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À noite há ninhos de vespa asiática para queimar

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Rui Duarte Silva

A espécie invasora entrou pelo Minho e já anda a sul do Douro. As autarquias estão a dar-lhe luta. A Plataforma SOS Vespa estima que 65% dos 2906 ninhos identificados em território nacional foram já destruídos. Mas nem tudo corre bem

O primeiro momento é de observação da árvore, do terreno, dos ramos, à procura da melhor forma de fazer o maçarico avançar entre os galhos até atingir o ninho de vespas no ângulo certo, através da abertura, para garantir que se uma vespa tentar fugir “ficará com as asas queimadas e morre”, explica João Valente, apicultor durante o dia, exterminador da espécie asiática à noite.

Enquanto prepara o ataque, o olhar nunca se desvia do alvo, à procura de sinais de atividade. “Olha uma a chegar. Vamos ter de esperar”, avisa pelas 17h10, resignado a aguardar o anoitecer para iniciar a tarefa, seguindo à risca o protocolo do Plano de Ação para a Vigilância e Controlo da Vespa velutina em Portugal. O objetivo é garantir que todas as vespas obreiras e as vespas fundadoras, se as houver, estão recolhidas no ninho e morrem, explica.

Naquela noite, em vésperas de Natal, tem quatro ninhos para destruir, num trabalho de equipa com Luís Bento, da Proteção Civil do Porto. O primeiro, junto ao Palácio de Cristal tem 40 centímetros de diâmetro e está a três metros de altura, numa pequena figueira. É um trabalho simples, em que veste o fato de apicultor e usa um queimador, alimentado a gás. A seguir, na urbanização de Santa Luzia, vai precisar da colaboração da Polícia Municipal e dos Bombeiros Sapadores para destruir um ninho com 80 centímetros de diâmetro, a 20 metros do chão, e ainda terá de cortar ramos de árvore para a escada chegar perto do alvo.

Desde o início do ano até 29 Dezembro, a Plataforma SOS Vespa registou 2906 ninhos desta espécier exótica em território nacional. Destes, "1896 foram já assinalados como destruídos", informa o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), que coordena a plataforma. Por dizimar, estimam, existem ainda 681 ninhos, a que acrescentam outros 329 "ainda por confirmar".

Rui Duarte Silva

Predadora perigosa

Os distritos de Viana do Castelo, Braga e Porto são os mais afetados pela praga, que entretanto já desceu para sul do Douro e chegou ao distrito de Coimbra.

No Porto, onde já foram identificados 150 ninhos e destruídos 100, João Valente apresenta como recorde pessoal “nove queimas numa noite” ao lado de Luís Bento. Aprendeu a admirar a engenharia da vespa asiática, que constrói as casas “por andares, como uma torre de apartamentos, com temperatura constante”, mas não hesita na hora da destruição. “Estas vespas não fazem polinização e comem as abelhas polinizadoras”, diz.

A espécie entrou na Europa em 2004 e chegou a Portugal em 2011. Predadora da abelha europeia, é uma ameaça para a agricultura e para a biodiversidade. Avançou a norte, em especial pelo Litoral, entre o Minho e o Porto.

No último ano, a quebra na produção de mel no distrito de Viana do Castelo, rondou os 50%. Matosinhos passou de 16 casos, em 2014, para 120 em 2015, o que “revela o crescimento exponencial da espécie”, como comenta Susana Gonçalves, chefe da divisão local da proteção civil. Guimarães registou 60 ninhos identificados e eliminados em 2014, contra 470 identificados e 420 eliminados em 2015, o que leva Jorge Cristino, coordenador da proteção civil do concelho a falar de “um combate desigual, que obriga a empenhar meios numa missão sem fim à vista”.

“Tudo tem de ser feito fora do horário normal. Estava implícito que isto seria algo sazonal, mas está a tornar-se uma rotina e isso terá consequência na organização de outros serviços”, comenta.

Rui Duarte Silva

À espera de verbas

Entre municípios, apicultores e especialistas há críticas comuns ao quadro atual. A Plataforma SOS Vespa, coordenada pelo ICNF, permite mapear, centralizar e apoiar a identificação/controlo da Vespa velutina, mas tem tido problemas técnicos constantes.

Questionado pelo Expresso sobre a dimensão do fenómeno em Portugal e as dificuldades na estruturação do combate, o ICNF argumenta que "a plataforma encontra-se disponível e a funcionar", mas admite que "atualmente não estão disponíveis os mapas de suporte à georreferenciação dos locais de ocorrências", mas que "brevemente estarão disponíveis".

Oficialmente, a destruição dos ninhos é da responsabilidade das câmaras, o que significa que a missão é entregue à proteção civil, aos bombeiros ou a empresas privadas que cobram, em média, €70 por unidade. Mas mais de três anos depois da destruição do primeiro ninho, ninguém esperava que as autarquias estivessem, ainda, sozinhas, a trabalhar cada uma por si.

A vespa asiática ainda não foi declarada oficialmente uma espécie invasora, “o que traz limitações ao seu combate”, sublinha José Manuel Grosso da Silva, entomólogo do Cibio, centro de investigação da Universidade do Porto.

Todos continuam à espera das verbas para investir no estudo da espécie e na prevenção, mas os €350 mil relativos a uma candidatura via POSEUR (Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos) tardam a chegar o que “pode tornar obsoleto o plano porque as vespas vão avançando no terreno”, alerta Tiago Moreira, apicultor e consultor do Centro de Engenharia Biológica da Universidade do Minho.

O ICNF confirma que "promoveu a disponibilização de verbas para candidaturas ao POSEUR, para que esse estudo possa ser efectuado", já que se trata de "uma espécie exótica com características de invasibilidade e se conhece muito pouco sobre as características biológicas da espécie".

É urgente, dizem os apicultores, desenvolver armadilhas seletivas, capazes de apanhar as vespas asiáticas, em especial na primavera, sem eliminar outros insetos, e de encontrar iscos eficazes. Para já, usam-se garrafões e garrafas de plástico com soluções açucaradas e fermentadas que combinam sumo de fruta, groselha, cerveja ou vinagre, mas Paulo Russo, do laboratório apícola da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro acredita que o futuro exige “a síntese de uma feromona da vespa (substância química odorífica que a espécie usa para comunicar entre si)”.

Em Portugal, a vespa asiática tem revelado capacidade de adaptação ao terreno e apresenta já especificidades nacionais como um ciclo de vida mais longo, a permitir a sobrevivência durante o inverno, ou um avanço mais lento (60km/ano) do que é habitual. Se avançasse 100 km por ano, como em França, já teria passado Lisboa.

Rui Duarte Silva

P&R

Onde existe a vespa asiática (vespa velutina nigrithorax)?
Esta espécie não indígena, que vive no Norte da Índia, Butão e China e é predadora da abelha europeia, entrou na Europa por França, em 2004. Viu a sua presença em Espanha confirmada em 2010, em Portugal em 2011 e em Itália em 2012. Em território nacional, entrou por Viana do Castelo, onde o primeiro ninho foi destruído em novembro de 2012, e está a avançar em especial pelo litoral, junto a linhas de água, com maior pressão entre o Minho e o Porto. Os registos oficiais de ninhos destruídos mostram que a vespa asiática já chegou, no interior, até Ribeira de Pena (Vila Real) e, a sul, até Cantanhede (Coimbra).

Porque é uma ameaça?
Para o ser humano, em circunstâncias normais, não é mais agressiva do que a vespa autóctone, mas é uma ameaça para a população de abelhas, para a apicultura e para a agricultura. A vespa asiática, com uma estratégia de reprodução mais agressiva do que a de outras espécies semelhantes, alimenta-se de abelhas e de outros insetos polinizadores, o que tem efeito direto na produção de mel e na diminuição da polinização vegetal, podendo, também, provocar, a médio prazo, impactos significativos na biodiversidade. As estatísticas variam de acordo com a zona do globo, mas 60% a 70% da alimentação humana depende da polinização das abelhas.

Porque se estão a destruir os ninhos no inverno?
Porque boa parte deles estão nas árvores e com a queda das folhas tornam-se visíveis. Como não vão estar em atividade no próximo ano evitam-se, assim, falsos alarmes no futuro. Ao contrário do que se passa em França, em Portugal, muitos ainda estão em atividade uma vez que o ciclo de vida da vespa asiática no país é mais longo. A espécie, com um ciclo biológico anual, apresenta a máxima atividade no verão, quando ataca em massa as colmeias. No inverno, as rainhas morrem e as fundadoras (rainhas no ciclo seguinte) hibernam em árvores, rochas ou no solo, até fevereiro ou março. Depois fundam a sua colónia. Um ninho pode atingir um metro de altura e 80 centímetros de diâmetro e pode albergar cerca de duas mil vespas obreiras e 150 fundadoras.