perguntas concretas e direcionadas. Se o médico já não é apenas veículo de conhecimento mas também tradutor e intérprete de toda uma série de dados que lhe cabe validar e contextualizar, o paciente abandonou o papel passivo e exige ao profissional de saúde que o integre nas decisões a tomar.

“Antes, havia um grande desnível de informação entre o médico e o paciente, o que tornava a consulta mais paternalista. Grande parte das decisões eram tomadas pelo médico. Hoje, migrámos para um modelo que permite uma tomada de decisão partilhada”, reconhece Carlos Martins, médico de família no Instituto CUF do Porto. Para ele, “não faz sentido tentar dissuadir o doente de ir pesquisar na web”, até porque este irá fazê-lo de qualquer modo. Faz sentido, sim, orientá-lo num universo pejado “de informação ambígua, errada e com segundos interesses”, que tende a mostrar “o lado dourado da medicina” e não os “riscos decorrentes da realização de certos exames ou da invasão médica desnecessária”. Em 2013 coautor de um estudo sobre a utilização dos serviços de saúde em Portugal, Carlos Martins concluiu que os portugueses abusam dos exames médicos, comportamento “agigantado” pelo uso maciço da internet.

No Reino Unido houve recentemente notícia de dois casos em que o excesso teria sido aconselhável. Um deles é o de Bronte Doyne, que aos 19 anos sofria de uma forma rara de cancro de fígado e suspeitou de uma recidiva. Implorou aos médicos por respostas, mas só obteve a indicação de deixar de ‘googlar’ os seus sintomas. Doyne morreu 16 meses depois de lhe ter sido dito que sobreviveria. Já Sadie Rance, de 22 anos, queixava-se de dores abdominais e obstipação, o que os médicos trataram com laxantes. Quando o mal-estar piorou, ela recorreu à net e percebeu que possuía oito de nove sintomas de cancro do ovário. Citada pelo “Telegraph”, disse ao médico: “Não saio daqui até me dizer que não preciso de ir ao hospital.” Uma panóplia de exames mais tarde e descoberto um tumor do tamanho de uma meloa, o clínico pediu-lhe desculpas.

“Um bom médico tem de ter humildade”, diz António Vaz Carneiro, diretor do Centro de Estudo de Medicina Baseada na Evidência, da Faculdade de Medicina de Lisboa. E se situações como as relatadas são “raríssimas”, é preciso ter em conta a complexidade do raciocínio clínico. “Mal de nós se de cada vez que temos uma dor de cabeça fizermos uma TAC”, ironiza, explicando que a informação pura e isolada tem de ser trabalhada e relacionada com outros elementos. Já lhe aconteceu receber pacientes que levavam um estudo novo ou outra sugestão de tratamento, recolhidos após uma pesquisa na web. “O que faço é analisá-lo e, se achar válido, incorporá-lo”, reconhece. Está provado que “doentes bem informados têm melhores resultados clínicos e menos complicações”.

No mês passado, o “British Medical Journal” publicou uma investigação a 23 symptom checkers — sites de diagnóstico — na qual se aponta serem “superiores a uma pesquisa no Google” mas “deficientes” e “desadequados” no caso de um problema de saúde grave. Por sua vez, a socióloga australiana Deborah Lupton confirmou, num artigo para a “Social Science & Medicine”, a existência de mais de 100 mil apps médicas e de saúde, “de qualidade variável” — desde as que são feitas com o apoio de profissionais às que surgem da iniciativa de empreendedores sem ligação a este campo.

Em Portugal, a relação dos cidadãos com as tecnologias digitais no que à saúde diz respeito é estudada desde 2007 por uma equipa do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ICSTE que, apoiada pela Fundação Calouste Gulbenkian, já realizou três estudos. Um deles, o projeto “SER — Saúde Em Rede”, de 2013, apurou que 86% das pesquisas de saúde pretendem informação sobre um problema específico e que 82% servem apenas para aumentar os conhecimentos. Só 23% das buscas são feitas com o intuito de autodiagnosticar. Agora, o “Inquérito à Literacia em Saúde”, cujos resultados preliminares foram apresentados em abril deste ano, vem afinar o perfil de quem procura, pondo a descoberto que a massificação do acesso à internet não redunda numa maior autonomia dos cidadãos. “O que acontece é que o acesso é desigual, não do ponto de vista tecnológico mas daquilo que fazemos com ele, na capacidade de interpretar a informação. Não acedemos com sucesso à informação se não soubermos o que procuramos. É preciso literacia para pesquisar”, explica Rita Espanha, uma das coordenadoras do inquérito.

Por outras palavras, se “a quantidade de pessoas que acedem à informação online é cada vez maior, não é líquido que isso produza cidadãos mais autónomos na sua relação com a saúde”. Num país onde a internet está bastante disseminada, 49% dos inquiridos apresentam um índice de literacia em saúde considerado inadequado ou problemático. Por outro lado, são os mais jovens — abaixo dos 45 anos — que exibem um nível de literacia maior. Já do lado dos profissionais, Rita Espanha verificou que existe “uma relação cada vez mais intensa com as tecnologias”, nem sempre voluntária, mas em qualquer caso “incontornável”. “Os médicos recusavam a ideia de que o cidadão ficava mais bem informado usando as tecnologias. Não queriam ser questionados ou postos em causa. Porém, hoje têm de lidar com isto, bem ou mal. É a realidade objetiva.”

(Texto originalmente publicado na edição do Expresso 2230)