Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Quem quer comprar um palácio?

  • 333

nuno botelho

Refúgios da monarquia com paisagens deslumbrantes, moradas de aristocratas, artistas, escritores famosos e alta burguesia, com arquiteturas caprichosas, estão agora à venda por uns quantos milhões. Os chineses estão na linha da frente para estes troféus

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Texto

Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

Fotos

Fotojornalista

Matilde Roque da Silva Pinho, que amanhã soprará 100 velas, é a memória viva de uma Lisboa antiga e recorda cada recanto da casa onde morou até aos 22 anos.“Ó mana! Ali era a salinha do pai onde estava o rádio, onde ficávamos sentadas ao fim do dia a ouvir música. E a sala de jantar parecia maior, tem piada. Mas os nichos dourados na parede estão tal e qual como o pai os mandou construir. O candelabro no teto também. As portas de metal dourado estão agora pretas. Eram do Convento de Santa Joana, em Aveiro.” A memória e energia de Matilde são prodigiosas para a idade. Entra apoiada de uma bengala, mas muito direita, pela sede da Fundação Oriente, acompanhada de outras três irmãs e de um sobrinho. Vieram visitar este casarão que lhes pertencera e que acaba de ser vendido ao grupo hoteleiro chinês Pavilion Group Hotels, por 11 milhões de euros — em conjunto com o edifício do lado onde funcionara o Externato Feminino Francês.

Todas cresceram naquela morada há mais de 80 anos. Estão ali para uma derradeira visita antes das obras que irão transformar os edifícios em hotéis-boutique de luxo no centro de Lisboa. As quatro são tomadas por uma viagem no tempo. Até à época em que eram autênticas princesas naquele palacete, localizado no número 66 da Rua do Salitre, no coração da capital. A propriedade esteve nas mãos da família desde 1893, quando o conde de Alto Mearim — o avô destas senhoras — regressara de uma longa estada no Brasil, para onde partira aos 14 anos como caixeiro e fizera fortuna tornando-se grande proprietário e fundador de bancos. Com a morte do conde em 1900, o pai destas irmãs, Jaime Roque de Pinho, que estivera à frente do extinto Banco Português e Brasileiro, herda a propriedade e decide fazer dali uma moradia de maior excelência sob a direção de Rebelo de Andrade, um dos arquitetos mais reputados da época. O jardim fora desenhado por um arquiteto paisagista francês. Tudo à grande e à francesa, com preocupação pelo detalhe.

Ao fundo desse jardim encontra-se o pavilhão de caça típico do século XIX. É ainda assim que é tratado hoje pelo caseiro, João Mexia. “Pavilhão de caça? Isso era a nossa casa das bonecas. E, ao lado, tínhamos a piscina coberta para onde nos íamos refrescar”, recorda Maria da Conceição Roque de Silva Pinho, de 93 anos, tratada por todos como ‘a Bebé’. Maria João Roque de Pinho (Jão), 87 anos, é a mais nova das quatro manas — eram oito irmãos ao todo, sete raparigas e um rapaz. Jão viveu naquela enorme casa de três andares até aos 6 anos e as suas memórias são de correrias e tropelias. “Eu descia as escadas do jardim de bicicleta e caí algumas vezes. Ah, e recordo-me de apanhar caracóis com a filha do caseiro e de os comer cozidos. Que horror!” Sentadas na sala de jantar, recordam que as refeições eram enviadas de elevador desde a copa, situada no piso de baixo, para a divisão contígua à sala de refeições. E eram as criadas que depois serviam os pais e as meninas. Todos os sábados havia jantares com convidados que chegavam de smoking e fato comprido. E bebia-se vinho em copos de cristal com motivos de caça. É o que garantem duas das irmãs, Jão e Bebé. Mas Matilde, a mana mais velha, corrige-as: “Que disparate. Isso era só em ocasiões especiais. Os jantares de sábado não eram sempre de cerimónia.”

Naquele tempo havia no piso térreo uma grande adega e uma zona de cocheiras, com quatro cavalos, aberta ao público. “Quem quisesse podia visitá-los. E todas nós sabíamos montar, mas à amazona, com as pernas pendidas só para um lado.” Matilde e as irmãs pedem para ir ao andar de cima, onde estavam os quartos (agora zona de escritórios). “Aqui dormia a minha professora de alemão. Eu e a minha mana [Beatriz, que tem o título de marquesa do Lavradio] estudámos em casa. Aprendemos muito mais e melhor do que todas as outras que andaram em colégios.” Os aposentos destas ‘meninas’ davam para a rua e na época assistiram de perto a várias revoluções. “A Rua do Salitre era do pior que há. Um perigo. Não nos podíamos aproximar das janelas porque os revolucionários passavam sempre com armas nas mãos e aos gritos: ‘Viva a República!’ Mas na nossa casa os republicanos não tocavam. Apesar do pai ser monárquico, ajudava as gentes locais com dinheiro e eram mesmo essas pessoas que diziam na rua aos revolucionários: ‘Na casa deste senhor não entram, porque ele é benfeitor!’”, conta-nos Matilde. A irmã Beatriz, tratada por ‘Bi’, acrescenta: “E o pai chegou a tratar aqui em casa um revolucionário ferido. Lembro-me bem disso.”

1. Palácio Condes Mearim e Palácio Alves Machado (atual sede da Fundação Oriente, Rua do Salitre, 
62 e 66, Lisboa). Vendido por 11 milhões de euros 
à multinacional chinesa Pavilion Group Hotels pela agência Fine & Country

1. Palácio Condes Mearim e Palácio Alves Machado (atual sede da Fundação Oriente, Rua do Salitre, 
62 e 66, Lisboa). Vendido por 11 milhões de euros 
à multinacional chinesa Pavilion Group Hotels pela agência Fine & Country

nuno botelho

nuno botelho

Jão mostra um retrato de época, onde toda a família (à exceção do pai) posa sentada num sofá, numa das salas. E nesta visita deixam-se fotografar na mesma pose. Mas recordar traz dores e incómodos. “Já não volto mais a esta casa. Faz impressão vir a um espaço que foi nosso e que já não nos pertence e que nos traz tantas e tão boas memórias”, garante Matilde.

O pai destas senhoras morre em 1935. O palácio permaneceu ainda na posse da família mais três anos. Acaba por ser colocado em hasta pública em 1938 e arrematado pela Federação Nacional dos Produtores de Trigo por 701 mil escudos. A família Roque de Pinho muda-se para outra morada ali perto, na Rua Rodrigo Sampaio. Meio século depois, a Fundação Oriente interessa-se pelo palácio e acaba por comprá-lo em 1989, para sua sede. Adquirido este ano pela Pavilion Group Hotels — o primeiro investimento no nosso país —, a principal razão para esta aposta do grupo hoteleiro “é o encanto, o jardim e o charme dos palacetes”, numa localização central da capital. Por seu lado, a sede da Fundação Oriente irá mudar-se em breve para junto do Museu, em Alcântara. O britânico Gordon Oldham, responsável pela multinacional hoteleira, a residir há 35 anos em Hong Kong, deixa entender que esta compra teve o seu quê de emocional. “Nunca tinha vindo a Lisboa até ao início deste ano e apaixonei-me pelo seu charme, o ritmo de vida, a comida e o belo sol do Sul da Europa. Esperava que fosse encontrar aqui outra Espanha, mas acabou por ser agradavelmente diferente — menos pessoas e menos pressa.” Mas, sejamos claros, o incentivo fiscal foi uma das maiores razões. “Somos completamente novos no mercado português e o nosso investimento aumentará assumindo que Portugal continue amigo dos investidores.”

O refúgio da rainha está à venda

Abrem-se plantas muito antigas com o desenho do edifício junto à lareira de uma das divisões. Foram trazidas da Torre do Tombo e têm muito para contar sobre esta moradia com 1100 m2. O chalet à beira-mar, no Monte Estoril, que outrora pertenceu à Rainha D. Maria Pia, está à venda por 14 milhões pela família Herédia. A historiadora Maria do Carmo Rebelo de Andrade não esconde a emoção por finalmente poder visitá-lo. Há muito que desejava este momento para juntar as peças do puzzle. É Maria Herédia, mulher do ex-deputado e ministro José Luís Arnaut, quem conduz a visita à casa que nos últimos 100 anos pertenceu aos seus antepassados. Recusa-se a falar destas memórias. “Não tenho histórias para contar. Foi a residência do meu bisavô António Herédia, depois passou para o meu avô [António Guedes Herédia, três vezes atleta olímpico em vela], e depois para o meu pai, que faleceu há um ano e meio [também chamado António Herédia, conhecido pelos amigos como ‘António Pumba’, velejador e corredor de automóveis].” Mas são os 20 anos anteriores, quando a residência pertenceu à família real, que interessam à historiadora. “Ando há anos a estudar esta casa, a imaginar como seria o seu interior e como aqui se vivia e é a primeira vez que tenho oportunidade de nela entrar.” Entramos pelo jardim e percorremos a casa pelo piso térreo até à divisão do fundo, de onde se avista a Marginal, o mar e a baía de Cascais. “Pelas minhas contas, era aqui nesta divisão o salão da rainha. Lá fora, na varanda, existiam cadeirões e mesas de verga trazidas da ilha da Madeira. E um toldo de riscas vermelhas e brancas que protegia do sol.” Maria do Carmo, autora da fotobiografia “Maria Pia de Sabóia, Rainha de Portugal”, vasculha um dossiê com anotações, recortes e fotocópias de publicações do século XIX. É de lá que retira uma imagem de época do dito salão, dos tempos em que a penúltima rainha de Portugal se refugiava neste chalet do Monte Estoril — também conhecido como Paço do Estoril — para repousar e passear.

2 Casa Faial (Alameda Duquesa de Palmela, 175, Cascais). À venda por 2 milhões e 950 mil euros na Estamo. Uma empresária chinesa manifestou querer explorar o imóvel para uma unidade hoteleira de luxo, mas há interessados russos e brasileiros

2 Casa Faial (Alameda Duquesa de Palmela, 175, Cascais). À venda por 2 milhões e 950 mil euros na Estamo. Uma empresária chinesa manifestou querer explorar o imóvel para uma unidade hoteleira de luxo, mas há interessados russos e brasileiros

nuno botelho

Decerto sua majestade teria passado muitas tardes nesta divisão a ler, a conversar e a contemplar. Maria do Carmo estende a velha fotografia na divisão na mesma perspetiva com que foi tirada. Nela vê-se que as portas estão emolduradas com cortinados de chita, há biombos, plantas, cadeirões forrados a seda, mobiliário Luís XV, num ambiente acolhedor e sofisticado. Mas sem a sumptuosidade de um palácio oficial. “Longe das obrigações públicas e da etiqueta da Corte, a rainha decorou deste chalet com um ambiente mais campestre, era uma casa de verão, com uma sensação de frescura, de conforto e de modernidade. O conforto era, aliás, a grande preocupação e a tónica decorativa oitocentista.” Daí o empenho da rainha na instalação elétrica, no aquecimento e num elevador que a levasse aos dois andares onde se localizavam os aposentos da família.

D. Maria Pia adquiriu este chalet em 1893, por cerca de 20 mil reis, a um tal de Henrique Ulrick, então denominado de Vista Longa. Dera por ele quando passou uma temporada na casa emprestada da família Reynolds, localizada ao lado. Gostou tanto que decidiu que seria a sua segunda morada, a par do Palácio da Ajuda. Esteve anos a regatear o preço que inicialmente estava por 50 mil reis. Aquele romântico chalet com o imenso oceano no horizonte apresentava-se como ‘uma mudança de ares’ para a rainha, dado que desde a morte do Rei D. Luís (1889) andava depressiva e afastada de compromissos sociais e nunca mais quisera permanecer na Cidadela de Cascais, que até aí fora a residência de veraneio da família real entre os meses de setembro e outubro. O filho mais novo, o infante D. Afonso, também estaria em convalescença de uma doença e precisava de repouso e de afastamento das rotinas em Lisboa. “As estadas no Estoril deram novo vigor a D. Maria Pia, onde passou a ficar em estadas cada vez mais prolongadas. Dali podia expandir os seus interesses pessoais. Adorava partir para passeios, tirar fotografias, fazer piqueniques no campo e na praia e fazer longínquas passeatas de bicicleta, sempre na companhia do infante D. Afonso.” Uma carta de D. Amélia enviada a D. Carlos, datada de 1895, dá conta disso: “Ta mère est encore à Estoril et ne parle de revenir”. [A tua mãe está no Estoril e não fala em regressar.]

Ainda no piso térreo passamos pela antiga sala de jantar da família, com vista para o jardim, uma das divisões mais interessantes da casa pelos frescos no teto que ilustram vários anjos no céu, da autoria do pintor António Ramalho [que também assinou o pano de boca do Teatro Garcia de Resende, em Évora, em colaboração com João Vaz, ou a decoração da grande escadaria do Palace Hotel do Buçaco]. “Encontram-se muitas semelhanças entre as pinturas feitas na casa de jantar do Estoril com as da toilette da rainha, no Palácio da Ajuda. Mas os indícios de restauro não permitem ver a mão do autor original. O traço de Ramalho devia ter outra subtileza e parece ter sido adulterado. É o que o meu olho clínico me diz”, diz-nos mais tarde Maria do Carmo, atual coordenadora da Casa de Santa Maria, em Cascais. Sobre o chalet conclui: “Esta era uma casa com muita vida, alegria, e a maioria do pessoal ficaria instalado na outra casa da propriedade [ainda existente]. Havia muitos criados, cozinheiros, moços de sala, valet-pieds, vedores da rainha, jardineiros, responsáveis pela cocheira. E toda essa dinâmica e riqueza na decoração do século XIX claro que não se sente nesta casa vazia.”

3 Castelinho em São João do Estoril. À venda 
por 3 milhões e 500 mil euros na Fine & Country. 
Um americano e um francês mostraram interesse 
na sua aquisição para residência de férias

3 Castelinho em São João do Estoril. À venda 
por 3 milhões e 500 mil euros na Fine & Country. 
Um americano e um francês mostraram interesse 
na sua aquisição para residência de férias

nuno botelho

Nuno Durão, responsável da agência imobiliária Fine & Country, especializada na venda de imóveis de luxo, conta-nos que até agora os interessados neste imóvel têm sido russos e chineses. “Um deles foi um vendedor de arte de Xangai, que a queria comprar para residência de férias. Este chalet é uma casa-troféu para quem a adquirir, e não para se fazer negócio, porque dificilmente alguém fará dinheiro após investir tanto.”

Também à venda ali perto está o Castelinho de São João do Estoril, assim chamado por causa das ameias e torreões e que nos reporta para os caprichos desta espécie de ‘Riviera Portuguesa’. Mas esta moradia de quatro pisos ganhou fama por razões de arrepiar, por se considerar estar assombrada, um dos mitos urbanos mais populares da região. À venda agora por 3 milhões e 500 mil euros, esteve durante anos desabitada, mas nem por isso quem lá passava deixava de ver luzes a acender e a apagar. A casa interessou à mãe de Lili Caneças. “Eu era a pessoa certa para a morada certa. Aquele castelinho com ameias junto ao mar faria de mim a princesa que eu sempre achei que era.” O preço até era convidativo, mas o negócio acabou por não se realizar porque foram informadas de que a casa seria assombrada e que as pessoas que lá viviam ou morriam rapidamente ou os negócios estoiravam. “Era a visão do inferno de Dante. A minha mãe não quis arriscar e desistimos do negócio. Hoje teria insistido para que comprasse a casa.” Habitado nos últimos anos por uma família portuguesa que a adquiriu em 2002, passou por um profundo projeto de restauro e decoração desenvolvido pela arquiteta e decoradora russa Nana Gestashvili, conhecida de um programa de decoração na televisão russa.

4 Quinta do Relógio (Paço de Arcos). À venda por cerca de 14 milhões e 800 mil euros na Sotheby’s. Até agora os contactos têm sido feitos por empresários americanos, franceses, russos e do Golfo Pérsico para transformação em unidade hoteleira de luxo

4 Quinta do Relógio (Paço de Arcos). À venda por cerca de 14 milhões e 800 mil euros na Sotheby’s. Até agora os contactos têm sido feitos por empresários americanos, franceses, russos e do Golfo Pérsico para transformação em unidade hoteleira de luxo

nuno botelho

Na vila de Cascais, uma imponente casa de pedra, de estilo rústico, junto à praia — onde em tempos funcionou o tribunal — está agora à venda por dois milhões novecentos e cinquenta mil euros. O Expresso apurou que um dos principais interessados é uma empresária chinesa com o objetivo de transformar o edifício num hotel de luxo.

Os chineses estão a entrar em força na área hoteleira. E, pelos vistos, com gosto pelo potencial dos nossos palacetes. Edificado em 1896 pelos duques de Palmela, com o nome Casa Faial, é uma réplica da vizinha Casa Palmela. Nessa época multiplicam-se em Cascais estes palacetes e chalets emblemáticos de uma certa situação social e aspiração cultural.

Ainda na linha de Cascais, mas junto a Paço de Arcos, à beira da Marginal, está à venda a Quinta do Relógio, composta por um palácio, uma torre com um relógio e outras casas de apoio, perfazendo na totalidade 40 divisões numa propriedade de cerca de 6000 metros quadrados. Quem a vende é o advogado António Lancastre. O edifício foi mandado construir por Tomás Maria Bessone, fundador da primeira Companhia de Obras Públicas de Portugal e inaugurado em 1860 com fortes influências da arquitetura italiana, ou não fosse obra do arquiteto Cinatti de Siena. “Têm vertigens? Então comecem por conhecer a Torre do Relógio, que está em obras, mas de onde se alcança uma vista fantástica para a baía.” Mas do relógio não resta nada. “Deixou de funcionar logo a partir do 25 de Abril. Os revolucionários invadiram a quinta e roubaram as peças da máquina, que eram do tamanho de um automóvel. E eu e a minha família também deixámos a casa no calor da revolução por uns anos, fomos para Madrid.”

5 Chalet Maria Pia (Rua D. António Guedes de Herédia, 3 A, Monte Estoril). À venda por 14 milhões de euros na Fine & Country. Até ao momento visitaram a propriedade russos e chineses

5 Chalet Maria Pia (Rua D. António Guedes de Herédia, 3 A, Monte Estoril). À venda por 14 milhões de euros na Fine & Country. Até ao momento visitaram a propriedade russos e chineses

nuno botelho

Arquivo histórico municipal de Cascais

No passado, a construção desta torre com um gigantesco relógio foi um ato de modernismo celebrado pela população, na sua maioria pescadores, que passou a orientar-se por ele. “Vá-se lá saber que artes ou poderes comandavam os mecanismos que aferiam o tempo, mas o facto é que estes começaram a avariar sempre que algo de nefasto atingia os habitantes da quinta. Tão estranha sincronização deu obviamente que falar quando os negócios de Tomás Bessone começaram a correr mal, dando início a um processo de falência irreversível”, escreveu Vanessa Fidalgo, autora de “101 Lugares para Ter Medo em Portugal”. Mais tarde morou também ali uma das mais célebres escritoras espanholas do século XIX, Carolina Coronado. Nessa altura, o palacete tornou-se local de tertúlias. Carolina recebia frequentemente a visita de diplomatas, progressistas fugidos da revolução espanhola de 1866 e escritores famosos, como Júlio de Castilho, Sousa Viterbo ou Fialho de Almeida.

António Lancastre só tem boas memórias desta quinta, onde garante ter sido feliz. O imóvel fora adquirido em leilão pelo seu avô paterno, António Marques de Freitas [um dos fundadores da Fábrica de Cervejas Portugália], para residência de verão. Dinheiro não faltava nesta família. E António não o esconde. “O meu pai era milionário, provavelmente era das pessoas mais ricas de Portugal. Desportista e corredor de automóveis, chegou a ter um Bugatti que hoje vale milhões, dois Delahaye importados de França, um Aston Martin e vários Jaguares. E tinha um iate. Querem vê-lo?” António referia-se à miniatura da antiga embarcação que está numa sala de arrumos a ganhar pó. “Quanto é que me custaria agora ter um barco desses? Nunca conseguiria mantê-lo. A minha família perdeu a maioria da fortuna com a revolução”, explica. Dos automóveis do passado resta apenas um modesto VW Carocha estacionado na garagem. A viver de momento sozinho naquele imenso palácio, semi-habitado, António assegura que no tempo dos seus pais se realizavam frequentemente festas com convidados distintos. “Eles relacionavam-se com a alta aristocracia europeia e recebiam-na em nossa casa. A minha mãe, Cármen de Lancastre, filha dos embaixadores da Argentina em Portugal, e o meu pai, D. António Luís Freitas de Lancastre Basto e Baharem, descendente de D. João II, davam-se com D. João de Espanha, pai do atual rei de Espanha, assim como com o rei de Itália e a alta burguesia portuguesa. Eu teria uns seis anos e recordo-me do meu pai abrir pessoalmente os portões da quinta para receber suas altezas reais. Mas eu não dou festas. Não sou nada disso”, salvaguarda. Até agora as pessoas que mostraram interesse são dos Estados Unidos, de França, do Golfo Pérsico e da Rússia, com intenção de construir uma unidade hoteleira de luxo. António ainda não sabe para onde vai se lhe derem os milhões que pede. “Se o país estiver favorável talvez compre casa na Quinta da Marinha...”

Uma obra singular

Uma das maiores referências arquitetónicas da vila de Sintra — A Casa dos Penedos — está à venda por 10 milhões de euros. Este belíssimo palácio rosa-velho, de estilo romântico, é uma das obras mais emblemáticas do arquiteto Raul Lino, mandado construir sob um penedo no início do século XX (e inaugurado em 1938). Quem passeia pela vila de Sintra pode apreciar esta singular obra que parece saída de uma história de encantar da Disney. Até ao momento, aqueles que têm mostrado vontade em comprar este edifício são franceses, para uso pessoal. “Este espaço chama aqueles compradores mais emocionais, que sentem a paixão com que tudo isto foi feito e a sua integração com a natureza. Claro que ajuda os franceses perceberem que em Portugal têm incentivos fiscais”, esclarece Inês Robles, da Remax Collection, e uma das herdeiras da Casa dos Penedos.

6 Casa dos Penedos (Sintra). À venda 
por 10 milhões de euros. São franceses os principais interessados para residência de férias

6 Casa dos Penedos (Sintra). À venda 
por 10 milhões de euros. São franceses os principais interessados para residência de férias

nuno botelho

nuno botelho

Caminhamos pelos luxuriantes jardins da propriedade até ao lago, na companhia de Maria Inês Monteiro, 68 anos, pintora de profissão e uma das proprietárias do palácio. “O meu avô mandou vir árvores de África e da Índia e tinha dois jardineiros em permanência. Aqui no lago existiam vários cisnes, mas não nos deixavam aproximar. E refugiávamo-nos muitas vezes naquela gruta ao fundo quando brincávamos aos polícias e ladrões.” Memórias dos intermináveis verões que ela e os seus seis irmãos passavam nesta quinta, que pertencia aos avós. “Era a melhor altura do ano. Esta casa representava espaço, liberdade. Podíamos esconder-nos no jardim, andar de bicicleta, jogar no court de ténis, disputar torneios de hóquei ou de pingue-pongue. E organizávamos festas no salão com discos de vinil ao som de Elvis Presley e Charles Aznavour. Sabe lá quantos amores de verão começaram nesta casa...”, revela com um sorriso nostálgico.

Mas Maria Inês conta que as melhores histórias aconteceram na época dos avós, quando Sintra era sinónimo de glamour, romantismo e sonho. A avó Laura Reis era uma amante das artes e realizava animadas récitas e saraus de poesia, de teatro e música no salão da casa (uma grande divisão, anexa ao módulo principal e construída precisamente para festas e eventos culturais da família). “Ela colocava cortinados, criava belos guarda-roupas e representava peças de teatro para amigos e conhecidos. E todo o meio literário e artístico vinha cá a casa. Nesses anos, sim, era uma loucura e um acontecimento vir aqui a casa.” Maria Inês diz que herdou a veia da avó, mas quer deixar claro que ela e os irmãos não foram educados com “manias de ricos”, apesar das circunstâncias e dos vários empregados. “Fomos ensinados a arrumar os nossos quartos.” Quando questionada se lamenta desfazer-se deste palácio onde guarda tão boas recordações, responde: “Claro que tenho pena. Mas tenho de estar de acordo com a vida. Temos de nos adaptar e viver o dia a dia. Cada um dos irmãos tem a sua casa e decidimos que esta tem de ser vendida.” b