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Comissão de inquérito quer explicações sobre despedimento de piloto que disse que a SATA tem aviões “obsoletos”

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Comandante da empresa açoriana, ouvido em audição parlamentar em outubro, não desaconselhou os passageiros a voar, mas disse que ele “não entrava como passageiro” num avião da SATA - devido a questões de apresentação e conforto. E explicou como, no seu entender, a desorganização das escalas está a prejudicar a empresa: “Sou pago para fazer 900 horas por ano, mas a empresa só me dá 300 horas por ano e pagam-me o mesmo ordenado. É uma empresa muito boa para mim, mas é incomportável manter-se as coisas nesses moldes”, disse então

Tiago Miranda

O presidente da comissão parlamentar de inquérito ao grupo SATA, nos Açores, anunciou esta segunda-feira que vai pedir à administração da companhia aérea açoriana informação oficial sobre os motivos do despedimento do comandante Luís Miguel Sancho.

"Vou fazer o pedido oficial com data desta segunda-feira e pedir acesso à nota de culpa e ao relatório que levou a notificação de despedimento do comandante Luís Miguel Sancho", afirmou André Bradford no início da última reunião da comissão de inquérito, em Ponta Delgada, acrescentando que a proposta foi aceite por todos os partidos partiu do Bloco de Esquerda.

A companhia aérea SATA despediu o comandante Luís Miguel Sancho na sequência de dois processos disciplinares, garantindo a empresa que a decisão nada teve que ver com declarações polémicas do funcionário na comissão de inquérito à transportadora.

O comandante Luís Miguel Sancho confirmou no dia 24 à agência Lusa que recebeu a notificação da SATA a comunicar a decisão de despedi-lo, mas optou por não fazer mais comentários sobre o assunto, alegando que o mesmo está a ser estudado juridicamente.

Embora a decisão de despedimento não tenha sido tomada pelo atual presidente do conselho de administração da SATA, que assumiu funções no dia 18, Paulo Menezes afirmou esta segunda-feira à Lusa que, tanto quanto sabe, "o processo decorreu de acordo com as regras" e a decisão "não foi tomada de forma leviana" e "nada tiveram que ver com as declarações do mesmo na comissão de inquérito ao grupo SATA".

Para a única deputada do Bloco de Esquerda no parlamento açoriano, Zuraida Soares, o pedido visa clarificar "dentro da comissão e na opinião pública que o despedimento do comandante nada teve que ver com a audição" de Luís Miguel Sancho na comissão de inquérito.

Artur Lima, do CDS/PP, considerou que a decisão da SATA é "uma forma de pressão ilegítima sobre as conclusões da comissão, com o amém do Governo Regional", acrescentando que "daqui para a frente ninguém vai querer vir a uma comissão de inquérito".

Também o deputado do PPM, Paulo Estêvão, lamentou o sucedido e referiu que "existiu da parte da SATA, pelo menos, a tentação de usar as declarações do comandante para este desfecho, tanto mais que pediram à comissão as declarações" de Luís Miguel Sancho feitas durante a sua audição parlamentar.

O presidente da comissão de inquérito precisou que apesar do pedido recebido da parte da SATA e cumprindo a decisão tomada pelos partidos "a comissão não enviou nenhuma declaração do senhor comandante".

Para o deputado do PCP Aníbal Pires, o despedimento do comandante e de outro tripulante de cabine da SATA, no dia 21, diz bem do "clima persecutório e de intimidação que se vive na empresa".

Jorge Macedo, do PSD, alegou que "nestas questões de política não há coincidências", considerando uma "enorme infelicidade" o tempo escolhido para o despedimento, que "se espera seja apenas uma coincidência".

O PS, pela voz do deputado Francisco César, reafirmou que em relação ao processo disciplinar "ninguém deve ser prejudicado pelo facto de aqui vir fazer declarações seja de que teor for", salientando que era do conhecimento de todos os membros da comissão de inquérito que o comandante Luís Miguel Sancho tinha dois processo disciplinares quando foi à audição e que os deputados desconhecem os prazos para conclusão dos mesmos.

As declarações polémicas

O comandante da SATA Internacional Luís Miguel Sancho afirmou em outubro que os aviões A310 com que a companhia açoriana opera estão "absolutamente obsoletos" e criticou o planeamento que é feito das tripulações, com prejuízos financeiros para a empresa.

"Os aviões [A310] estão absolutamente obsoletos. Como passageiro, eu não entrava num avião da SATA. O que é dado a ver ao passageiro não tem condições nem conforto em comparação com o que a nossa concorrência oferece", afirmou Luís Miguel Sancho, acrescentando, porém: "Não desaconselho os passageiros a voar na SATA".

Luís Miguel Sancho falava em Ponta Delgada numa audição da comissão parlamentar de inquérito ao grupo SATA, proposta pelo PSD e subscrita pela restante oposição com o objetivo de apurar responsabilidades pela situação financeira em que se encontra a companhia aérea açoriana, que em 2014 teve prejuízos de 35 milhões de euros.

Aos deputados, o comandante Luís Miguel Sancho, na SATA desde 2001 e que em seis meses teve dois processos disciplinares, considerou que os A310 deveriam ser rentabilizados "mais alguns anos", mas a companhia aérea já decidiu passar a voar com os A330.

"Os aviões não têm idade, podem voar praticamente para sempre se formos tomando bem conta deles. A questão aqui é sempre a apresentação do avião", referiu o comandante e auditor na SATA, acrescentando que sempre transmitiu às chefias as "questões relativas à segurança do voo para serem corrigidas e foram sempre desvalorizadas".

Segundo Luís Miguel Sancho, "não há aqui nenhuma cabala contra a administração, mas as pessoas têm de ser responsabilizadas, porque os problemas foram dados a conhecer de várias formas".

O comandante com experiência nacional e internacional no meio aeronáutico deu também conta do que considerou serem incumprimentos do departamento de escalas da SATA, que "acarretam custos para a empresa e desmotivam trabalhadores".

"Sou pago para fazer 900 horas por ano, mas a empresa só me dá 300 horas por ano e pagam-me o mesmo ordenado. É uma empresa muito boa para mim, mas é incomportável manter-se as coisas nesses moldes", afirmou Luís Miguel Sancho, acrescentando que, por outro lado, "há colegas que têm muitas horas extra", pelo que "a empresa não está a rentabilizar os seus trabalhadores".

Questionado sobre se há intimidações e medo dentro da empresa, o comandante reconheceu que existem.

  • Comandante da empresa açoriana, ouvido em audição parlamentar, não desaconselha os passageiros a voar, mas diz que ele “não entrava como passageiro” num avião da SATA - devido a questões de apresentação e conforto. E explicou como, no seu entender, a desorganização das escalas está a prejudicar a empresa: “Sou pago para fazer 900 horas por ano, mas a empresa só me dá 300 horas por ano e pagam-me o mesmo ordenado. É uma empresa muito boa para mim, mas é incomportável manter-se as coisas nesses moldes”