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Em Portugal nascemos bem, em Angola nem tanto. Diz a ONU

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d.r.

Quando 2016 começar a chegar e as crianças do próximo ano nascerem, sem saber e dependendo do país da lusofonia onde nascem, estarão a descontar a idade com que vão morrer. Em Portugal nascem bem, em Angola nem tanto. Pelo menos tendo em conta as estastísticas das Nações Unidas

Ninguém escolhe o país em que nasce, nem qual a língua materna ou a cor do passaporte que um dia poderá usar. Ninguém escolhe a hora em nasce nem os pais que terá. Mas estas são circunstâncias determinantes até para estimar a hora da morte de uma pessoa. E quando a contagem regressiva para a meia-noite de 1 de janeiro começar e as passas estiverem a ser comidas num desejo de sorte, algumas crianças estarão a nascer. Sem nada escolher. Algumas terão direito a fotografias nas páginas dos jornais como o bebé número um do país de origem, mas a maioria passará apenas a fazer parte do anonimato estatístico. E é aí, nas listas de números, que certas respostas fundamentais vão estar: se nascer em Portugal, uma pessoa tenderá a viver até aos 80 anos. Mas se nascer em Angola, tudo indica que não chegará aos 52 anos. Pior, 167 em cada mil crianças angolanas não vão nem completar cinco anos de idade. Uma em cada seis.

Segundo as Nações Unidas, um bebé brasileiro viverá até aos 74 anos e um cabo-verdiano até aos 73. Mas em alguns países, além de Angola, a morte chega sempre cedo de mais. Na Guiné Bissau, o relógio acelera quando uma pessoa se aproxima dos 54 anos. Já em Timor, a espessura do tempo parece ser maior, com uma expectativa média de vida de 66 anos. E, assim, oscilando entre sotaques e esperança uma pessoa tenta calcular o tempo de vida.

Mas há vidas e vidas. Porque os indicadores das Nações Unidas fazem a distinção entre simples expetativa de vida e expetativa de vida saudável. Em Angola, a partir dos 46 anos há vida, já não há saúde. Pelo menos, tendo em conta as estatísticas. E se for um homem angolano, o limite são 45 anos. Em Portugal, consegue-se alargar o conceito de saúde até aos 77 anos e no Brasil até passa ligeiramente dos 70. O cálculo é feito tendo em conta o número de óbitos e as idades em que acontecem. As contas são difíceis de perceber para leigos, mas os especialistas garantem que têm em conta os censos, as taxas de mortalidade, de doenças crónicas e de morbilidade (relação entre os casos de doença e o número de habitantes de uma determinada população).

Nascer em Angola

Uma das principais economias africanas, a terceira da região subsaariana, ostenta o título do país com a mais alta taxa de mortalidade infantil das crianças com menos de cindo anos: 157 mortes em cada mil nascimentos em Angola. À frente da República Centro-Africana, Somália ou Chade, com 130 a 139 mortes. Angola, apesar do petróleo e dos diamantes, é o país em que o ritmo de redução da mortalidade foi menor, segundo a UNICEF. No Luxemburgo, Islândia e Finlândia morrem duas crianças por cada mil que nascem. Nascem todas no mesmo planeta, mas num outro mundo, com outra língua e outra cor de passaporte.

A taxa de mortalidade infantil em Portugal é uma das mais baixas do mundo, segundo o último relatório da UNICEF. No documento intitulado "Níveis e Tendências de Mortalidade Infantil 2015" constata-se que das 15 crianças mortas antes de cinco anos em cada mil habitantes, a taxa desceu para quatro já este ano, colocando-nos entre os 14 países com melhores resultados, em conjunto com a França, Alemanha, Holanda ou Espanha.

Entre 1990 e 2015, o Brasil reduziu em 73% a mortalidade infantil, cumprindo a meta da ONU para baixar em dois terços este índice. Atualmente morrem 16 crianças antes de completarem cinco anos, a cada cem mil nascimentos. O resultado brasileiro supera mesmo a média mundial de 53% nos últimos 25 anos, tendo os programas de transferência de renda sido considerados fundamentais.

Melhor, não bom

Cabo Verde vem a seguir a Portugal e ao Brasil, entre os países lusófonos, com uma taxa de 26 mortes por mil nascimentos, seguido por São Tomé e Príncipe (51), Timor Leste (55), Moçambique (87), Guiné Equatorial (96) e Guiné Bissau (124). Assim, a sorte de nascer lusófono vai depender do sotaque do português que falar. Quando se consultam os manuais de desenvolvimento infantil, percebe-se que aos cinco anos uma criança gosta de imitar os outros, adora observar o mundo que a rodeia, começa a distinguir o real do imaginário, mas sonhos e pesadelos invadem o seu sono. Inventa histórias e conversa muito. Isso se não tiver morrido, antes de aí chegar.

A organização das Nações Unidas explica ainda que a mortalidade infantil desceu 76% em 25 anos. Fazendo as contas, é como se mais de seis milhões de vidas infantis fossem salvas. Apesar do otimismo que pode resultar desta avaliação, a ONU sublinha que cerca de 16 mil crianças continuam a perder a vida diariamente em todo o mundo. Cerca de 45% das mortes infantis ocorrem no período neonatal, ou seja, nos 28 primeiros dias de vida. Prematuridade, pneumonia, complicações durante o parto, diarreia, infecções e malária são as principais causas. Metade morrem simplesmente por estarem desnutridas. Desde 1990, 236 milhões de crianças morreram em todo o mundo, antes de chegar aos cinco anos.