Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

No país das mulheres com força inacreditável

  • 333

Os 'tap tap' são uma espécie de táxis partilhados no Haiti, pintados e decorados

HECTOR RETAMAL / Getty Images

Há táxis partilhados com imagens de Cristiano Ronaldo ou Messi a circular pela cidade de Port-au-Prince e isso faz parte daquilo que Maria experimenta todos os dias. Foi para o Haiti que decidiu ir viver, um ano e meio depois do catastrófico terramoto de 2010 - trabalha nas Nações Unidas e agora conhece os dois lados do país: o das praias indescritíveis e a vida de quem tem nada. O relato de Maria é a quinta história da série “Em pequeno número”, que o Expresso publica nesta semana de Natal e depois na de ano novo sobre portugueses que vivem em regiões em que quase não os há

O dia começa cedo. Maria levanta-se às 6h30 em Port-au-Prince, capital do Haiti. Apesar de ser cedo, a essa hora já é “pleno dia” na cidade. De casa até ao trabalho leva meia hora e nesse caminho cruza-se com o dia a dia de muitos haitianos.

“Crianças e adolescentes a caminho da escola com os seus uniformes imaculados, com o cabelo arranjado ao pormenor, como se caminhassem por estradas pavimentadas e não por estradas de terra.”

Desde setembro de 2011 que Maria Ramos, 35 anos, vive no Haiti. Chegou a Port-au-Prince para trabalhar na Missão de Paz das Nações Unidas, onde ainda hoje está. “Trabalho em Gestão e Coordenação de Projetos com o governo haitiano. No princípio não foi fácil, mas foi desafiante, o que me fez continuar aqui. Foi uma grande aposta deixar tudo e começar de novo, não me arrependo de nada.”

Conduzir no Haiti é um “grande desafio” e nas estradas circulam os famosos “tap-tap”, uma espécie de táxis partilhados usados como transporte público, todos pintados e decorados. “A arte faz parte da paisagem, desde pinturas a fantástica arte em ferro. Podemos encontrar várias pinturas, nomeadamente do Cristiano Ronaldo e das estrelas do Brasil. Quando digo que sou portuguesa, dizem, com um sorriso: ‘Cristiano Ronaldo!’ Mas o grande ídolo é o Brasil.”

Quando chegou ao Haiti vivia-se ainda num contexto de pós-terramoto. Tinha passado um ano e meio desde a tragédia de janeiro de 2010 que fez mais de 220 mil mortos, 1,5 milhões de desalojados e que resultou em mais de 300 mil casas destruídas, segundo as estimativas do governo haitiano e tendo em conta que os números são muito díspares entre diferentes fontes.

A baixa da cidade de Port-au-Prince com quatro anos de diferença: a 29 de dezembro de 2014, em cima, e a 14 de janeiro de 2010, em baixo, dois dias depois do terramoto

A baixa da cidade de Port-au-Prince com quatro anos de diferença: a 29 de dezembro de 2014, em cima, e a 14 de janeiro de 2010, em baixo, dois dias depois do terramoto

STF / Getty Images

“A visão dos desalojados que viviam em tendas por toda a cidade de Port-au-Prince e arredores marcava a dura realidade haitiana.” Desde então, a situação melhorou, designadamente algumas infraestruturas, como as estradas, embora Maria lembre que a instabilidade política ainda está presente.

“A vida continua marcada pelas dificuldades em encontrar trabalho, o difícil acesso à saúde, a precariedade do saneamento básico e a vulnerabilidade da população frente aos desastres naturais. Por exemplo, a desflorestação que potencia o deslizamento de terras faz com que a época de chuvas tenha graves consequências.”

Crianças a caminho da escola em Port-au-Prince

Crianças a caminho da escola em Port-au-Prince

Maria Ramos

Segundo as estatísticas disponíveis, recolhidas pelo Observatório da Emigração, havia menos de 50 emigrantes portugueses ou descendentes de portugueses a residir no Haiti em 2008.

“Não há muitos portugueses no Haiti, pelo menos que eu tenha conhecimento. Antes éramos um número maior. No nosso último jantar do dia de Portugal éramos cinco, e agora cada vez menos. Vários trabalhavam para as Nações Unidas em diferentes áreas - e, claro, são todos excelentes profissionais com muito mérito.”

Maria costuma falar português com o contingente militar brasileiro que está no país, tem também amigos brasileiros, além de três portugueses e alguns de outros países de língua portuguesa.

Os seus dias são variados. Tem de se deslocar até aos projetos que estão em curso e reunir-se com os responsáveis, na maior parte das vezes em Port-au-Prince. Contudo, por vezes, desloca-se também a outras regiões do Haiti, onde a vida é “muito diferente” daquilo que se passa na capital.

Desde que chegou, já trabalhou em vários projetos em áreas diferentes, tanto como apoio ao Ministério dos Transportes Públicos como ao Ministério da Saúde. Um projeto que achou muito desafiante foi em instituições de apoio a pessoas com limitações intelectuais. “As prioridades num país como o Haiti são outras, deixando este problema como não prioritário.”

Para trás, no seu percurso, ficaram quatro anos a viver em Barcelona, no sector privado, na área da arquitetura, na qual se formou. Mas antes ainda, em 2002, esteve um ano em Florença, Itália, em Erasmus, tendo essa sido a primeira vez que saiu de Portugal.

Entre os anos em que esteve em Barcelona e a partida para o Haiti, Maria esteve um ano em Portugal. “Após ter trabalhado no sector privado, em arquitetura, decidi que gostaria de trabalhar num âmbito de gestão. Infelizmente, tenho a sensação que Portugal ainda se baseia apenas na formação académica, descurando capacidades e experiência. Depois de várias respostas negativas ou mesmo nenhuma resposta, voltei a apostar no mercado internacional, onde consegui a minha posição atual.”

Para lá dos dias de trabalho na capital do Haiti, Maria Ramos aproveita os fins de semana para outras experiências. “Um programa interessante em Port-au-Prince é ir a galerias de arte, onde se podem encontrar inúmeras pinturas pertencentes ao movimento Saint-Soleil. Ou ir à montanha, pois, embora não se imagine, o Haiti é montanhoso. E isso permite respirar ar fresco, caminhar e comprar vegetais diretamente dos agricultores.”

Também fora da capital se podem ter experiências interessantes, como na região de Cap-Haitian, no norte do país, onde existe uma fortaleza, La Citadelle, que é Património Cultural da UNESCO. “As praias são indescritíveis.”

Maria Ramos

“Jacmel, no sul, é uma região que, se não houver muito trânsito, fica a três horas de distância. Aqui, a distância conta-se em horas e não quilómetros”. Nesta região, ao longo do ano festejam-se várias datas, como a celebração do dia dos mortos e o Carnaval. “Há um desfile com vários grupos que dançam com máscaras fantásticas feitas de ‘papier-mâché’. Infelizmente, o turismo no Haiti ainda é caro, mas está em desenvolvimento e muitos investimentos estão a ser feitos.”

O outro lado (e as mulheres com força inacreditável)

No Haiti vivem 10,5 milhões de pessoas, segundo as últimas estimativas das Nações Unidas. A esperança média de vida à nascença é de 64,9 anos nas mulheres e 61,1 anos nos homens. Em 2013, a taxa de desemprego era de 7% e a população a viver em cidades era 57,4% do total.

Maria descreve a realidade a que assiste todos os dias no Haiti. “Vejo pessoas que se levantam cedo, que atravessam a cidade durante horas no trânsito e em três ´tap-tap’ para levar os filhos à escola.”

Maria Ramos

“Além de mercados à beira da estrada, vê-se comida a ser preparada para alimentar os trabalhadores que começam o dia, trabalhadores esses que em muitos casos têm apenas um trabalho ocasional, dependendo do dia. E vejo as mulheres com uma força inacreditável, carregando tudo na cabeça e passando o dia ao sol no mercado para vender os seus produtos. Veem-se crianças a pedir dinheiro em todos os cruzamentos. Vacas e cabras a cruzarem-se no caminho, lixo acumulado, trânsito caótico e cólera entre condutores.”

Também faz parte da cidade uma grande favela, conhecida como Cité Soleil, com mais de 300 mil residentes, onde a maioria da população vive em pobreza extrema, e que fica na área metropolitana de Port-au-Prince. “Este bairro foi durante muitos anos controlado por vários gangues. Embora já não estejam em controlo, ainda existem, assim como crime, violência, roubos e raptos. Vários jovens tentam sair desta vida, mas com os sonhos destruídos muitos acabam por voltar à criminalidade.”

Maria assiste também à luta diária de muitos haitianos. “Para os que estão ainda no campo de desalojados, a ameaça de umas gotas pode levar a sua ‘casa’. Apesar de tudo, muitos conseguem ultrapassar essa luta, sem baixar os braços, vivendo um dia de cada vez, pois nunca se sabe o dia de amanhã.”

Joe Raedle / Getty Images

Viver sem essa ansiedade quanto ao dia seguinte é uma das coisas que Maria aprendeu nos últimos anos e é também algo que gostaria de não perder.

“Espero continuar com o hábito de acordar cedo. E nunca conseguirei deixar de ter amigos em todos os cantos do mundo. Onde quer que vá, há sempre alguém que me diz ‘tenho de te pôr em contacto com o meu amigo ou amiga’. Por outro lado, o que vou ter de deixar de parte é a sensação de ser ‘verão todos os dias’ e espero deixar de misturar vários idiomas num só.”

Falar português é que não é comum, mas Portugal continua a ser a “base” da vida de Maria, onde está a família e os amigos. “Portugal para mim é casa, não trocaria por nada. Ao contrário de muitos, viver fora foi uma escolha pessoal, sempre quis ‘conhecer o mundo’. Gostaria de voltar um dia, não sei quando, pois as saudades são muitas, mas também a curiosidade de novos destinos. Quando um dia regressar, e se for possível, espero estar baseada em Portugal com ‘consultorias’ em países com muito para descobrir.”

  • A minha casa é o céu

    João vive num país com 2% de taxa de desemprego e onde se trabalha seis dias e se descansa um. O filho bebé nasceu-lhe nas Filipinas e já visitou mais países que o número de meses de vida que tem. Mas agora é no Vietname que estão, onde gesticular tornou-se um hábito para comunicar com os outros - os taxistas expulsam os clientes que não entendem. João, que cruza os céus quase todos os dias, traz-nos a quarta história da série “Em pequeno número”, que o Expresso publica nesta semana de Natal e depois na de ano novo sobre portugueses que vivem em regiões em que quase não os há

  • Salva e salva-se: um português numa vila no meio de uma guerra

    Ele vive num país em guerra e partilha casa com 15 pessoas de diferentes nacionalidades. E sim, existem dias ótimos - como quando salva um bebé e a mãe num parto complicado. E sim, existem dias dolorosos - como quando um pai carrega o filho a pé durante 50 km e chega tarde demais ao hospital. João salva e salva-se na República Centro-Africana e é um português a viver num país quase sem portugueses – é a segunda história da série “Em pequeno número”, que o Expresso publica nesta semana de Natal e depois na de ano novo sobre portugueses que vivem em regiões em que quase não os há

  • Encantou-se, encanta-se: na cidade daquela pimenta preta

    Filipe encantou-se com o que encanta os curiosos: partir, viajar, sentir. Saiu de cá, foi por aí, mundo fora e vida adentro – regressará, mas por enquanto experimentará. Permanece encantado: abriu um restaurante português na cidade de Kampot, no sul do Camboja, no dia da liberdade de Portugal – 25 de Abril, no caso o deste ano. Este é o relato descomplicado e inspirador de Filipe, um português a viver num país quase sem portugueses – e a primeira história da série “Em pequeno número”, que o Expresso vai publicar nesta semana de Natal e depois na de ano novo sobre portugueses que vivem em regiões em que quase não os há

  • Na cidade do cardamomo, do dhal e onde não dá para andar a pé

    Sofia trabalha num museu, mas comprova mitos deste tempo: “O mito do combustível é real e quase é mais barato do que a água engarrafada”. Emigrou para Omã, onde andar a pé é impossível e comprar carro - e abastecê-lo - é mesmo tão barato como a lenda das arábias popularizou. E depois há a forma de vestir, propícia a crises de identidade, a comida, que é atrevida e exótica (é da cozinha local que chegam os substantivos esquisitos do título), o verão, que é permanente, e a inesperada dificuldade em jantar com os colegas de trabalho. É o mundo de Sofia, que nos traz a terceira história da série “Em pequeno número”, que o Expresso publica nesta semana de Natal e depois na de ano novo sobre portugueses que vivem em regiões em que quase não os há