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Fatias da vida monástica

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Durante dois dias o Expresso acompanhou o fabrico do queijo, principal fonte de sustento do mosteiro de Cister, e os tempos de oração e de repouso dos monges. E ouviu leituras políticas sobre os tempos que correm

António Marujo em Borgonha, França

O irmão Benoît, 35 anos, monge na abadia de Cister há dez, acabara de ‘lavar’ mais de 1500 queijos. A operação durara pouco mais de uma hora, mas há dias em que o número chega aos quatro mil ou cinco mil queijos. Rodeiam-nos as mais modernas máquinas de fabrico de queijo, os computadores controlam equipamentos e produção, mas há coisas que não mudaram: “Hoje, como na Idade Média, os grandes fornecedores tornam os produtores quase seus escravos.”

Responsável da queijaria da abadia de Cister, o irmão Benoît terminou Ciência Política na universidade, em 2002, antes de decidir que a sua vocação seria outra. Mas a observação política está no sangue. Oriundo de uma família católica tradicional, Benoît sentia que o cristianismo que herdara não era ainda o seu: “Encontrei Jesus Cristo num grupo de jovens e só aí a fé se tornou a minha fé. Vim a um retiro a Cister. Não conhecia a regra monástica, para mim era qualquer coisa do passado.” Impressionou-o a delicadeza dos monges que viu. Decidiu ficar.

Está em Cister há dez anos. Desde há cinco, é o responsável pelo fabrico do queijo da abadia, muito procurado em França e mesmo no estrangeiro. Dos 22 monges que atualmente compõem a comunidade e vivem em Cister (mais três estão na Noruega para fundar um mosteiro, um está no Canadá para um ano de formação e um outro vive como eremita no Maciço Central francês), todos os que podem (uma dezena, incluindo o abade) trabalham na queijaria, principal fonte de sustento do mosteiro. Situada na Borgonha, 25 quilómetros a sul de Dijon, a abadia guarda nove séculos de história. Mesmo se as mudanças foram muitas desde que, a 21 de março de 1098, Roberto de Molesmes e mais 20 monges ali chegaram para tentar viver de modo mais coerente a regra de São Bento.

Roberto considerava que, em Cluny, a grande abadia da época, já não se vivia o verdadeiro espírito do evangelho. Tinha sido esse objetivo que, no século IV, Bento de Núrsia propusera aos monges através da regra baseada no lema ora et labora — reza e trabalha. O relaxamento dos costumes e a grande dependência dos monges em relação aos nobres punham em causa aquele ideal, consideravam Roberto e os companheiros. O grupo queria domar o espírito e o corpo. Chegado a Cister, teve de subjugar igualmente a floresta envolvente. A abadia rapidamente marcaria o tempo: em 1113, o terceiro abade, Etienne de Harding (de ascendência inglesa) recebe Bernardo de Fontaine. Dois anos depois, em 1115 (completa-se este ano o nono centenário) o mesmo monge é enviado, com mais 12 companheiros, a fundar a abadia de Claraval (150 quilómetros a norte).

Seria para Bernardo e Claraval que D. Afonso Henriques e o arcebispo de Braga, João Peculiar, se voltariam, convidando alguns monges brancos a vir fundar um mosteiro junto dos rios Alcoa e Baça. O convite teve resposta positiva e, em 1153, fundou-se Santa Maria de Alcobaça, que viria a ter um papel decisivo no povoamento do território, tornando-se um dos 350 mosteiros ligados a Cister e Claraval.

Detalhes, ritmo e beleza

É enquanto trabalha na cura dos queijos que o irmão Benoît explica: “Os senhores feudais davam proteção aos camponeses, os camponeses prescindiam da liberdade, os monges rezavam pela salvação.” É uma caricatura, faz questão de acrescentar. Mas vai insistindo em muitas semelhanças de hoje com realidades históricas que, no essencial, teimam em perdurar. “Os estudos, tal como a palavra de Deus, despertaram-me para as questões económicas”, diz. “Para falar do que nos dá, Deus utiliza a expressão ‘Reino de Deus’. Quer dizer: uma realidade social que diz respeito, em primeiro lugar, à santificação das relações de autoridade.”

A maturação é um processo que implica molhar os queijos várias vezes com salmoura (água, sal e tudo o que os queijos largam nesse processo). Tem de ser bem feito e cuidado ao pormenor. Como quem está a rezar? “A minha maneira de rezar é não pensar noutra coisa que não o trabalho, é tomar cuidado com o queijo em todos os pormenores: a humidade necessária, a atenção em não ferir cada queijo, a cooperação com o outro.” Normalmente, dois monges fazem o trabalho numa câmara a 13 ou 14 graus: enquanto um volta os queijos dois a dois, o outro molha-os com a salmoura, munido de uma esponja em cada mão.

Lema. 
“ O trabalho é para viver, não para maximizar 
o lucro ou o dinheiro”, explicam os monges, que se dedicam 
à oração e ao fabrico 
de um queijo procurado em todo o mundo

Lema. 
“ O trabalho é para viver, não para maximizar 
o lucro ou o dinheiro”, explicam os monges, que se dedicam 
à oração e ao fabrico 
de um queijo procurado em todo o mundo

No século XII, os monges chegados a Cister queriam simplesmente “viver o evangelho recusando os privilégios de poder e dominação da sociedade feudal”, diz Benoît. “Para isso, era preciso viver do trabalho das suas mãos. Mas hoje há tendência para pensar que se pode ganhar sem trabalhar e, então, toma-se o fruto do trabalho dos outros.” Palavra de monge. Em dias normais, seja nesta tarefa seja na do fabrico do queijo, só se fala o estritamente necessário. Na maior parte do tempo, o trabalho faz-se em silêncio. Com o ritmo necessário para que nenhum dos dois fique à espera do outro. E com a destreza exigida para não deixar cair nem estragar nenhum dos queijos. “Não há orações que me vêm à cabeça, o que ponho em prática é o mesmo da liturgia: atenção aos detalhes, cooperação com os outros, adotar um ritmo que não é apenas o meu, ter preocupação com uma certa beleza.”

Na liturgia, o irmão Benoît é também o chantre, o monge responsável pelo canto. Apesar de serem apenas pouco mais de 20, as vozes soam como se fossem dezenas. A acústica da igreja, construída há apenas cinco anos, ajuda a amplificar estas vozes que transpuseram séculos e chegaram até aqui. O eco realça a entoação gregoriana, o contraste entre a arquitetura contemporânea e a música antiga surge mais nítido. Não por acaso, a música ocidental deve muito também aos mosteiros. No livro “Inventions et Découvertes au Moyen Âge Dans le Monde” (Invenções e Descobertas da Idade Média no Mundo, ed. Ouest-France), publicado em 2014, Samuel Sadaune recorda que o monge beneditino Guido d’Arezzo revolucionou a música, ao introduzir a notação e a polifonia. A liturgia, o canto e a grande rede de mosteiros fizeram o resto.

Concerto da terra para o céu

Despojada, a igreja é o centro do mosteiro. O órgão está à esquerda, no coro. Não há imagens, à exceção de uma Virgem com o Menino, do segundo quartel do século XIV, padroeira de Cister. E não há vitrais nem pinturas, excluído um ícone representando os fundadores — Roberto de Molesmes, Albérico de Cister (o segundo abade) e Etienne Harding. Paredes direitas, janelas a filtrar fios de luz, consoante as horas do dia, um tom rosa leve para tranquilizar o olhar. Sete vezes ao dia, os monges reúnem-se aqui, após o toque do sino, que recebe o sinal horário via rádio a partir do relógio atómico de Paris. Começam às quatro da manhã com as vigílias, após o que cada monge dedica cerca de duas horas à leitura da Bíblia e de textos de espiritualidade — a lectio divina. “Na nossa vocação específica cisterciense há oração a meio da noite”, explicará o irmão Raphaël, o hospedeiro da abadia. “É o momento em que aparecem os que são drogados, os que sofrem e os que ajudam, é o momento em que se declaram as guerras. Por isso é importante estar lá a rezar por todos eles e não ficar a dormir.”

Às sete regressam para as laudes (louvor da manhã), incluídas na celebração da eucaristia (aos domingos e dias solenes na semana, esta é celebrada ao final da manhã). Sucedem-se depois as orações mais curtas das horas terça (9h30), sexta (12h30) e nona (14h30). Às 18h é a oração de vésperas, que assinala o final do dia e dos trabalhos. Depois de jantar, o tempo curto de completas (20h). Nesta terça-feira de setembro, em que a liturgia católica assinala a Natividade da Virgem Maria, a missa é solenizada. Na altura do ofertório, o incensório é colocado diante do altar, em sinal de purificação. O irmão Raphaël levanta o cálice pausadamente. Do incensório, eleva-se uma rápida nuvem. Como que a terra se ergue num concerto litúrgico para o céu, envolta em vapores perfumados.

“Corro para muita coisa, exceto na eucaristia”, dirá depois, já quase em ritmo apressado, antes de se retirar para os seus afazeres. Uma das suas tarefas é, diariamente, responder aos pedidos que chegam de todo o lado para passar alguns dias em Cister — hoje, a maior parte dos hóspedes reserva estada no mosteiro através da internet e já é preciso limitar o número de pessoas. Com 50 anos, em Cister desde janeiro de 2004, o seu “primeiro amor” foi Taizé, a comunidade um pouco mais a sul, que reúne monges católicos e protestantes e acolhe anualmente milhares de jovens do mundo inteiro. Mas Raphaël sentia-se chamado a ser padre e em Taizé isso não seria prioridade. Ainda tentou um seminário diocesano, onde seria padre, mas sem comunidade. Voltou então a repensar a sua vida e a trabalhar como hoteleiro. Até que decidiu por Cister.

“Pedi para falar com o mestre de noviços; ele disse-me para eu pensar durante seis semanas e eu fui a pensar se precisaria de seis semanas. Ao fim de três, estava decidido.” O gosto pelo acolhimento já o tinha enquanto hoteleiro, continua aqui como irmão hospedeiro, lugar que deixará, no final do ano, para passar a ser mestre de noviços. Mas também já foi, nos primeiros sete anos, o responsável da queijaria. Diante dos queijos, o irmão Benoît usará outras palavras, mas fala também do movimento entre terra e céu: “Rezar os textos da Bíblia ou trabalhar na queijaria são dois níveis da realidade que não se opõem.”

Trabalho e oração

Conversam-se os dias entre a oração, por um lado, e o trabalho das máquinas e das mãos para fazer queijo, por outro. Ora et labora, reza e trabalha, oração e labor sucedem-se num círculo sem interrupções. “O trabalho é o primeiro lugar de ascese e obediência, de manifestação das competências e da relação com os irmãos”, explica o irmão Raphaël. “É a incarnação concreta do dom de si. É o repouso da oração e da lectio divina, pela mudança de atividade principal e é ainda o meu lugar visível de fecundidade e meio de testemunho, pois os monges vivem do trabalho das mãos.”

Além da queijaria, da hospedaria e da portaria, há monges que fazem rosários, tratam dos quatro mais idosos na enfermaria, cuidam das contas e da administração, acolhem e animam encontros com os hóspedes, tratam da cozinha, roupa, espaços verdes ou limpeza, preparam a liturgia ou cuidam da biblioteca. O irmão Albéric, que completou 58 anos de vida monástica no passado dia 8 de outubro, “nunca” lamentou a opção de vida, diz, enquanto prepara as contas para fazer nascer um rosário. Durante 20 anos, a sua atividade principal foi a agricultura. De origem camponesa, gostava muito desse trabalho. Hoje, atingido por uma doença genética que o obriga a trabalhar sentado, entretém o tempo a fazer rosários ou a embalar os queijos. “O trabalho é muito interessante, permite-me estar em comunhão com todos os pobres, a quem enviamos os rosários, seja para a Nigéria, o Iraque ou a Palestina. Por isso estou feliz.”

É também a harmonia que se perscruta quando as vozes se calam na oração de vésperas, ao final da tarde, e o silêncio toma conta da igreja e de todo o mosteiro. Antes, as luzes do coro da igreja tinham-se apagado, ficando apenas um pequeno foco a iluminar a imagem da Virgem. Os monges colocam-se então em volta do altar — um bloco de pedra redondo, a fazer lembrar o altar de Henry Moore na igreja de Saint Stephen Walbrook, na City de Londres. Em meia lua, cantam a oração do ‘Salve Regina’, voltados para a imagem.

No final do canto, e após um curto silêncio, saem em fila indiana, os pés quase levitando. O sacristão, o irmão Marie-Joseph, em Cister há sete anos, apaga a luz que ilumina a Virgem, deixando a igreja em semiobscuridade. “O sentido da minha consagração na abadia é ser um canal de oração entre aquele que tento servir e o nosso mundo”, diz. Trata-se de “rezar por aqueles irmãos e irmãs que já não podem rezar ou que dizem não ter tempo para isso”. “Quando vieres, no meio da noite, possamos nós escutar a tua voz”, tinham os monges rezado, momentos antes.

A oração não se alheia, aliás, do que se passa à volta: lembram-se várias vezes os refugiados que batem à porta da Europa, citam-se nomes concretos de pessoas a viver períodos difíceis ou alegrias como a de um novo bebé. “Os textos dos salmos são gritos, choros, protestos, mas terminam sempre em esperança”, diz o irmão Raphaël. “Quando o Senhor libertou os cativos de Sião estávamos como num sonho”, rezam os monges, no salmo 125.

Queijo, monges e bactérias

Dois mil litros de leite são extraídos diariamente das 70 vacas leiteiras (há mais 30 vitelos e bois na vacaria), tratadas por três assalariados do mosteiro e que se alimentam nos 200 hectares de pastos e terrenos agrícolas. Uma vez retirado das duas cubas (2500 litros cada uma), onde está conservado a três graus, o leite é aquecido após as vigílias, por volta das 5h, e colocado em cada um dos 864 moldes distribuídos em duas grandes mesas. Entre as 6h e as 8h, trabalham as bactérias, para digerir o leite. Com o processo do coalho, a parte líquida começa a sair e a sólida fica. Não há desperdício: o líquido que sobra é para os bois beberem: “Dá boa carne e evita a poluição”, diz o irmão Benoît. O queijo é deixado nas duas grandes mesas de moldes durante cerca de três horas. Os 864 queijos produzidos de cada vez são depois desmoldados por três irmãos, durante cerca de uma hora.

Até aqui, o processo demorou um dia e ninguém tocou nos queijos com as mãos. Uma vez aspirados dos moldes e colocados nas quatro câmaras refrigeradas (normalmente, à tarde, antes da oração de vésperas) segue-se o processo de cura ou maturação, com a tarefa de os salgar com a salmoura. Cumpre-se o ritual do fabrico três vezes por semana. Religiosamente. Para o processo, são necessárias umas sete horas, enquanto a affinage (a cura do queijo, que inclui a lavagem com a salmoura), nos outros dias, demora cerca de uma hora e meia.
O leite produzido em Cister destina-se apenas à produção do queijo, “muito bom e reputado”. É um queijo cru, explica o irmão Benoît, de coagulação mista (ou seja, utiliza bactérias para a acidificação e coalho para a coagulação). Vendido a 17 euros por quilo na loja do mosteiro, cada um, de cerca de 700 gramas, pode chegar aos 25 euros nos supermercados da região ou aos 45 euros, em Paris. E garante a subsistência dos monges, assegura o irmão Benoît.

Hotéis estrangeiros também compram a produção de Cister, mas 40% dela é vendida na loja da abadia. Onde ainda se encontram livros ou DVD sobre a vida monástica, discos com música sacra ou gravada em muitos mosteiros, chás de múltiplas ervas e efeitos, licores, detergentes ecológicos, ícones, imagens religiosas, rosários, produtos medicinais ou complementos alimentares...

A doença de não dizer “basta”

Cada ano, a queijaria produz cerca de 120 mil queijos. E não mais: “É também uma opção não aumentar o fabrico”, diz o irmão Benoît. Mesmo sem qualquer publicidade, quase todos os anos o queijo esgota em alturas de maior procura. “O trabalho é para viver, não para maximizar o lucro ou o dinheiro”, diz, em mais uma afirmação para contrariar o espírito do tempo. “É importante ganhar a vida com o meu trabalho, senão exploro o trabalho dos outros. O nosso mundo está doente de exploração.” A propósito, cita a história bíblica do capítulo 36 do livro do Êxodo: o povo oferece objetos, materiais e presentes para construir um santuário. A dada altura, Moisés manda proibir as ofertas, por já haver suficiente.

“‘Basta’ é uma palavra que liberta”, diz o monge. “Hoje, a economia está doente porque não é capaz de dizer ‘basta’. Mas é heroico ser capaz de o fazer. Para alimentar Deus não é preciso mais do que o devido.” O irmão Raphaël dirá, mais tarde, o mesmo por outras palavras: “Nunca gostei do dinheiro. Gosto de trabalhar, mas não mais do que o necessário.” O mosteiro, como as outras abadias cistercienses, foi construído a cerca de três quilómetros das localidades mais próximas. Mas, ao mesmo tempo, está perto de grandes vias de comunicação. Situado no coração da Borgonha, Cister está perto de Dijon e Beaune, importantes cidades do ducado borgonhês. O lugar é tranquilo, entre pequenos cursos de água, pássaros, o pequeno bosque e a quinta, mesmo se há uma estrada nacional a 300 metros, que cruza uma antiga estrada romana. “Na Europa, o deserto é a floresta”, dirá o irmão Raphaël, abrindo o hábito e os braços sobre os jardins e o pequeno bosque da abadia.

Depois de um período de expansão inicial, o mosteiro sofreu um grande incêndio no século XIII e duas pilhagens, no século XIV, durante a Guerra dos Cem Anos — o que se repetiria no século XVI, com as guerras religiosas. No século XVII, na sequência do Concílio de Trento, um novo movimento reformador atravessa a Ordem — nomeadamente, na insistência na ideia da pobreza e nos tempos de silêncio e de oração. A reforma começa no mosteiro da Trapa, o que dá origem ao nome de trapistas, de cuja tradição os atuais monges de Cister são herdeiros. Após a Revolução Francesa de 1789, o mosteiro foi vendido como bem nacional, acabando desmantelado e com várias utilizações, incluindo uma fábrica de açúcar. Em 1846, o padre Rey, de Lyon, fundou ali uma colónia agrícola para jovens desfavorecidos — a atual hospedaria é um dos edifícios dessa época. Em 1892, os diversos mosteiros trapistas juntam-se para criar a Ordem Cisterciense da Estrita Observância, comprando o terreno e os edifícios de Cister que ainda sobreviviam, e restaurando uma comunidade na abadia. Mesmo assim, muito teve de ser reconstruído e, durante a I Guerra Mundial, o mosteiro ainda serviu de hospital.

O edifício dos monges é, agora, o mais antigo, de antes da revolução — exceção feita ao exterior dos edifícios da vacaria e da queijaria, que data do século XVI, mesmo se o interior tem apenas cinco anos. No século XVI, pretendeu-se construir um Cister grandioso como Versalhes, mas o projeto ficou pelo caminho. Por isso, quando se entra no edifício Lenoir, onde vivem os monges, vê-se apenas um grande corredor, uma das quatro partes do que deveria ser o claustro, nunca terminado. “Se o Senhor não constrói a casa, os construtores trabalham em vão”, rezam os monges, na oração da hora nona, a partir do salmo 126.

O despojamento marca todos os espaços, desde a sala do capítulo até ao refeitório, passando pelo scriptorium, onde os monges leem a Bíblia, entre as quatro e a cinco da manhã. A antiga biblioteca é um belo edifício revestido com tijolos envernizados, terminado em 1509 e entretanto restaurado. Situada ao lado do dos monges, a antiga biblioteca acolhe agora uma exposição de manuscritos e pode ser visitada, de modo a poder apreciar-se essa outra arte monacal, a do livro como “objeto precioso”, como lhe chama Sophie Cassagnes-Brouquet, em “La Passion du Livre au Moyen Âge” (A Paixão do Livro na Idade Média, ed. Ouest-France). No salão principal, uma divisa inscreve-se em maiúsculas, em latim, sobre o arco: Divinarum humanarum que rerum cognitio. Que é como dizer “o conhecimento das coisas humanas e divinas.”

Artigo publicado na edição do Expresso de 31 outubro 2015