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Mais valia aventurar-me

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Sérgio Silva foi para a cidade malaia de Kuala Lumpur, em outubro, e trabalha numa empresa de produção de eventos

MOHD RASFAN / Getty Images

Sérgio teve de reaprender a pedir água quando vai a um café. “Quando pedimos um copo trazem sempre a água a ferver. Se quisermos fria, temos de pedir gelo.” Sérgio teve de reaprender fiscalidade: paga 25% de impostos, vão baixar para cerca de 6% ao fim de 187 dias. Sérgio teve de reaprender a sonhar: “O trabalho existe em Portugal, mas é mal pago, não permite evoluir ou sonhar alto”. Por isso aventurou-se em Kuala Lumpur, na Malásia, e é a sétima história da série “Em pequeno número”, que o Expresso publicou na semana de Natal e agora prossegue na de ano novo sobre portugueses que vivem em regiões em que quase não os há

Os dias ainda são de adaptação: a uma nova cidade, um novo país, uma cultura, hábitos e rotinas diferentes. Sérgio está há pouco mais de dois meses a viver numa cidade com 6,8 milhões de habitantes: Kuala Lumpur, capital da Malásia. O dia divide-se entre o trabalho, os almoços com os colegas nos restaurantes locais e as aventuras em novos cantos da cidade.

Sérgio Silva, 29 anos, aterrou na Malásia a 20 de outubro. Para trás tinham ficado cinco meses de espera por um visto, num processo longo até ter a certeza de que o passo seguinte seria trocar Lisboa e um trabalho sem perspetivas de evolução por um país com uma economia em crescimento e várias ofertas de emprego.

Já com contrato de trabalho numa empresa de produção de eventos, Sérgio ficou alojado num quarto partilhado numa pequena vila suburbana, longe do centro de Kuala Lumpur.

“Não via a cidade cosmopolita, via uma terrinha e quando saía de casa só havia lojas indianas. Eu dava a volta ao quarteirão para conhecer a zona, mas nessa primeira semana vivi com muito jetlag. Quando acordava já era a meio da tarde e havia poucas horas de luz. Nesse início foi difícil porque me sentia perdido.”

Sérgio teve uma semana entre o dia em que chegou e o que seria o primeiro dia de trabalho – uma sorte, conta o português, porque conheceu casos em que as empresas pedem que se comece a trabalhar logo no dia seguinte à chegada.

A minha vida cá dentro

Quando chegou o fim de semana, Sérgio arriscou. “Fui de metro pela primeira vez até Kuala Lumpur, tirei as primeiras fotografias. E aí, sim, pensei: ‘Cheguei à Malásia’.”

O amigo português a viver na Malásia aconselhou-o a procurar casa no centro da cidade e foi isso que ele fez. “Aventurei-me sozinho a procurar uma casa. A Malásia é muito grande, mas não achei difícil encontrar casa, até porque tenho background na área do imobiliário.”

Encontrou um quarto, numa casa partilhada, num condomínio – o tipo de casas modernas mais comuns na Malásia. “Têm piscina, lavandaria, sauna, restaurantes e cafés. Cria-se uma comunidade dentro do condomínio e posso fazer a minha vida cá dentro.”

Vista do 12.º andar da casa de Sérgio Silva, num prédio inserido num condomínio em Kuala Lumpur

Vista do 12.º andar da casa de Sérgio Silva, num prédio inserido num condomínio em Kuala Lumpur

Sérgio Silva

Agora está a quatro estações de metro do trabalho, que fica na gare central de Kuala Lumpur. “Ali passam todos os transportes. É um espaço enorme e em hora de ponta é tudo aos encontrões.” O horário de trabalho é das 8h30 às 17h30, mas são raras as vezes em que sai a essa hora. Trabalha com mais dois europeus – um polaco e um britânico – e os restantes são malaios. Mas a hora de almoço é uma altura importante para descobertas

“As minhas refeições de almoço são nas zonas mais locais – já consegui perceber aquilo de que gosto mais e gosto menos, até por causa do picante. Nestes sítios, é tudo ao molho.” São vários os tipos de comida que encontra, em pequenos restaurantes todos diferentes onde se juntam muitas pessoas todos os dias.

“Os pratos são lavados numa bacia e do outro lado matam as galinhas. É o que eu mais adoro”, conta Sérgio Silva, a rir. E a parte que o surpreende é o preço, sendo acessível a qualquer pessoa comer na rua quase todos os dias.

Desde que chegou à Malásia, Sérgio cozinhou apenas três vezes. De resto, tem comido sempre fora de casa – almoço e jantar. Uma das coisas que conseguiu perceber é que os malaios “não são de comer muito, mas comem muitas vezes, sem horários”.

E aos poucos vai-se habituando aos hábitos: “Por exemplo, quando pedimos um copo de água trazem sempre a água a ferver. Se quisermos fria, temos de pedir gelo.” Também os sabores e a grande mistura de culturas no país vão começando a fazer sentido.

Banca na Rua Jalan Alor, conhecida pela diversidade de comida disponível

Banca na Rua Jalan Alor, conhecida pela diversidade de comida disponível

Sérgio Silva

Menos de 50 portugueses entre 30 milhões

Na Malásia vivem 30 milhões de pessoas, 74% em zonas urbanas, segundo as estatísticas das Nações Unidas. Quase dois terços da população (61,3%) é muçulmana, 19,8% é budista, 9,2% é cristã e 6,2% é hindu, havendo ainda outras religiões no país, de acordo com os dados de 2010 do World Factbook.

As estatísticas recolhidas pelo Observatório da Emigração, apontam para que em 2011 vivessem menos de 50 emigrantes e descendentes de emigrantes portugueses, segundo dados dos consulados.

Sérgio conhecia três portugueses antes de ir para a Malásia mas entretanto dois regressaram. “Sei que há uma portuguesa que vem para cá, há uma comunidade de portugueses e há um chefe de cozinha português.”

Por enquanto, os dias continuam a ser de exploração e adaptação. “Tenho feito uma vida de luxo e nestes primeiros meses, como qualquer expatriado, pago 25% de impostos.” Passados os primeiros 187 dias a trabalhar no país, os impostos baixam para cerca de 6%, e aí os planos poderão ser outros, conta Sérgio.

Sérgio Silva já começou a explorar a cidade, visitando alguns dos locais mais conehcidos como as Petronas Twin Towers

Sérgio Silva já começou a explorar a cidade, visitando alguns dos locais mais conehcidos como as Petronas Twin Towers

Sérgio Silva

Porque não arriscar?

O que o levou a partir para a Malásia foi ter percebido que não tinha como evoluir profissionalmente. Entre ganhar 800 euros líquidos, viver para pagar a casa e as despesas ou arriscar noutro país, Sérgio tomou a decisão.

“Entre 2010 e 2015 andei a juntar as partes – se é para fazer isso, vou para outro país. O trabalho existe em Portugal, mas é mal pago, não permite evoluir ou sonhar alto. Mais valia aventurar-me.” Pôs de parte uma ida para a Europa, por saber que a situação não estava muito melhor. “Estava muito inclinado para o Brasil. Vi boas oportunidades no Canadá e também no Médio Oriente.”

Singapura, Malásia e Tailândia surgiram como hipóteses. “Era importante ser um país que fosse uma boa plataforma central pelas questões macroeconómicas e pelo crescimento.” Candidatou-se a cerca de 11 propostas de emprego em Singapura e mais sete na Malásia. “Em alguns casos tive de insistir, mas todos responderam. Em todos os sítios eu tinha portugueses que conhecia e dava sempre para perguntar se valia a pena ou não investir no país.”

Até que surge a oportunidade na Malásia. Sérgio não arriscou a partir para o país sem visto e por isso esperou cinco meses. “Comecei a perceber que é fácil encontrar trabalho, mas não se pode dizer que seja fácil ter o visto. De cada vez que uma empresa contrata um expatriado tem de justificar, tem de garantir que não consegue encontrar a mesma pessoa na Malásia.” Portanto, conclui Sérgio, quem é contratado precisa de ter bons estudos e um bom currículo.

Ali, é mais fácil conseguir ter acesso a uma vida de luxos. “Queres ir comer a um restaurante de luxo? Não é preciso poupar para ir.” Além disso, Sérgio sente-se no meio de outros países para onde poderá um dia mudar-se.

Mas por enquanto o plano é apenas um: adaptar-se, esperar que a namorada se junte a ele na cidade malaia e divertir-se. “Por agora, o plano é desfrutar do país, da aventura. E depois continuar por cá e ver como é que as coisas vão correndo.”

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