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Comida processada, o novo tabu

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d.r.

As salsichas e hambúrgueres são o novo inimigo público número um, mas há mais alimentos transformados pelo homem. E, sim, ainda não estamos proibidos de os comer. Tem tudo a ver com a quantidade

Carolina Reis

Carolina Reis

Texto

Jornalista

Ana Serra

Ana Serra

Infografia

Experimente fazer o seguinte exercício: antes de encher o carrinho das compras no supermercado, leia os rótulos de cada uma das embalagens em que pegar. E tenha especial atenção à letra E, em especial quando surge antes de números como E170 (carbonato de cálcio), E270 (ácido láctico), E330 (ácido cítrico), E 440 (pectinas), E570 (ácidos gordos) ou E941 (azoto). Sempre que encontrar estas combinações pense duas vezes se vai comprar em doses para comer todos os dias. Estes aditivos alimentares podem ser uma de quatro coisas (nenhuma delas muito boa). Ou são corantes, utilizados para adicionar ou restaurar cor num determinado alimento; ou conservantes, usados para prolongar a durabilidade dos alimentos; podem ser antioxidantes, para aumentar a durabilidade; ou ainda agentes de tratamento da farinha, adicionados para melhorar a qualidade da cozedura.

Saiba que ao comprar algo com o tal E no rótulo está a levar um alimento processado, ou seja, deliberadamente alterado do seu estado natural. Não é que estes aditivos alimentares sejam proibidos, pelo contrário, constam da legislação comunitária sobre alimentação — o que, aliás, atesta pela sua segurança. A carne processada, depois do estudo da Organização Mundial de Saúde que veio relacionar o seu consumo excessivo com o cancro, passou a inimigo público número um, mas há mais alimentos transformados pelo homem nas nossas dietas.

“Alguns alimentos processados, tais como as refeições pré-confecionadas, podem conter teores elevados de açúcar ou de sal e, por isso, serem pouco aconselhados para consumo frequente. A leitura dos rótulos poderá permitir identificar alimentos mais adequados nutricionalmente e que, por 100 gramas de produto, tenham menos de 5 gramas de açúcares, menos de 3 gramas de lípidos e menos de 0,3 gramas de sal”, alerta Ezequiel Pinto, diretor do curso de Dietética e Nutrição da Universidade do Algarve.

Ao contrário da ideia que se generalizou nas últimas semanas, não são só os hambúrgueres e as salsichas os alimentos processados. Quando se fala neste tipo de comida engloba-se, segundo o Conselho Europeu para a Informação Alimentar, tudo o que seja congelado, desidratado, curado, salgado, fermentado ou fumado, assim como tudo o que tenha recebido aromas, conservantes ou edulcorantes. O problema do excesso de processamento são as propriedades naturais que o processo retira aos alimentos. E, por esta altura, já está a pensar que vai encher o carrinho de compras com... nada. Calma. Cuidado e equilíbrio não são sinónimo de proibição. Tem tudo a ver com a quantidade.

Nutricionistas e endocrinologistas alertam para os perigos do consumo excessivo de produtos processados, o que significa comê-los todos os dias, a todas as refeições. Numa altura em que estão a ser diabolizados, contudo, o equilíbrio passou a ser a palavra de ordem. Sim, devem ser evitados, mas não, não é preciso nunca mais comer uma bolacha ou um hambúrguer. A vida, também na alimentação, não é a preto e branco e a velha máxima segundo a qual “tudo o que é em excesso faz mal” deve prevalecer.

Entre os dois extremos existem várias camadas de cinza. “Não se trata de dizer que tudo o que é processado é mau e tudo o que não é processado é bom”, defende Nuno Borges, presidente da Associação de Nutricionistas. Um desses exemplos são as massas alimentícias, como esparguete ou o macarrão, processadas, porém com poucos ingredientes, para serem mais facilmente digeridas. O bife, um alimento natural, é um outro exemplo: quando é grelhado em demasia sofre um tipo de processamento. “É difícil arranjar um chapéu que englobe tudo. Existem alimentos que diferem notavelmente no seu grau de processamento”, destaca o nutricionista. Não existem definições oficiais, no entanto, há artigos científicos que começam a estabelecer diferentes tipos de patamares para o processamento (ver gráfico).

Na hora de escolher o que comer, há um truque que pode ser usado: comprar o que tenha cinco ou menos ingredientes no rótulo. “É importante saber ler as embalagens e sempre que as pessoas não perceberem o que lá está o melhor é perguntar ao médico ou ao nutricionista”, diz Davide Carvalho, endocrinologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. O “principal flagelo”, defende o especialista, é a obesidade (afeta um milhão de adultos), um fator a ter em conta no risco de cancro.

Recentemente, a preocupação com a alimentação deixou de ter como objetivo a elegância e passou a ser feita em nome da saúde. Pelas prateleiras dos supermercados multiplicam-se os produtos saudáveis, as sementes, os alimentos biológicos, os cereais alternativos. Já na internet é fácil encontrar bloggers ‘especialistas’ em alimentação saudável (que se baseiam apenas nas suas próprias experiências, sem terem qualquer tipo de formação) ou casos de quem passou de um nº 42 para um 34 cortando o glúten, os produtos lácteos e os processados.

Vivemos um período de modas na comida em que, de repente, se generalizam as teorias. “Aparece um estudo a dizer que algo faz mal e toda a gente deixa de comer. Parece que é impossível ter bom senso para fazer uma dieta equilibrada, as pessoas gostam de modas, de tendências”, frisa Davide Pinheiro. Só assim se percebe que a atual preocupação com os alimentos processados, um fenómeno antigo e cuja origem remonta à conservação de latas em França, durante a época de Napoleão Bonaparte. “Não se pode meter tudo no mesmo saco. Hoje em dia, praticamente todos os alimentos passam por algum tipo de processamento”, recorda Nuno Borges.

Artigo publicado na edição do Expresso de 7 novembro 2015